1 de junho de 2012

O CANTO CHORADO DE ZÉ DAS CANDONGAS (cordel desencantado)

Se eu fosse Zeca Baleiro
Não seria Caetano
Se eu fosse trezentos dias
Eu não seria um ano
Não sendo Mar Tenebroso
Também não sou oceano.

Não sou rio caudaloso
Também não sou cachoeira
Minha água corre pouca
Seca é minha companheira
E se acaso vem enchente
Leva minha casa inteira.

Não sou ponto de macumba
Mas também eu não sou samba
Eu choro sem sete cordas
Passeio na corda bamba
E se o sabão é fedido
A vida quer que eu lamba.

Podia ser uma fera
Mas não passo de mosquito
Vivendo assim como vivo
Desse jeito esquisito
Parece que estou alegre
No entanto estou aflito.

Podia rir disso tudo
Mas a tristeza me invade
Vim de uma roça tranquila
E me perdi na cidade
Andei atrás de mentiras
E nunca achei a verdade.

Riqueza também não tenho
Pobreza me bate à porta
Se eu rio de alguma coisa
Se alguma coisa conforta
Logo vem aquela praga
Que destrói a minha horta.

Se eu crio porco castrado
Vem a doença e carrega
Se eu planto feijão de corda
Eu só colho berdoega
O milho que eu plantei
Não vai dar para a refrega.

Cada um tem sua sina
Eu tenho também a minha
Um dia meu galo canta
Vitorioso na rinha
Enquanto tal não se dá
Eu vou criando galinha.

E por mais que um perrengue
Em minha vida persista
Eu sou o Zé das Candongas
Eu não sou Eike Batista
Meu fiado foi negado
Só posso comprar à vista.

Almeida Jr., Caipira picando fumo,
1893 (em pt.wikipedia.org).
 Aproveito o que me resta
Ou aquilo que me sobra
Há quem sofreu muito pouco
Para ter tão grande obra
Acho que vim para sapo
E o outro veio para cobra.

E quem disse que eu desisto
De viver mesmo assim
Do outro lado não sei
Se haverá o jardim
Que alguns prometem tanto
Depois que chegar o fim.

Vou terminar o meu canto
Vou terminar meu lamento
Não sendo Zeca ou Caetano
Nem oceano ou portento
Meu filete de água pouca
No entanto vai correndo
Enquanto alguns vão depressa
Sigo na vida bem lento
Não transbordo não desvio
Deste modo me sustento.

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