26 de outubro de 2010

ZÉ DE LINO

(Para o professor José Luiz Padilha Martins)

Ao chegar a certa idade, com a cacunda já devastada pelo trabalho árduo, Zé de Lino abandonou a lida da roça, essas coisas de tocar a enxada, carpir mato, cavucar terra para plantar, e aceitou o emprego de zelador do prédio do recém-inaugurado Ginásio Liberdade, vizinho do velho Grupo Escolar Marcílio Dias.
A chegada do curso ginasial à vila também trouxe uma onda de orgulho aos moradores, carentes de melhores oportunidades para seus filhos que quisessem prosseguir os estudos e pudessem, com isso, encontrar novos caminhos a trilhar.
Embora fosse aquilo que se possa chamar de caipira, Zé de Lino sabia muito bem da importância da escola. Ele mesmo tivera filhos que não puderam escapar ao fatalismo de estar visceralmente presos à terra, por conta de suas próprias limitações.
Por isso, a benquerença, a estima por escola e livros se colocava na extremidade oposta de sua parca e mal letrada vida de homem roceiro, que assinava o nome assim, assim, com umas garatujas desgovernadas, caneta e lápis bichos ariscos para suas mãos cheias de calos. Se ele não conseguiu entrar pela porta da frente da escola, não seria por isso que se rebaixaria. Deliberou que, a partir de então, não mais seria aquele mocorongo simplório, de fala estropiada. Já que estava trabalhando no Ginásio Liberdade, tinha de cuidar também do seu jeitão de falar, como cuidaria do prédio e do espaço anexo. E pensou lá com seus botões: “Tá morto o matuto pé-duro. Nasceu um novo homem letrado!”.
Passou, assim, a aproveitar todo tempo vago para ler o que lhe caísse nas mãos. Era com dificuldade, tanto pela fraca instrução, quanto pelas vistas vacilantes, que lia isso e aquilo, tendo no dicionário sua predileção. Às vezes, já tarde da noite, após o serviço, morgava sobre a mesa o corpo cansado a cobrir o livro, a mulher tendo de chamá-lo a ir para a cama.
Não demorou nada e começou a disparar frases e mais frases que passaram a assustar os ouvintes. Ô, diacho! De onde, diabos, Zé de Lino tirava aquelas palavras, de combinação estapafúrdia, para dizer as coisas mais banais do mundo? Se lhe perguntassem simplesmente o que achava do tempo, ele respondia:
- Na minha imaginação cismática, a precipitação de água deixará canídeos submersos!
- Tem fogo aí para um cigarro, seu Zé?
E ele, todo soberbo, voz gutural a sublinhar a frase pomposa:
- Olvidei o equipamento ígneo no recesso do lar.
Ao lhe dizerem “Bom dia, seu Zé!”, a resposta vinha tortuosa, quase esquizofrênica:
- Bom interregno de tempo diário para você também!

Certo dia, tendo faltado material para a limpeza dos banheiros, como lhe comunicou a faxineira, dirigiu-se ao diretor, professor Padilha:
- Vim requerer a Vossa Senhoria a liberação de estipêndios, a fim adquirir no comércio local insumos desinfetantes para as zonas de micção.
E, se o diretor não conhecesse a figura, seria bem provável que o odor de ureia extravasasse os umbrais do mijadouro, pela falta de verba.
Depois de trabalhar o tempo que lhe permitiu requerer a aposentadoria, assim que voltou do posto do INSS, onde protocolara requerimento autuado dentro das exigências burocráticas, anunciou a todos que se encontravam na secretaria da escola:
- Presentemente desejo manifestar o intencionamento de dar baixa nas minhas atividades laborativas e adentrar no rol dos subvencionados pelas burras governamentais.
- O quê?! – espantaram-se todos, sem entender.
- Como diz o vulgo: vou me aposentar, súcia de apedeutas!
Tão logo lhe foi deferida a solicitação pelo órgão do governo, botou o pijama e também aposentou sua linguagem arrevesada para nunca mais. Que aquilo de carpir livro, cavucar dicionário, semear frases, dava um trabalhão danado para os miolos! Afadigava sobremaneira o conteúdo acinzentado da caixa craniana! Arre!

2 comentários:

  1. Deliciooosoooo! Amei Seu Zé de Lino... Quanto ao afadigamento da caixa craniana, também minha figura magistra est anda cansada dessa súcia de apedeutas.Tirante a artrose degenerativa - não é bico de papagaio, sô - ainda penso, logo penso que ainda existo. E se existo, posso fazer entrança no seu blog vez em quando? Rita, amiga do Zé, o professor.

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  2. Seja bem-vinda, Rita! Esteja à vontade. A casa também é sua.

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