3 de abril de 2013

O PANARÍCIO E OUTROS UNHEIROS


Imagem em dreamstime.com.
 
Sempre fui assombrado pelo panarício.
Quando criança, tinha entre meus pesadelos que um dia teria panarício. E ficava de espírito prevenido para quando isso ocorresse.

Na vila, havia sempre alguém com a mão para cima, o dedo enrolado num curativo, e a cara desenxabida de quem era presa desse mal, que, me parecia, tinha certo componente espiritual.
Era como se o panarício visse das profundas de um lugar inominável, para assombrar as pessoas com algum tipo de pecado a purgar. Seu padecente dizia horrores das dores sofridas, do latejamento constante do dedo, da impossibilidade de se fazer qualquer coisa. A mão ficava imprestável. Não podia ser tocada.

E, o pior, a fatalidade inerente a todo panarício: ele passava para o dedo diametralmente oposto da outra mão. Assim, caso lhe aparecesse o panarício no dedo médio da mão direita, aguardasse o surgimento no dedo médio da mão esquerda, tão logo o primeiro sarasse. Era mais certo que a moira da tragédia grega. Pior que o leão do Imposto de Renda.
Renato, por exemplo, grande jogador de sinuca apareceu no bar do Mansur, certa vez, com o dedo em molde de múmia de faraó da quinta dinastia. Ele, que quase não tinha adversário à altura no taco, fora para o estaleiro sucumbido pelo panarício. E ficou para mais de mês inativo, esperando que a doença completasse seu vicioso ciclo de malvadeza.

Lá em Carabuçu, assim, vivíamos todos assombrados pelo panarício.
- Sabe quem está de panarício? Não? O Filhinho sapateiro, coitado! Não pode tocar nas sovelas. A meia-sola que lhe encomendei, só para depois do São João.

Só não me lembro se havia época propícia ao andaço da doença. Na minha idade de então, não prestava muita atenção ao calendário. Mas, de vez em quando, ela saía contaminando as pessoas, como se fosse nutrida por um verme excomungado. Eu mesmo, quando sabia que alguém estava com o dedo afrontado, nem chegava perto. Até evitava pronunciar o nome da pessoa, com medo de pegar o mal.
- Xiii, rapaz! Agora é Tatão Florindo que pegou o troço!

Talvez medo semelhante por que passava, também envolvendo dedo, era um dia ter de arrancar a unha do dedão do pé.
Antônio Milton, irmão de Renato e também exímio jogador de sinuca, teve qualquer problema de infecção na unha do dedão e a providência sanativa tomada foi extirpá-la. Zé da Farmácia mesmo fez o serviço. Para piorar as coisas, Antônio Milton disse que a anestesia não pegara, por causa da infecção. E foi na base do urro que a unha se desalojou da tampa do dedão, puxada com firmeza pelo farmacêutico, munido de um tipo de torquês inoxidável, que mantinha no esterilizador.

Quando isso ocorria nos pés, dizíamos unheiro. Que, afinal, não era tão assustador. O panarício o era muito mais! Pelo menos na minha cabeça de menino.
Não sei bem por que, mas essas afecções dos dedos sempre me chamaram muito a atenção e me metiam medo. O próprio Antônio Milton, com intuito de assustar, me disse que, quando eu ficasse rapaz como ele, também iria ter de arrancar a unha do dedão. Era como um rito de passagem, para que virasse rapaz. Fui crescendo sempre nessa expectativa assombrosa.

Um dia deixei cair um martelo justo na unha do dedão direito. Saiu sangue, ficou arroxeado, a unha bambeou, e eu pensei que minha vez havia chegado antes do tempo. Mamãe cuidou da unha e ela nunca caiu. Até hoje está logo ali mais abaixo – até dei uma olhada para ela, a fim de confirmar sua presença. Ao longo desses anos, cresce meio estropiada, cheia de veios estranhos, mas não precisou ser removida.
Depois que vim para Niterói, nunca mais ouvi falar em panarício. Parece que é coisa do interior. Como saci-pererê e mula sem cabeça.

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