22 de abril de 2013

NO PORTO (O cão do morto)

No porto
O cão fareja o morto
Espichado sobre a pedra fria do cais
Não resta ao cão senão cheirar
O ser que jaz em decúbito dorsal
Fitando estrelas que não existem mais
A não ser que vê-las seja
Um mero tropo expressional

Ao morto e ao cachorro
A vida se resume agora
Apenas ao pressuposto de que um respira
E cheira
Enquanto o outro em condições finais
Começa a feder sobre as pedras frias do cais
Obliterado tudo o que faz
Um ser vivo e o outro ser jamais.


Laurent de La Hyre, Adonis mort et son chien, séc. XVII. Museu do Louvre (em www.art.com).


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