29 de novembro de 2012

DIZ-SE NA MINHA TERRA


Na minha terra, ninguém gargalha; mas poca de rir; do verbo pocar, que estoura em todas as bocas. Assim como as coisas não se arrebentam, não se rompem: pocam. Poca a fita, poca o fio, poca a cerca de arame com o arremesso do boi. Até mesmo a paciência pode pocar. Não poque minha paciência, menino, diz a mãe atarefada para o filho desesperado. Mas o perigo maior era quando um açude pocava e fazia jorrar um borbotão de água terra afora.
Também não há coisas ásperas, mas caracaxentas. As paredes são caracaxentas, o asfalto é caracaxento. A madeira antes da lixa também. O cara que tem a pele áspera é caracaxento. E havia o meu colega de infância com o apelido de Caracaxá, um tipo de chocalho infantil, que deve ser de onde vem caracaxento.

Ninguém se fere, arranha a pele; antes, a escalavra. A ferida produzida por fricção é um escalavro. Então o paciente passa a ter a pele escalavrada. Como a terra do campo revirada pode ser escalavrada (lavrada). Fulano escalavrou a terra, para plantar, dizia-se às vezes.
Ninguém sente agonia, ansiedade, aflição; mas gastura. Estou com uma gastura aqui dentro no peito, diz a pessoa angustiada. É a mesma gastura que dá no dente, quando se ouve, por exemplo, o barulho de unha roçando um azulejo ou num quadro-negro.

Também ninguém bate forte, mas lasca o pau, ou senta o pau. Lasca o pau no lombo alheio, quando o trem esquenta e a solução são tapas e pescoções, em vez de acordo e conciliação.
E ninguém sai apressadamente de lugar nenhum, mas deita o cabelo, mesmo que ele esteja arrepiado. A coisa ficou feia, o fulano deita o cabelo, quer dizer foge dali com rapidez. Também pode meter sebo nas canelas, que é outro jeito de andar muito ligeiro.

Não se desconfia de nada, lá na minha terra. As pessoas ficam cismadas, encafifadas. E, quando uma bota cisma em cima de alguém, é difícil de tirar. Porque todo sujeito cismático é encafifado.
Assim também há as pessoas sistemáticas, como meu pai ou o Valdemar sapateiro, cheias de nós pelas costas, que é como se diz das pessoas com manias muito próprias.

As coisas que não estão bem arranjadas, bem arrumadas, nos conformes, normalmente são escalafobéticas. Já a pessoa mal-ajambrada de corpo também pode ser escabufada. Como o Zequinha Escabufado, que teve um problema na perna direita e andava troncho, com seu joelho em forma de acento circunflexo virado para dentro.
E, durante muito tempo, ninguém ficava doente ou passava dificuldade: tinha um perrengue. O cara perrengado procurava o Zé da Farmácia, para tomar um sanativo, ou um amigo, que lhe tirasse da aflição.

Diz-se, preferencialmente a sanduíche, pão com carne, pão com ovo, pão com salame, pão com bife, pão com linguiça, pão com queijo e por aí afora, na linha de pão com manteiga.
Uma confusão com tapas e pescoções, envolvendo algumas ou muitas pessoas, normalmente é um pega pra capar. Se for apenas uma confusão de sentidos, de ideias, pode ser que seja um cu de cachorro. Xiiii, foi um cu de cachorro! Quer dizer, foi uma grande confusão, mas sem pancadaria.

As pessoas moralmente mais liberais, quando estabelecem conluio matrimonial com alguém fora dos parâmetros legais, se orelham. Fulano está orelhado com fulana, era como se dizia quando os dois passavam a coabitar sem os papéis da lei. O que ensejava outra frase em sequência: Orelhado com fé, casado é!. Mas os que se casavam no religioso se casavam no padre. Minha mãe, muito católica, só convenceu meu pai a casar no padre, eu já menino. Antes só havia a certidão do cartório. É que meu pai era um tanto anticlerical, talvez por influência do tempo em que fora maçom. Então num domingo à tarde, logo após a missa mensal na vila, minha mãe e meu pai saíram enfatiotados. Desconfiei da elegância simplória deles e perguntei aonde iam. Mamãe respondeu: Vamos casar no padre. E voltaram com a certidão religiosa, tão preciosa para minha mãe.
As mulheres grávidas não davam à luz. Melhor: ganhavam menino. Menino homem ou menina mulher, conforme o sexo. Lembro-me de Dona Flor, nossa vizinha, dizendo que uma conhecida tinha ganhado menino homem. Minha mãe mesma ganhou dois meninos homens e três meninas mulheres.

Outra coisa: lá ninguém abandona nada – projeto, atividade, assunto –, mas larga mão. Larguei mão de fazer aquela horta de que lhe falei, diz o vizinho ao outro. Larga mão de besteira, sô! Eis a forma de incitar alguém a abandonar uma opinião que se tem como equivocada.
Acho que também vou largar mão de ficar dando gastura em você, leitor. Qualquer dia, volto ao assunto.


Folha de rosto do Elucidário de Viterbo, de 1978 (imagem em frenesilivros.blogspot.com).


4 comentários:

  1. Eu queria saber o motivo de sandália de dedo ser denominada de lambreta em nossa região. No mais: poquei de rir!

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    1. Também não sei, mas é um bom assunto para se pesquisar.

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  2. Lambreta... Talvez porque os dedos ficam "escanchados" de um e outro lado, como as pernas na lambreta... E se caminha mais depressa, como a lambreta que "anda na brasa"!
    No meu país, a maior parte desses termos não existem... E deliciei-me com o texto.
    Beijo, Saint-Clair!
    Daisy

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    1. Boa e plausível explicação para lambreta, Daisy. E obrigado pela leitura. Bjs

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