Ontem passei uma mensagem, via Whatsapp, para meu
filho Pedro, que está morando em Vitória, para lhe pedir que me traga o novo CD
do Silva, talentoso jovem músico capixaba. Em novembro, quando lá estive, o
disco estava em falta na loja próximo ao prédio onde ele mora. Após o OK, vem o
pedido dele: "Ah, faça um kit vinil pra mim tb. Que contenha Allman".
Ao ler, comecei a temer pelo desenrolar da história. Tanto que lhe mandei um
torpedo de volta: Vinis novos, ou dos meus/seus?
Aqui tenho que explicar ao leitor amigo o porquê do
meu temor.
Tudo começou há quase trinta e oito anos. Eram os
primeiros dias de fevereiro de 1977. Pedro, nascido em 31 de janeiro, adentrou
solene no seu novo lar. Primogênito, o pai, muito emocionado, não se conteve e
lhe doou sua até então mediana coleção de discos de vinil:
- Meu filho, tudo isso é seu. - falei solene.
À época deveriam ser cerca de oitocentos elepês de
várias tendências musicais.
Eu não sabia, então, da gravidade do meu gesto. O
menino foi crescendo, assim como a coleção (Hoje são cerca de três mil.). Até
que chegou o tempo de lhe comprar também os seus discos: Família Barbapapa, a
trilha sonora de Flash Gordon do Queen, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, o
próprio Queen, Nirvana, Pearl Jam e por aí afora. Depois vieram os CDs, e pai e
filho continuaram a adquirir música na nova mídia, sempre com o desembolso
monetário deste que lhe escreve, leitor.
Deste modo começou a se formar uma outra coleção, só dele, exclusiva. E
o menino continuou a crescer, formou-se, arranjou trabalho, saiu de casa,
namorou, casou, e não se esqueceu dessa promessa, que nunca me neguei a lhe
dizer.
Agora recentemente, sua esposa lhe traz de presente,
de uma viagem ao exterior, um belo toca-discos, daqueles capazes de reproduzir
vinis.
O leitor está acompanhando minha exposição e poderá
ver que meu temor tem fundamento. Pois a resposta dele àquela última indagação
acerca de que vinis dizia foi: "Os velhos. Meus e meus. Olha a
herança!!!". E cravou três pontos de exclamação, para que não restassem
dúvidas. Tentou abrandar: "Brincadeira. Depois devolvo. Faz uma seleção.
Uns 10.". Na sequência, disse que eu poderia escolher as bolachas e que
poderiam ser mais de dez. Resolvi selecionar quinze, para, então, chegar aos
vinte.
Veja, leitor condoído da minha situação, a que extremo
chega um pai que, num arroubo de sentimentalismo da juventude, promete mundos e
fundos ao filho amado. Não sei se, no Livro Sagrado, há história semelhante.
Pois esta mereceria estar lá.
Então separei os vinte elepês e lhe explico - e também
a ele - os motivos que me levaram a escolher esses e não outros.
De sua coleção – dele mesmo, entenda bem! –, vão os
seguintes, que peguei aleatoriamente: Titãs
(Go back 1988), Os Paralamas do Sucesso (D,
1987), Legião Urbana (Dois, 1986), Faith No More (The real thing,
1990) e Nirvana (Nevermind, 1991).
Da sua coleção – minha, que lhe passei naquele arroubo
–, vão os seguintes, com minha justificativa:
Dentre os nacionais: Alceu Valença (Molhado de
suor, 1974), Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo, 1977) Belchior (Todo sujo de batom,1974), por serem os primeiros discos individuais
desses artistas, Gilberto Gil (Refavela, 1977) e Novos Baianos (Novos Baianos
F. C., 1973). De todos eles, Pedro, em criança, cantava várias músicas, com
sua linguagem ainda incompleta, e deles certamente se lembra perfeitamente, já
que eles estavam sempre rodando em casa.
Dos internacionais: Atendendo seu pedido, The Allman Brothers Band (Eat a peach, 1972), disco duplo que traz
talvez a mais longa música popular que já ouvi: os lados 2 e 4 contêm a
execução ao vivo de Mountain jam.
Além disso, tem clássicos como Blue sky,
com um dos mais belos solos de guitarra de todo o rock, Little Martha, Trouble no
more e Melissa. The Beatles (Oldies - A collection of
Beatles. 1987), disco que mal ouvi e deve estar novinho ainda. Deep Purple (Machine head, 1972), um clássico do grupo, cheio de grandes rocks,
como Smoke on the water e Pictures of home. Focus (3, 1973), o
primeiro disco do interessante grupo progressivo holandês lançado no Brasil,
que teve um sucesso marcante, Sylvia.
Foghat (Foghat, 1972), grupo de hard rock inglês, com acentuada pegada
bluseira, tinha duas guitarras que tocavam em uníssono. Genesis (Foxtrot, 1973),
disco superlativo, que tem em Supper’s
ready uma das mais belas peças que o rock progressivo já produziu. Neil Young (Harvest, 1972) produziu, segundo minha opinião, sua melhor obra com
este álbum. O solo de guitarra que ele faz em Words (Between the lines of age) é lancinante. Rush (Power windows, 1985),
grupo canadense que é mais cultuado pelos da geração de meu filho do que por
mim mesmo. Este disco ainda está novinho. The
Who (Quadrophenia, 1973) produziu
a sua obra mais brilhante com este álbum duplo. Na verdade, é tudo de Pete
Townshend. Por fim, Ken Hensley (Proud words on a dusty shelf, 1973),
líder do grupo inglês Uriah Heep, produziu uma pérola. Multi-instrumentista, tocou
quase todos os instrumentos das faixas. Destaque para a música título, para Rain, também gravada por seu grupo, e a
fabulosa When evening comes
Espero que meu filho goste muito e possa resgatar sons
que devem estar em sua memória musical. Quanto a mim, neste exato instante,
penso naquele famoso soneto As pombas,
de Raimundo Correa, ao ver esses meus/deles primeiros vinis voando da minha
discoteca:
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
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