21 de janeiro de 2013

ERA MAIS OU MENOS ASSIM

Era mais ou menos assim.

Os homens normalmente tinham bigode amplo, daqueles que enchiam todo o lábio superior, parecendo um dormente de estrada de ferro, como já disse. Os mais jovens já não davam tanta importância a este acessório capilar labial, embora meu tio Paulo, o mais novo dos irmãos de minha mãe e que odiava ser chamado de tio, o tivesse. O jeito do bigode dele era o do Jacob do Bandolim, e preto. Já viram uma foto do Jacob do Bandolim? Pois é, daquele jeito!
As pessoas mais simples bebiam pinga, que tinha vários nomes, um deles muito engraçado: camulaia. E bebiam de um sorvo único, após deitar ao chão, no canto do balcão ou na rua, o gole do santo. Comumente o tira-gosto era uma cara feia, uma espécie de urro contido, uma imprecação contra o forte paladar da mardita, uma cusparada longe, que quase atravessava a rua. Ou se jogava um punhado de farinha na boca; ou se comia uma lasca de carne-seca crua, com uma rebarba de gordura, para amainar o ardor.

Já os que gostavam de beber cerveja quase só bebiam Brahma. Era como uma bebida única. Por esse tempo Brahma e cerveja eram sinônimos. Como gilete, que, da marca Gillette, passou a substantivo simples designativo da lâmina de barbear.
E havia uma venda em que a cerveja era resfriada em sal grosso num buraco no chão. Era a venda do Elói Andrade, no morro do colégio. Mas em bares mesmo, já havia geladeiras horizontais. Tio Tônio, Barrosinho, Roldão, Almerando, seu Mateus, por exemplo, até faziam picolés. Tio Tônio também fazia sorvetes: punha a mistura para ser batida numa cilindro giratório, mergulhado em salmoura gelada, até que ela atingisse a consistência desejada.

E quase todos fumavam cigarro Continental sem filtro. Filtro, então, era coisa de gente fraca, coisa de mulher. Alguns mais sofisticados preferiam Hollywood, também sem filtro. Meu pai só fumava Missbela, mais barato. E, quando este encareceu, passou para o Postal. Diziam que era muito forte. Mas meu pai só fumava uns quatro por dia, em determinados momentos. João Coleto, primo de meu pai, gostava de Liberty Ovais, em caixa de papelão retangular.
Outros fumavam fumo de rolo, que picavam com canivete e trituravam na concha da mão com o polegar e depois enrolavam em palha de milho seca ou em papel especial para cigarro. Havia ainda fumos já preparados para isso, que eram vendidos em embalagens parecidas com as do cigarro. E poucos outros, sobretudo das roças, fumavam cachimbo, que baforavam rapidinho para que mantivessem vivo o fogo, ao tempo em que soltavam uma fumaceira danada nos circunstantes.

Um dia, o subdelegado da época apareceu fumando com piteira. Ela devia ter quase dez centímetros de comprimento. Talvez mais. As más línguas diziam que foi por ele ter interpretado erroneamente a recomendação do médico de que deveria afastar-se do cigarro.
Quando se tratava de time de futebol, a maioria era Vasco da Gama, o time mais popular no interior por aqueles tempos. Poucos eram Flamengo; menos ainda, Fluminense. Meu pai, meu avô e todos lá em casa, excetuando-se minha mãe, éramos Botafogo. Meu tio Paulo era Bangu. Seus irmãos tinham, cada um, um time: tio Aylton, Fluminense; Cate, Botafogo; e Louro, Vasco. Meu outro tio, Aurélio, este emprestado, pois casado com uma irmã de minha mãe, era América. Outro tio do mesmo tipo, o Herson, era igualmente Fluminense.

Também se fazia um uso extensivo do chapéu. A quase totalidade dos homens que morava nos arredores da vila o usava. Na vila, que chamávamos de Rua, muitos homens cobriam a cabeça com ele, sobretudo os mais velhos. Podia ser chapéu de feltro ou chapéu de palha. Raramente se via um chapéu Panamá, que tinha fama de muito elegante e caro. Alguns homens usavam guarda-sol, que se transformava em guarda-chuva, conforme o tempo. As mulheres tinham sombrinhas. Nos verões, era comum ver pessoas caminhando sob a sombra do guarda-sol ou da sombrinha.
Os que vinham das roças em torno da vila sempre vinham a cavalo, mesmo que a montaria fosse um burro, uma mula, mais comuns no transporte individual. E deixavam seus animais em cocheiras, que eram três, ou amarrados diante das vendas onde faziam as compras da semana. Muitos dos habitantes da Rua tinham bicicletas, que serviam muito bem para os minguados percursos da vila. Automóvel mesmo, só o do seu Amim, libanês que o usava para carro de praça (Não empregávamos a palavra táxi.); o do seu César Portugal, que foi prefeito do município e tinha um preto do tipo cristaleira, bem antigo, mas que ainda rodava; o jipe do seu Torquato Andrade, o do seu Nelson Mota, da Fazenda da Liberdade, e a caminhonete do tio Nalim. Posteriormente, tio Aurélio comprou um fusca, para ir do Jacó à Rua, e era engraçado vê-lo preenchendo aquele carro apertado com seu tamanho e sua gordura. Alguns tinham caminhões que serviam, sobretudo, ao transporte da produção da lavoura.

Um acessório mecânico que quase todos os adultos usavam era o relógio: de bolso, os mais velhos, e de pulso, os mais jovens. As marcas preferidas eram Omega, que se dizia oméga, e Lanco. O Patek Philippe era tido como muito caro. Um pouco depois começaram a aparecer relógios japoneses, para os quais os mais entendidos torciam o nariz.
Eu mesmo achava muito elegante o relógio de bolso. Gostava de ver o gestual da pessoa a consultar as horas, a dar corda no relógio, que se prendia por uma corrente à presilha da calça. Até tive um, quando vim para Niterói. E dei alguns de presente para meu pai. Mas, depois, as próprias calças deixaram de ter o bolso apropriado para a sua guarda e eles praticamente entraram em extinção, como os gaturamos e avinhados da minha terra.

Era mais ou menos assim. Lá pelas décadas de 50 e 60 do século passado, na minha pequena vila de Carabuçu.
 
Relógio Omega, dito Ferradura, porque se desconhecia que o símbolo da marca é a letra grega ômega,
confundida com a peça de calçar cavalos (imagem em mg.quebarato.com.br).
 

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