Apesar dos
pesares
E dos pesados
ares que nos sufocam
Desejo a
todos um FELIZ NATAL
E um ANO NOVO com mais esperança!
Apesar dos
pesares
E dos pesados
ares que nos sufocam
Desejo a
todos um FELIZ NATAL
E um ANO NOVO com mais esperança!
Bateu palmas ao portão da
chácara, bem perto de um pé de pau frondoso, certo tipo autonomeado Lacavinha Pederneiras,
oriundo das bandas de Mata-Cavalos, nos afundados de terras goitacás.
- Boas tardes! Sou Lacavinha
Pederneiras, dos Pederneiras campistas, e venho da parte do afamado Zé Cândido
de Carvalho, do qual porto missiva de próprio punho e selo, destinada à sua
pessoa.
O tipo parecia uma alegoria
dos carnavais das Grandes Sociedades da década de vinte, que puxavam seus préstitos
pela antiga Avenida Central, por essa altura já batizada com o nome do barão do
império. Chapéu de palhinha, terno de riscado de corte apertado, cujo paletó se
abotoava tronco acima, deixando apenas, na altura do gogó, espaço para a
gravata borboleta de pois a enfeitar um pescoço fino, como de resto toda
aquela figura saída de traços de J. Carlos. Uma bengala de ponteira prateada e
sapatos de cromo preto reluzente, bico fino, com detalhes bordados no couro, em
feitio de bolhas de sabão, mais um lenço de duas pontas azuis a saltarem do
bolsinho do paletó completavam a personagem. Era propriamente uma figuraça!
O nome não me era desfamiliar.
Já ouvira referências um tanto desabonadoras à sua pessoa em páginas impressas
do mago da Baixada Campista. Lacavinha, a bem dizer, vivia de expedientes, sem
emprego engastalhado nele por mais de noventa dias ou três luas, e se prestava
a esse tipo comezinho de função: fazer favores fáceis para gente que não se
queria dar o mínimo trabalho com coisas de somenos importância.
Falei em voz alta, que
pudesse ser ouvida no meio do bulício da rua infestada de veículos com motores
à explosão e o tropel de uma carroça que passava justamente naquele instante:
- Pois se adentre, seu
Lacavinha Pederneiras! Se aprochegue de lá!
Lacavinha desferrolhou o
portão de ferro fundido, de um verde musgo já descascado pelos anos, passou com
sua figura esguia por apenas dois palmos de abertura, tornou a aferrolhar o
dito portão e veio evoluindo em minha direção, como se flutuasse sobre o
caminho tortuoso de pedras assentadas no chão, até o alpendre onde eu estava.
Convidei-o a se sentar, pedi
à Carlinda que nos trouxesse um café fresquinho e tratei de pegar a
correspondência que me estendeu com sua mãozinha magra, quase esquelética,
unhas de brilho esmaltado bem aparadas.
- Pois muito bem, seu
Lacavinha, vamos ver o que o Zé Cândido tem a me dizer em suas bem traçadas
linhas!
Nesse entrementes é que me
dei conta de que o remetente já não comia angu com feijão, já não folgava mais
entre nós, motivo por que quis saber se era carta pretérita, deslembrada em
alguma gaveta de escrivaninha e só agora, anos escorridos, chegada a seu
destinatário.
O portador disse que não, que
era coisa hodierna, recentemente vinda à luz, de tinta ainda úmida, através de
psicografia realizada na cidade de Campos dos Goytacazes, com ipsilone e tudo,
por pessoa idônea, há muito versada nessas práticas.
Ajeitei as meias cangalhas
de leitura sobre o pau do nariz, rapei o gogo da garganta sem a cerimônia
devida – mas enfim eu estava em meus domínios –, rompi o lacre do selo bordado
JCC com jeito, a fim de não esparramar migalhas nas tábuas do alpendre e me pus
a ler em silêncio, dando muxoxos aqui e ali, conforme os olhos iam vencendo os
eitos da escrita de letra caprichada do campista afamado.
Depois dos cumprimentos de
praxe a encabeçar a mancha de tinta da folha, fui-me inteirando das
preocupações, perquirições e diretivas do remetente.
“Andei
sabendo por vias travessas, aqui onde me homizio presentemente em forma
espectral, que você anda tomando intencionamento de pôr pontos finais no meu
inacabado romance sobre o Rei Baltazar, de bíblicas memórias. Sei, inclusive,
que andou assediando mais de um familiar, cravando perguntas aqui e ali,
levantando hipóteses mirabolantes, maquinando finalmentes para minha obra inconclusa
e inacabada sobre o tal rei.
Devo
asseverar com toda pompa e circunstância que ninguém no mundo dos viventes tem minha
concessão para tais intencionamentos. O Rei Baltazar será lembrado apenas com
as poucas palavras com que foi brindado no texto bíblico e nada mais. Ninguém
vai puxar brasa para sua sardinha se prevalecendo do que eu já tinha alinhavado
aí embaixo, enquanto mourejava na imprensa local e enchia as burras do povinho
das rotativas com meus escritos.
Tenho
dito!”
E lascou embaixo sua
reconhecida assinatura de escritor notável.
Achei Zé Cândido amargurado,
sorumbático, abespinhado. Só porque eu tivera – veja bem, amigo leitor! – eu
tivera a ligeira ideia de completar a obra que ele deixara incompleta, por
conta da visita antecipada da Indesejada. E apenas andei sondando, no rol dos
meus mais chegados, se alguém, por acaso, assim descompromissadamente, conhecia
pessoa das relações do grande escritor, algum herdeiro, talvez o seu editor.
