21 de dezembro de 2010

O PORCO DE NATAL*

Lembro-me, como se fosse ontem, de todas as peripécias que culminaram num Natal completamente diferente e cheio de fartura em nossa casa simples. Diferente de todos os outros. Por essa época, eu tinha quinze anos, quase completando dezesseis, e as imagens estão ainda bem nítidas em minha mente.
(imagensdahora.com.br)
A história começou, quando meu pai resolveu levar o vizinho às barras dos tribunais, só porque um porco do outro, escapado do chiqueiro, deu de fuçar seu canteiro de alfaces e cebolinhas verdes. A cerca do quintal tinha um buraco perto do pé de jamelão e, por ali, o suíno adentrou seus domínios. Era ainda manhãzinha, quando ele notou o bicho lá, revirando tudo e comendo algumas cabeças de alface, temperadas com cebolinha. Fez xô, cué-cué, pegou uma vara e espantou o dito invasor.
Como era um homem quase sem instrução, procurou ajuda de quem conhecia os enigmáticos meandros da justiça: o prático de farmácia Aristeu dos Anjos, cuja ciência provinha do famoso Almanaque Biotônico Fontoura, de muitos méritos e informações. Aliás, Aristeu dos Anjos era especialista em tudo o que o tal almanaque veiculava: das fases da lua e do movimento das marés, à época propícia para a pesca e às infusões eficazes para as mais diversas doenças.
Aristeu, que jamais se fez de rogado nessas ocasiões, deitou sabença:
- Negócio de fuçação de porco não está contemplado na jurisprudência dos tribunais, seu Daniel. É da natureza do porcino. O bicho nasceu com essa predestinação. É preciso que ele tenha gerado um prejuízo atestado e comprovado, seu Daniel. Só fuçação não dá processo. É perca de tempo. É futucar juiz togado por ninharia, o que pode despertar o veneno do cargo contra sua pessoa e ainda piorar a situação. Desaconselho veementemente, seu Daniel.
Mas meu pai, Daniel Prudêncio – esse era o nome completo dele –, garantiu ao encorpado Aristeu da farmácia que o tal suíno lhe tinha comido várias cabeças de alface, para mais de cinco, acompanhadas de algumas moitas de cebolinha da horta.
- Bem, nesse caso, a indenização possa ser que chegue a uns dez mil réis, no máximo, o que não dá para pagar nem as custas do processo, quanto mais os honorários do causídico. É melhor deixar do jeito que está, seu Daniel. Releve o prejuízo. Procure fechar o buraco da cerca. Faça uma vistoria em todo contorno do quintal e fale com o vizinho para botar atenção nos seus capados. O senhor vai gastar chumbo grosso para caça pequena, seu Daniel.
Bem, se Aristeu dos Anjos, montado em toda aquela ciência almanaquista, disse, é porque, por baixo, devia de ser verdade, pensou papai, na sua simplicidade. Dada a conversa por encerrada, voltou aos nossos pobres domínios no entorno da vila, lá para os lados do valão Liberdade. Ao chegar a casa, encontrou o resto do canteiro de alfaces e cebolinhas comido, a terra toda revirada e o buraco da cerca ainda mais alargado. Muito contrariado, mas para não fazer besteira de que se arrependesse posteriormente, procurou o vizinho. O homem fez que ouviu e lhe garantiu que iria tomar as providências cabíveis para o caso da invasão indesejada. E de nada adiantaram os consertos da cerca. Sempre havia algum porco invadindo nosso quintal.
Até que um dia, já farto dos prejuízos e do pouco caso do dono dos capados, papai pegou pelas patas traseiras um leitãozinho já bem fornido de carnes e torresmos, chispes e bacon, arrastou-o para o lado oposto da casa, onde, de caso pensado, havia providenciado um cercadinho tosco e lá o deixou até a noite. Entradas as horas mortas, foi com um machado novo, comprado para o serviço, e arriou com vontade o olho da ferramenta no cabelouro do pobre coitado suíno, que desencarnou sem um grunhido. Depois correu com ele para dentro de casa, onde, com a ajuda da mamãe, especialista no assunto, providenciou o descarne do cadáver e o preparo de tripas e redanhas, de sangue e miúdos, de lombos e pernis, costelas e carrés, para a ceia do Natal que se aproximava.
(In cozinhandopararelaxar.com)
Nossos natais eram sempre minguados. O que papai produzia em nossa pequena propriedade não dava para termos uma vida folgada. Vivíamos, mas sem maiores abastanças. Por isso é que todos ficamos felizes ao ver a faina dos dois, no preparo do leitãozinho sacrificado.
E foi assim que a família de seu Daniel Prudêncio, meu pai de muitos anos já nas costas, que nunca teve muita estima pela espécie abatida, passou seu Natal carnívoro: com o barulho dos dentes destroçando o pururucado da pele do bichinho, a gordura a escorrer por nossos queixos e dedos, todos nos fartando da infelicidade de um inocente leitão que, inadvertidamente, penetrou o microfúndio do meu estressado pai.
Deus haveria de ter complacência daquele espírito de porco, porque o corpo estava servido com farofa de ovo e arroz soltinho, tudo espalhado sobre a mesa, coberta com uma toalha quadriculada de vermelho e branco.
E nunca mais houve um Natal como aquele!
 (*Contraponto ao conto de Mário de Andrade, “O peru de Natal”, do livro Nós e o Natal.)

2 comentários:

  1. Eita indenização bem cobrada, não, Mestre? Vocè precisa publicar mais contos por aqui, são simplesmente geniais!

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