14 de abril de 2011

GARÓFALO PELACANI

Rembrandt, pintor holandês,
séc. XVII.
Garófalo Pelacani mandou publicar nos classificados do jornal O Fluminense, de Niterói, aviso de que estava disposto, a partir daquela data, a encerrar as funções de mancebo recalcitrante que vinha exercendo há quarenta e três anos, com uma pretensa folha corrida de dar inveja a muito Dom Juan afamado.
Chegara à conclusão de que lhe faltaria, na velhice, quem cuidasse dos achaques da idade a que todos se sujeitam, desde que não se abotoe o paletó com antecedência. Mas não queria ninguém de suas relações, porque essas, na verdade, se não recomendaria para os amigos, muito menos para si mesmo.
Na publicação, que mandou destacar em negrito, exigia, dentre outras qualidades, que a candidata ao cargo de cara-metade fosse mais nova do que ele, no mínimo, dez anos, bem apessoada, razoavelmente culta e inteligente, falasse a língua de Dante com fluência e gostasse do cinema italiano, sobretudo de Rossellini, De Sica, Visconti, Fellini e Antonioni. Cartas para a redação. E ficou esperando.
É claro que não achou, porque mulher assim não anda dando sopa na praça. As poucas com tais requisitos que, hipoteticamente, ainda estivessem por aí de bobeira, por certo, teriam um bando de marmanjos a seus pés e não teriam tempo de buscar este tipo de coisa em jornal.
Ele queria que uma pepita de ouro reluzente pulasse das profundezas de uma mina e fosse parar sobre sua cama? Era um pretensioso!
Garófalo passou toda a sua vida em fuzarcas e folias, esqueceu-se de procurar parceira conveniente e agora julgava que fosse encontrar tal joia com um mísero classificado barato, numa página escondida, de um jornal de circulação limitada? Era um grande pretensioso!
Mas não é que, após um mês da publicação, já moribunda a esperança, foi-lhe enviada pelo jornal carta manuscrita de pretendente ao posto!
Em letra caprichada, a candidata se mostrou: "Querido Garófalo - permita-me tratá-lo assim -, vi seu anúncio sentimental no jornal O Fluminense que veio embrulhando um quilo de aipim que papai comprou na feira, no último fim de semana (Mamãe ia preparar vaca atolada.). Fiquei surpresa como um homem requintado como você ainda não tenha encontrado a pessoa ideal. Não sei se estarei à altura de suas exigências, mas creio que me aproximo bastante. Sou solteira e disponível. Gostaria, se não for inconveniente, marcar encontro, para que possamos nos conhecer melhor. Arrivederci." E se assinou Francesca,  acrescentando um PS: "Meu filme preferido é Ladri di biciclette, do grande De Sica", mais endereço eletrônico e número de celular.
Garófalo foi aos céus e voltou!
Já ouviram falar de sopa no mel? Pois foi exatamente isto que ele pensou.
- Não serei o famoso Garófalo das mulheres, se não conseguir o que quero. Eu sou mais eu!
Combinou tudo com ela, pelo endereço eletrônico: gatasonhadora@hotmail.com, depois de trocarem algumas mensagens. O local seria a praça de alimentação do Plaza Shopping, o pior possível, pela muvuca que sempre se forma ali.
No dia aprazado, na hora marcada, lá estava Garófalo a aguardar a chegada de sua pretendente. Para fingir tranquilidade, tomava água mineral sem gás.
Conforme o combinado, identificou a criatura de amarelo canário, livro à mão, espaço físico duplamente ocupado por uma só pessoa, que andava em passos gangorrados, a vir em sua direção. Não era velha, nem nova: naquela idade incerta, em que se pode ser qualquer coisa. Não era feia, nem bonita; mas aquilo que não agrada, nem desagrada. Só era um tanto gorda, nitidamente.
Ela, por sua vez, o olhou com um misto de frustração e condescendência. Num átimo, imaginou sua vida cuidando daquele coroa metido à besta, cavanhaque grisalho, unhas com verniz, pose de gay enrustido. E passou direto pela sua mesa, como se não o tivesse visto.
Porque ela, Francesca Minardi Souza, preferia, mil vezes, ver seus filmes do neorrealismo italiano sozinha a passar o resto da vida cuidando de gente cheia de manias.
E Garófalo ficou na praça de alimentação, a alimentar as caraminholas de sua cabeça, no afã de entender por que, raios, aquela gordinha jeitosa passou batida, fingindo não o ver.
Teria de repetir o anúncio, ou recolher-se ao asilo, quando chegasse a hora.

Um comentário:

  1. Se aparência é tudo, não sei... Mas que antes só que mal acompanhado, com certeza.

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