Quando Tereco morreu, numa manhã
sombria de Miracema, o vizinho salvou um filhote de sanhaço que caíra do ninho
pendurado em uma árvore do seu quintal. Amigo do finado, deu ao pássaro
desventurado o nome de Terequinho, como forma de homenagem ao vizinho
prestativo e solidário, que empreendia viagem para o desconhecido naquele mesmo
dia. Pensou resignado: vai o amigo antigo, vem um novo amigo.
Criou-o com todo o desvelo que se
pode atribuir a um bichinho de estimação, seja ele de pena ou de pelo, como é
muito comum atualmente. Terequinho se tornou um belo sanhaço macho,
de canto reconhecido nas imediações da rua da Capivara. Era só abrir o bico que
os vizinhos já sabiam: Terequinho entrara em ritmo de concerto. Seu canto fazia
contraponto, até mesmo, às batidas metálicas da oficina mecânica do Tabaco, nos
arredores.
Mas o Brasil é um país esquisito.
Enquanto permite que políticos salafrários mantenham seus cargos e possam candidatar-se
a novos, com o beneplácito de autoridades judiciárias, manda prender os amantes
de pássaros que os mantêm em gaiolas, como se isso fosse um crime hediondo.
Assim o IBAMA bateu à sua porta, querendo saber de Terequinho e seu canto.
Não adiantaram explicações. O dedo
duro da lei confiscou o pobrezinho e o levou embora, a fim de soltá-lo na
natureza vasta e materna, onde ele poderia viver em liberdade total, espalhando
seu canto maravilhoso entre árvores e flores, sobre córregos e várzeas. O
vizinho ainda se deu por satisfeito por não ter sido preso. É sempre assim: se
você prende um passarinho na gaiola, a lei o solta e prende o ser humano. É
realmente uma coisa muito esquisita!
Deu-se, então, que o cioso fiscal do
IBAMA, no cumprimento estrito de sua função, dirigiu-se ao primeiro bosque que
encontrou lá pelos lados de Venda das Flores, já na subida da serra. Chegando à
borda do mato, desligou o motor do carro oficial, pegou a gaiola, abriu a
portinhola e tirou com a mão o espantado Terequinho. O animalzinho, atônito,
não compreendia o que seria da sua vida, a partir daquele momento. Como
comeria? Como mataria sua sede? Onde encontraria as frutas e as sementes
saborosas que, milagrosamente, apareciam no cochinho de madeira logo abaixo dos
seus pés, todo santo dia? Em que poleiro dormiria? Que amigo lhe falaria, todas
as manhãs, palavras macias e sonoras e faria carinho em sua cabecinha
desmiolada?
Para espanto do fiscal, o sanhaço não
levantou voo, por mais que ele o tentasse. Simplesmente o pássaro se recusava a
privar-se do convívio com os humanos, especialmente do amigo que o salvara da
morte certa.
Ao fiscal não restou opção, senão
voltar a Miracema, para a mesma rua da Capivara, e devolver Terequinho ao seu
amigo e companheiro, que o socorrera na hora mais difícil de sua penosa vida,
quando se viu apartado da mãe e desabado do ninho, sem nenhuma perspectiva em
sua pequenina existência de pássaro abandonado.
![]() |
Foto gentilmente cedida por Hélcio Granato Menezes, meu parceiro no grupo EM MIRACEMA OU NO CINEMA. |
(Livremente inspirado em fato real
ocorrido na primavera de 2010, em Miracema/RJ.)
---------NOTA: A bela ilustração anterior deste texto foi removida. Havia pedido autorização a seu autor, mas ele não me respondeu. Como fiz a citação como manda a ética, julguei que não seria incorreto, já que este blog não tem finalidade lucrativa. Infelizmente deparei com a foto suprimida. Resolvi, então, não usar outra. É a primeira vez que isso ocorre. Terei mais cautela nas próximas.
Agora, o companheiro do grupo EM MIRACEMA OU NO CINEMA, Hélcio Granato Menezes, me fez a gentileza de ceder sua foto, que aí está, em substituição à anterior. Obrigado, Hélcio!