Sonhou com a sogra e quis jogar no
bicho. Como não há piranha, cravou na vaca. Faturou uma nota razoável. Espalhou
para todo mundo. A sogra ficou sabendo. E, se já tinha uma birra danada do
genro, um pau-mandado sem a menor compostura, um zé-ninguém, aí é que ficou
queimada. Mandou dizer ao desfibrado que não lhe cruzasse o caminho, não
pisasse sua casa, nem em caso de morte ou de diarreia prolongada, que ela não
responderia por si mesma, pelos seus atos. A filha, a desinfeliz que foi casar-se
com uma besta daquela, não se metesse. Ficasse lá com aquele monte de merda,
que ela não precisava de filha que deu tão péssimo passo na vida.
Quando soube da reação da sogra, foi
beber cerveja no bar de tão alegre. Gostava de ver a velha caninana soltando
fogo pelas ventas, cuspindo marimbondos.
Tornou a sonhar com a sogra e,
novamente, quis jogar no bicho. Como não há égua, jogou no burro e na cobra.
Ganhou no primeiro e no segundo prêmios. Faturou uma nota de respeito, maior
que a anterior. Tornou a contar para todo mundo. A mulher pediu-lhe discrição,
deixasse de implicância com a mãe, ela, coitada, viúva tresnoitada e carente.
Mas, não se sabe por que portas
travessas, a sogra ficou sabendo de tudo com detalhes, até do riso escrachado
dele quando viu o resultado da extração das quatorze horas. Sem pestanejar,
municiou o trinta-e-oito do falecido, pegou a bolsa e tomou o Praça XV-Maria da
Graça para achar o canalha.
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Imagem em expressodooriente.com. |
Em casa não estava, a filha
desesperada, mãe não faça besteira. A sogra foi até o bar, onde o pulha
costumava tomar alguns pileques. Lá estava ele, no meio de uma roda de
desocupados das tardes de terça-feira, arrotando vantagens, vomitando
superioridades. Sem com-licenças boas-tardes, a coroa entrou no bar vendendo
azeite, cheirando a chifre queimado, catingando chamusco, espumando pela boca.
Meteu a mão na bolsa, tirou o tresoitão municiado e remuniciado, tambor
abarrotado de balas, e mirou nas ventas do filho-de-uma-égua.
Ele, dona Doquinha pra lá, dona
Doquinha pra cá, minha sogra o que é isso, tenha juízo, tome tenência, cuidado
que isso dispara, pelo amor dos seus netos.
Ela, seu cachorro bernento, seu
miserável, postema infectado, pau-de-amarrar-égua, meto-lhe um tiro na
caixa-de-catarro se você não se ajoelhar aos meus pés e me pedir perdão, se
você não beijar o chão e não lamber a sola do meu sapato, se não disser pra
essa cambada de frouxos que você é um frouxo também, um mariquinhas, um
joão-ninguém imprestável, e pode começar senão a máquina-de-fazer-viúva começa
a pipocar.
Foi só acabar de dizer isso tudo e
sapecou logo um tiro na aba da orelha do paroleiro, a fim de mostrar que não
estava para conversa fiada.
Orelha chamuscada, o capacho começou
a pedir perdão minha sogrinha, não faça besteira, que eu gosto muito da
senhora. E beija o pé, e beija o chão, e lambe a sola do sapato da
destemperada, além de se mijar todo feito criança de urina solta.
A sogra, trepada nas tamancas, por
cima da carne-seca, ainda deu-lhe um chute nos bagos, de ofender a
masculinidade, e pipocou mais uns dois tiros no bar, para arrematar tudo bem
dentro dos conformes. E saiu feito um marechal-de-campo após a batalha vencida.
O desqualificado ainda teve de passar
um pano de chão na vergonhosa poça de mijo no salão do bar.