16 de outubro de 2010

DEU LADRÃO NA PENSÃO DE DONA DINORAH

Já quase uma da madrugada e estava estudando Literatura Francesa, para a prova que aconteceria na semana seguinte. Era um sábado e, no meu quarto de três camas, o Milton dormia, depois de ter vindo da casa da noiva, e o Luís do Bá, como sempre, andava pela noite, em libações.

Atento à leitura que fazia, sob a luz de abajur na mesa colada à cabeceira da cama do Milton, não percebi quando ele se levantou para ir ao banheiro. Na volta, sim, porque veio alvoroçado e me disse entre dentes uma frase que foi preciso repetir, porque não atinara para seu sentido:

- Você não sabe de nada e não viu nada!

E se deitou novamente, cobrindo a cabeça com o cobertor ralo típico de moço de pensão.

Não deu dois minutos e entrou pelo quarto, enrolado numa toalha, empunhando uma pistola Mauser 7.65 automática, o vizinho, que entrara pela janela do banheiro, através do telhado da casa da pensão geminada à sua (como já disse no primeiro texto deste blog - Hoje eu vou dormir com um homem de obra). Estava à procura de alguém que tinha chegado à janela do seu banheiro, parede e meia com o banheiro da pensão, no justo momento em que tomava banho, àquela hora da madrugada, sabe-se lá por quê!

Quando me viu, perguntou se percebera alguém entrando no quarto. Aí a ficha me caiu. Falei que não tinha visto ninguém, que estava estudando ali já há um bom tempo e que ninguém entrara no quarto. Ele disse que havia entrado ladrão pela janela do banheiro.

Ao perceber meu colega deitado, todo coberto, puxou-lhe o cobertor e como que reconheceu a cara que vira, num átimo, olhando pela janela.

- Foi você, seu canalha, que estava olhando pela janela do meu banheiro! Por quê? O que é que você queria?

Milton jurou de pés juntos que não fora ele, que não saíra daquela cama desde que se deitara, por volta das onze da noite, pedindo, inclusive, meu testemunho. Garanti que sim, que ele não arredara o corpo da cama.

O homem estava possesso, asseverando que era ele, e saiu procurando pelos outros quartos, vazios àquela hora propícia à boemia.

O pandemônio instalado na parte superior da pensão acabou por acordar Dona Dinorah e as moças que moravam no térreo. Todas ficaram espantadas com o fato de que alguém, supostamente, tenha invadido a casa. Ao saberem da possibilidade de ter sido um ladrão, já escafedido do local, Nêmesis, moça bem humorada, ainda rogou praga no possível invasor, por se ter metido em domínios masculinos do segundo andar, enquanto na parte de baixo, segundo ela, havia várias donzelas desamparadas:

- Bem feito! Tomara que seja preso! Onde já se viu isso: com tanta mulher carente aqui em baixo, vai logo se meter nos quartos dos rapazes!

Passada uma meia hora de tumulto, o vizinho, ainda de arma em punho, falando pelos cotovelos, acreditando piamente que era o Milton o autor da façanha, dizia que não iria prejudicá-lo, levando o caso à polícia, porque sabia ser ele também colega bancário. A suspeita se fez forte, porque Milton esquecera as sandálias de dedo junto da janela. Na contra-argumentação, Milton dizia ser comum os rapazes esquecerem suas sandálias no banheiro. Desculpazinha muito da esfarrapada, que o vizinho não aceitou.

Enfim o vizinho voltou para sua casa e o zum-zum-zum ficou zoando na madrugada da pensão por quase uma hora, até que tudo voltou ao normal.

Tudo sossegado, quis saber do Milton o que, de fato, acontecera.

Ele, com os olhos vermelhos de sono, então me disse que, ao se levantar para ir urinar, ouviu o barulho do chuveiro da casa ao lado. Imaginando que fosse a mulher loura, bonita, gostosa e um tanto dadivosa do vizinho a tomar banho àquela hora, resolveu dar uma olhada, como vários rapazes na pensão faziam. Deu azar, pois era o marido, que viu aqueles grandes olhos curiosos na janela de seu banheiro.

E eu, inocente e bobo na situação, ainda tive de dar falso testemunho para as malandragens do Milton.

Vida em pensão é fogo!

Um comentário:

  1. Se tivesse ido, o Milton, com intenção de olhar homem, seu testemunho teria sido falso, mas para olhar mulher bonita, e do vizinho!, foi justo e verídico o testunho.

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