12 de dezembro de 2011

É DA PARTE DE SEU ELEUTÉRIO!

Bateu palmas, chegou com ares de compadre, meneando a cabeça e levando a mão à aba larga do chapéu de feltro:
- Lorrado seje Nosso Sinhô Jesus Cristo!
O outro respondeu, porta já aberta:
- Para sempre seje lorrado!
E não teve tempo de voltar correndo para dentro da casa simples, porque o tiro lhe atingiu as costas.
O que chegou tirou o chapéu, fez uma reverência, certificou-se de que o tiro pegara em local mortífero, deu uma cusparada de lado e disse para o moribundo:
- Passe munto bem! É da parte de seu Leutero.
Recolocou o pito na boca, montou no cavalo castanho pé-duro, mal arriado, e sumiu na volta da estrada que contorna o morro plantado de café e milho.
A mulher da vítima, tão logo ouviu o estampido, voltou correndo dos fundos do quintal, onde dava milho às galinhas. Isto era cedinho. Mal o sol despontara nas abas da Serra da Boa Esperança, e já havia desgraça plantada na chácara.
Desesperada, chegou à frente da casa e encontrou o marido agonizando, de borco, na soleira da porta, as pernas espichadas para a varanda de madeira seca, o resto do corpo para dentro. Um rombo nas costas vertia sangue.
Ainda viu um pouco de poeira levantada na curva do caminho, amarelada pelo sol matinal de um abril fresco e despreocupado.
Naquele dia, Honório, seu marido ali estendido, agora já morto, completaria trinta e dois anos. Morreu em antes de arredondar a conta, com a galinha ao molho pardo que a mulher prepararia para comemorar a data, como combinado na véspera: Mulher, faz aquela galinha que só você sabe!
Os dois filhos pequenos, de nove e sete anos, ainda dormiam. Não haveria aula na escolinha rural a uns bons dois quilômetros dali. A nova professora tinha compromisso na sede do município, para resolver problemas de sua matrícula na Secretaria de Educação.
Com os gritos da mulher, os filhos acordaram sobressaltados e chegaram até a porta da frente da casa. De início, não entenderam muito bem a cena, porém entraram em pânico, ao ver a mãe agarrada ao corpo do pai, o sangue correndo pelo chão e entrando nas gretas das tábuas do assoalho.
A casa ficava isolada no meio de uma chácara, cercada de arame farpado, uma tronqueira a barrar o acesso de animais, e um rústico canteiro de florezinhas bobas da roça do lado esquerdo de quem entra.
Vizinhos de algumas centenas de metros correram em direção à fonte do barulho do tiro e chegaram, três deles, em poucos minutos. Neca trazia a espingarda; Dilino, o facão e Crisanto, uma garrucha quarenta e quatro, armas sem utilidade. Não houve tempo para nada. Honório, naquele instante, já era defunto.
Providenciaram a saída da viúva e das crianças da cena. Neca os levou para sua casa, e Crisanto arriou o cavalo para ir até a sede do distrito – que eles chamavam simplesmente “rua” –, a fim de comunicar o fato ao subdelegado de polícia.
Na rua, Ivo tomava café no bar do Roldão, quando foi cientificado do crime. Mandou chamar o soldado Afrânio e o cabo Guilherme, e partiram os três, mais Crisanto, para a chácara Providência, localizada a uns seis quilômetros da vila, um pouco depois da Fazenda da Forquilha, já ameaçando subir a Serra.
A cena era a mesma que Crisanto havia deixado sob a vigilância de Dilino, preocupado em espantar os cachorros de perto do corpo do vizinho morto. Naquela hora, o sangue talhado no chão tinha uma cor esquisita.
Ivo e os dois meganhas examinaram canhestramente a cena, rodaram em torno do cadáver, fizeram perguntas, verificaram o chão próximo à casa à procura de pistas, olharam a estrada em curva, viram a altura do sol naquele momento e imaginaram coisas.
A viúva, muito abalada, foi poupada naquele instante pelo subdelegado, que mandou providenciar a remoção do corpo até a sede do município, onde o legista faria a autópsia.
Dois meses depois do ocorrido, as investigações chegadas a termo, o subdelegado encaminhou ao delegado da cidade o relato da ocorrência.
Como um cão farejador, o cabo Guilherme apurara tudo esmiuçadamente, indagando uns e outros, de casa em casa, de venda em venda, de birosca em birosca, por aqueles caminhos, e não tinha dúvidas de quem praticara o crime: Nestor da Zefa.
Nestor da Zefa não tinha trabalho certo. Fingia coisas, dizia que herdara herança em dinheiro do pai, com fazenda para os lados de Resplendor, em Minas, negociava cavalos, vendia relógios, ausentava-se com frequência, mas estava sempre bem, sem aparentar necessidades, sem dever na praça, comprando sempre à vista, coisa desacostumada na vila.
Depois do levantamento feito, tudo dentro do maior sigilo que um meganha conseguia naqueles tempos, naquelas bandas de mundo, ele e o soldado Afrânio, sob a chefia de Ivo, astuciaram plano para pôr as mãos em cima de Nestor da Zefa, no momento em que ele jogava partida de sinuca no bar do Roldão, o subdelegado na porta, com reforço de mais quatro meganhas da delegacia da cidade.
Quando Nestor da Zefa percebeu que o caldo havia entornado, quis fugir pelos fundos, passando por detrás do balcão, de onde derrubou um vidro de pirulitos. Foi recebido por dois soldados, que o imobilizaram, amarraram-no com corda grossa e o conduziram para sede do município.
Lá aplicaram os corretivos de praxe nos interrogatórios policiais dos idos dos anos cinquenta, e Nestor da Zefa deu com a língua nos dentes de não deixar pormenor sem esclarecimento, nomeando mandante, preço e demais combinações da encomenda, inclusive a data do aniversário do infeliz.
Eleutério Rocha, assim que soube da prisão de Nestor e conhecendo-o como o conhecia, sabedor de que era um cabra frouxo, sem couro na língua, disse para a mulher que estava de viagem marcada para São Mateus, no norte do Espírito Santo, divisa com a Bahia. E saiu dirigindo seu Ford cristaleira, cinquenta quilômetros por hora, pulando na estrada de chão, para fugir da justiça.
Nunca mais foi encontrado, ou dele notícia se teve. A mulher, mal recebeu carta sem remetente identificado, daí a uns tempos também se mudou da vila, levando filhos e abandonando tudo o que tinham construído até então.
Nestor da Zefa foi julgado, condenado e morreu na cadeia, por conta de desavenças com outro preso, dois anos depois. E não se soube que chorassem por ele. Na vila, mesmo, houve certo alívio nas pessoas.
A mulher e os filhos de Honório nunca saíram da chácara Providência.
Os meninos cresceram, viraram homens e, por qualquer conto de réis, dão cabo de não importa que sujeito tenha atravessado a vida de fazendeiros como seu Eleutério. Tal qual ocorreu com seu pai, tantos anos atrás, por conta de migalhas e mesquinharias, sem a mínima importância. A vida humana levada na conta de raspa de tacho.
Grant Wood, Stone city (séc. XX).

3 comentários:

  1. Belíssimo conto. Digno de um Graciliano Ramos. Parabéns, Mestre!

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  2. Falando assim, fico até com esperança de que nosso time seja campeão.

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  3. Retrato de um universo sem honra. A frase final diz tudo: "A vida humana levada na conta de raspa de tacho".

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