13 de novembro de 2013

CACHAÇAS E SEUS SABORES

(Para o amigo lusitano Alfredo Moreirinhas, que anda tomando aguardente industrializada lá na Terrinha e achando bom.)
Vim do interior, onde aprendi a apreciar cachaça, apesar de toda a carga social negativa sobre ela. Mas conhecia pessoas que a tomavam e não se degradavam socialmente. Meu tio Aurélio, por exemplo.
Ele foi um dos meus mais queridos tios. Casado com a tia Toninha, irmã da minha mãe, era proprietário rural em Carabuçu e não passava sem sua cachacinha às refeições. Fora disso, nunca o vi beber. Nem cerveja.
Quando éramos pequenos - eu e seus dois filhos: Délbio e Zé Luiz -, ele nos permitia tomar pequeninos goles, em canequinhas de ágate, também ao almoço, para abrir o apetite. Hoje talvez isso fosse politicamente incorreto, imprudente, inapropriado. Ao entrarmos na adolescência, ele não o fez mais, com receio de que pudéssemos virar pinguços.
Passei, então, alguns bons anos sem colocar um só tiquinho de cachaça na boca, até que atingi a maioridade.
Sempre gostei da bichinha, que tomo com prazer e temperança, saboreando o gosto forte que ela deixa na boca. Meu paladar é afeito a sabores marcantes.
Aprendi, por exemplo, que cachaça boa não precisa queimar a garganta. Não desce escalavrando a traqueia. Não adormece as papilas gustativas; antes, as atiça, de modo a que se desfrute do tira-gosto apropriado logo a seguir. Acho imprudente tomar qualquer bebida alcoólica, sem algo a acompanhá-la, ainda que seja água mineral.
E já bebi cachaças maravilhosas por essa vida afora.
Uma delas atendia justamente pelo nome de Maravilhosa e me foi oferecida por meu ex-aluno Pascotto, de Miracema. Seu pai, proprietário da Fazenda Maravilha, era produtor de cachaça, e ele me presenteou com uma que fora embarrilada no ano de seu nascimento, havia vinte e poucos anos. Era propriamente um néctar de cana. Infelizmente, não é mais produzida.
Outra, descoberta ao acaso durante almoço comemorativo do aniversário da professora da minha filha, era tão boa, que não estranhei o preço de cada dose medida em dedal de costureira que tomei: à época, isso faz uns oito/dez anos, foi  R$13,90. É a cachaça Montanhesa Premium, produzida em Araguari, no Triângulo Mineiro.
Meu amigo gringo Kenneth trouxe do Rio Grande do Sul a 30 Luas, envelhecida por trinta meses em barril de carvalho. Cachaça soberba, desce macio, arredondada, sem esporear a garganta, como se esperaria de uma pinga gauchesca.
Nessa trilha do sul, encontrei outra gaúcha, de Santo Antônio da Patrulha, na Cachaçaria Tonel e Pinga, em Niterói: Moenda Nobre. Apresentada em bela garrafa de 500ml, essa cachaça também passa por barris e tem sabor marcante.
Ainda desta cachaçaria, adquiri a Menina do Rio Ouro, produzida em Sapucaia-RJ. Na cor âmbar, translúcida como só, ao primeiro gole, tive um insight: é bonita e cheirosa como a Camila Pitanga, uma verdadeira menina do Rio. Embora nunca tenha cheirado essa belíssima atriz, com a imaginação, é possível deduzir isso.
Outra, paulista de Bananal, é – ou foi – a Santa Inês. Soube que, por questões mercadológicas, teve de trocar seu nome, conquanto ainda possa ser encontrada em pesquisa na Internet. Da mesma região, em Cunha, trouxe em belíssima garrafa de cerâmica a Empório Renzi, acompanhada de certificado de procedência. Mas sem garantia do conteúdo, que foi detonado durante uma feijoada oferecida aos amigos.
Há coisa de trinta dias, apareceu o amigo bissexto Cássio, num domingo de manhã. Conversa vai, conversa vem, antes que eu lhe oferecesse um cafezinho – eram dez horas –, ele perguntou se eu tinha uma boa cachaça. Aqui em casa é o que não falta. Abri as garrafas da Volúpia e da Bocaina, que havia trazido de Minas, e ficamos na segunda, originária de Lavras-MG, por várias doses homeopáticas, com o papo rolando solto. A Volúpia, também uma excelente bebida, produzida em Alagoa Grande-PB, fica para outro dia.
Em Tiradentes, há alguns anos, durante o Festival de Cultura e Gastronomia, conheci a Vale Verde, de Betim-MG, também extraordinária, que foi eleita pela revista Playboy como a melhor cachaça do Brasil. Comprei lá duas garrafas, uma das quais presenteei à minha irmã Cristina.
Agora foi a vez de ela me retribuir o mimo e, por ocasião de nossa volta àquela cidade mineira, associou-se à nossa sobrinha Fernanda para me dar a Vitorina, que ainda não experimentei, mas já vem com a melhor das recomendações: a dona da Cachaçaria Confidências Mineiras confessou-lhe que é a de que mais gosta. Como a Volúpia, está com os dias contados. Vem aí a festa de Thanksgiving do meu amigo gringo e acabo levando uma delas para lá. Thanksgiving climatizado nos trópicos!

A bela garrafa da 30 Luas (em costibebidas.com.br).

2 comentários:

  1. Sacanagem!... Bebendo néctares dignos dos Deuses e eu aqui bebendo uma cachaça que até arrepia os cabelos do diabo...
    Resta-me a consolação de beber uma, cujo rótulo tem escrito 51 e não um mísero 30 e quando ao bebê-la, fecho os olhos e consigo mais facilmente sentir a beleza, doçura e cheiro da Camila Pitanga.
    Agradeço a dedicatória e só espero que quando aí for ainda haja uma pinguinha para eu provar.

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    1. Certamente, Moreirinhas! Não haverá de faltar!

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