12 de julho de 2012

A LÍNGUA QUE FALO

Por certo não falo a língua dos anjos
Ainda que anjos tenham língua
Tampouco falo a língua dos bichos
Conquanto os bichos tenham tido língua nas velhas fábulas

Mal e porcamente falo a língua incorreta dos homens
Meus iguais meus dessemelhantes
Que às vezes até se presta a confusões
Mas sempre com a vontade de me comunicar

Por isso não gosto de metáforas herméticas
Cujos sentidos escapem ao bom senso cotidiano

Falo a língua da copa e da cozinha
Da sala de visitas da casa simples
Que oferece uma xícara de café a quem chega
Falo a língua do alpendre sobre o terreirão de café
A língua do quintal barrido com bassoura

A língua dos nobres salões da elite
Posso até entender
Porém prefiro a língua que me fervia na boca
Na minha vilazinha perdida
De Liberdade

E que me dava tanto gosto!

Obra de Carlos Scliar (1920-2001), em vitruvius.com.br.

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