Lembro-me de que
brincávamos de carro-de-boi de sabugo de milho. Os sabugos eram os bois. O
carro, alguma pedra que amarrávamos aos sabugos, que eram candiados como
qualquer boi de carro de verdade. Vem, Soberbo! Força, Fumaça!
As trilhas eram traçadas
no chão batido e encontravam alguma dificuldade no monte de areia em que os
bois deviam subir, puxando a carga imensa que colocávamos sobre o carro: um
caroço de manga seco, um cavaco qualquer de pau, pedaços de telha antiga defumada
pelo uso, algumas folhas que fingiam ser a última colheita de uma lavoura
imaginária, olhos-de-boi que depois serviam a curar terçóis, a que sempre
estávamos sujeitos.
Não foram poucas as vezes
em que assim brincamos. Sobretudo na fazenda do tio Aurélio, no Jacó, com meus
primos Délbio e Zé Luís, filhos dele, e Zé Fábio, que sempre estava na corriola
conosco. Com tanto menino junto, algumas vezes havia encrenca, sobretudo porque
os dois Zés sempre foram briguentos. Mas tudo não passava de minguados minutos,
e a brincadeira voltava a reinar entre a turma.
Tio Aurélio era um tio
bonachão, extremamente bem-humorado, e não esquentava a cabeça com nossas
peraltices ou desavenças passageiras. E sempre tinha uma boa saída, para não
tomar decisão alguma diante de bobagens infantis. Por vezes, Délbio ia reclamar
de certa atitude do irmão:
- Pai, o Zé Luís tá
implicando com a gente!
Ele, com o vozeirão de que
era possuidor, indagava sério:
- Com a gente ou com os
outros?
- Com a gente!
- Ah, pensei que fosse com
os outros!
E não fazia absolutamente
nada. Se a resposta fosse “com os outros”, ele mudava sua frase:
- Ah, pensei que fosse com
a gente!
E tudo continuava na
mesma. Ele é que não iria envolver-se em briga de meninos, que, instantes
depois, estariam brincando, como se nada houvesse acontecido.
Já tia Toninha, irmã de
minha mãe, tinha alvará expresso para aplicar o corretivo necessário, durante a
estada em sua casa. Eu mesmo nunca levei catiripapos dela. Não sei o peso que
tinha seu braço. Apenas uma vez peguei castigo coletivo, por conta de armações
normais de criança.
E jogávamos muita bola!
Havia na fazenda um grande terreirão para a secagem do café, que meu tio
plantava, com o piso em barro vermelho batido e ressecado. Se chovesse não
podíamos andar pelo terreirão, a fim de não deformar seu chão plano. Em tempo
seco e sem o café espalhado, sempre havia uma pelada entre meninos ou entre
adultos. Ali se formou o time do Soca Terreiro, que uma vez por ano disputava o
torneio rural, de curtíssima duração.
Também brincávamos com as
chuvas torrenciais de verão, fazendo barragens nas sarjetas e soltando barcos
de papel na enxurrada. Ou tomando banho nas bicas que se formavam da água que
descia forte dos telhados das casas baixinhas da vila.
Nas noites manchadas de
estrelas e vaga-lumes, corríamos para esconder na brincadeira de pique ou de siliprina
(palavra que nunca encontrei em nenhum dicionário), de mocinho e bandido.
Pulávamos o muro do campo
de futebol para também fazer nossas peladas, ou outra brincadeira que
envolvesse muita criança. E alguns aproveitavam para roubar laranja no quintal
do tio Chiquito, fronteiro ao campo, ao final das peladas.
Sobre as calçadas, ou nas
varandas das casas, ocorriam ferrenhas partidas de futebol de botão, com
campeonato organizado, botões famosos a lembrar jogadores dos principais times
do Rio de Janeiro. Às vezes ocorriam negociações, e determinado botão passava
de um a outro menino, por troca ou por compra. Andei pagando alguns com os pés
de moleque que minha mãe fazia.
Nas noites de sábado e
domingo, banho tomado, cabelo penteado, saíamos a passear pela Rua Coronel
Alfredo Portugal, da esquina com a Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo,
nome do meu bisavô, em direção à Praça Antônio Guimarães, a antiga Praça do
Sabiá. E aproveitávamos para paquerar as meninas, no circuito desta balada
inocente e interiorana.
Não tínhamos consciência
de que cresceríamos, andaríamos por caminhos distantes e estranhos,
enfrentaríamos os desafios que a vida nos imporia, com toda a certeza. Brincávamos
e nos divertíamos como meninos, sem atentar para o mundo estranho que
estaríamos construindo.
Mas, pelo que me é dado
relembrar, era assim, naquele tempo!
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Cândido Portinari, Futebol em Brodósqui, 1935 (em estudosavancadosinterdisciplinares.blogspot.com). |