10 de dezembro de 2010

BATER EM PADRE É SACRILÉGIO

Nos primórdios da vila de Santo Antônio da Liberdade, hoje conhecida por Carabuçu, houve um padre que lá foi estabelecer seus rebanhos de fiéis, de gado e de mulheres.

Naquela época, as disputas de terra eram sangrentas. Terra nova, inexplorada, aberta à grilagem do mais esperto, do mais poderoso.

José Varzeano, Capela de Santo Antônio, em
memoriasdomeubairro.blogspot.com.
 Prestígio de padre pode ser discutido no céu, por anjos e santos, não em lugarejos perdidos do interior. Assim, montado em seu prestígio, o padre abocanhou alguns alqueires de terra, onde plantou café, criou gado, fixou colonos, construiu uma bela sede de fazenda. Ministrava os sacramentos e administrava seus domínios com competência canônica.

Mas padre é gente, é homem, por isso capaz de pecar tão desavergonhadamente como qualquer mortal. Ocorre, porém, que o padre decidiu pecar justamente com Lucinda, sertaneja prendada, bem apessoada, olhar de Capitu. Sua fiel, é verdade, embora mais fiel do coronel Napoleão, que a trazia alinhada como cavalo de charrete.

Foi o que bastou para que o coronel se destemperasse, perdesse a fé e o respeito pelas coisas sagradas e mandasse recado destabocado para o padre.

- Nicandro, diz lá pro padre Ambrósio que vou lhe dar uma sova, pra ele aprender a se meter com menina alheia.

O mulato foi e voltou com a resposta do padre:

- Diz lá pro seu coronel que em padre só se pode bater acima da cabeça, caso contrário é sacrilégio, punido com excomunhão.

Coronel Napoleão não gostou da resposta atravessada do homem de Deus e tomou as providências cabíveis: mandou pendurar o padre de cabeça para baixo no galho de uma figueira e desceu-lhe a gurumbumba, até sua reverendíssima resolver abrir mão de fazenda, de Lucinda e de paróquia.

De seu, a única coisa que o padre deixou por aqueles arredores foi uma meia dúzia de meninos, que, nas noites de sexta-feira de lua cheia, andavam virando lobisomem e mula sem cabeça.

(Agradecimentos a José Varzeano pela cessão de seu belo desenho a ilustrar este texto.)

4 comentários:

  1. Eita coça bem dada. De lavar a alma!

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  2. Oh, meu caro acho que andamos precisando de mais sujeitos como esses que nenhuma excomunhão meta medo nele, há tanta coisa fora de ordem com esses homens que se veste de saias (sem querer desrespeitar os que são de bem), e se dizem a cima do bem e do mal... rs
    Sigo seu blog!

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  3. Seja bem-vinda, Janaína. Obrigado pela leitura. Espero que possa sempre fazer por merecer.

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  4. Não sou muito chegado nestas polêmicas entre poderosos mas gostei da coça que o Coronel aplicou em sua santidade: foi muito bem dada. Em matéria de cumprir com a palavra fico mais com os da terra.

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