Mas tudo dentro da mais sutil averiguação, sem estardalhaço ou jactância. Não
sou dado a espalhafato e ostentação. Sou mais recolhido que surucucu no choco.
Depois de lida a missiva do Além
e após um suspiro de arrebentar estaca, que me veio bem lá do fundo da minha
pessoa, indaguei do indigitado Lacavinha Pederneiras, ali presente, a pele
macilenta de vela de sete dias, como responder a carta, já que eu não tinha o
endereço correto e confirmado do destinatário.
Lacavinha sorriu, tirando
com a unha comprida do mindinho direito uma sujeirinha do fura-bolo da mão
esquerda, e me disse com o olhar perdido no pé de pau da entrada da chácara:
- É só me dizer de suas boas
tenções, da sua reconsideração, que faço chegar ao autor da missiva esse seu
pendor inopinado.
- Pois pode garantir lá a
ele, do jeito que possível for, dentro das leis das ciências física e
metafísica, que não está aqui aquele com quem se preocupar. Vou continuar lendo
e relendo os livros que as rotativas imprimiram, mas não vou me arvorar a pôr
um finalmente no que ficou sem fim. Sem fim ficou, sem fim ficará! Dou minha
palavra!
Lacavinha Pederneiras elevou
sua pouca pessoa da minha cadeira de palhinha da varanda, levantou o chapéu,
fez uma mesura com o tronco magro fechado a botões e se despediu, sem me
estender a mão. Desceu os quatro degraus até o caminho de pedra, começou a caminhada
em que parecia flutuar, até que desapareceu como que esfumaçando, desvanecendo
seu corpinho miúdo por entre a ramagem do pé de pau próximo ao portão da rua,
de não ser divisado do outro lado, embaixo ou em cima de coisa alguma.
Zé Cândido certamente
saberia da minha resposta.
O sol mal deu as cara pros lado da Serra da Boa Esperança, e eu já tava de pé. Já tinha tomado o café com pão drumido e uma lasca de queijo curado da casca grossa, um pouco de farinha de mandioca com açúcar pra mode dar sustança e disposição. Compadre Zeca, que mora na casinha de pau a pique do outro lado do terreirão também já estava arriano sua besta. Ele ia comigo na empreitada. Nós é quase parente, pruque Compadre Zeca é casado com uma sobrinha da minha muié e é padrim, com sua muié, da Dorinha, minha fia menorzinha. Seu Orelo foi quem pediu nós pra ir até a fazenda do Antõi das Morte e trazer de lá, nem que fosse arrastado, seu fio mais novo, o Juliano, que fugiu de casa pruque levou uma coça de gurumbumba pro mode que desonrou a fia do colono dele. Aí, desarvorado, o menino foi pedir abrigo nas terra do padrinho dele, o seu Antõi das Morte. A fia do colono, o Zé Laurindo, é uma moça bonita que só, munto brejeira, e tem o nome quase ingual do rapaz: Juliana. É da mesma idade do menino Juliano, e os dois sabia munto bem das estripulia que estava fazeno. Com quinze ano, carqué um de nós já sabe das consequência dos nossos ato. Nessa idade, ninguém é mais inocente. Mas os dois parecia apaixonado um no outro, tanto que vivia de trelelê e conversinha miúda pra todos os lado. Aí deu no que deu! A gente até tem um jeito engraçado de falar, quano acontece um trem desse: o diabo atenta, o ferro entra. Pois foi bem isso que acabou aconteceno com os dois. No fogo da idade, tem hora que é difice controlar a fornaia que começa a brotar den’ da gente. Se ocê tem mais tento, mais juízo, um pouco mais de idade no lombo, possa ser que domine a coisa. Mas na idade deles é quase impossive. Então o enredo é esse: Juliano desonrou a fia do Zé Laurindo, e o Zé Laurindo botou a boca no mundo, falou miséria, disse isso, disse aquilo, e o patrão, que também é um home munto do correto, falou que não vai passar a mão na cabeça do fio. Se ele fez, ele que assuma seus ato. Que isso é comportamento de home; e não, de moleque. Penso que seu Orelo tem razão. Fia dos outro, por mais desmiolada que seje, merece respeito, senão por ela mesma, pelos pai dela, oxe!
Abrimo a porteira do
terreirão, embiquemo as besta pro lado da sede da fazenda, pra mode falar com
seu Orelo, só na tenção de confirmar a empreitada, de modo a não deixar dúvida
no ar, e, despois, seguimo em frente. Durante a cavargada, o fio da fumaça se
espaiava no ar atrás da gente, fazeno ziguezague e seguino a direção do vento
fresco da manhã. E as besta ia do passo à marcha, rasgano a estrada de terra,
bem dolente ao nosso comando. Tudo animal bom de sela, preparado pra lida!
A fazenda do seu
Antõi das Morte, cumpadre do seu Orelo, padrim do desmiolado Juliano, dista
umas três/quatro légua da fazenda do Jacó, donde nós trabaia e mora. A viage é
um estirão de umas três/quatro hora, até bater na porteira da fazenda
Promissão, que é como chama as terra lá do seu Antõi das Morte. Engraçado que
esse nome dele ele já trouxe lá dos lados de Nanuque, terra de gente braba, donde
ele morava. Diz que ele era bicho do cu riscado lá e passou fogo em mais de um
que se meteu a besta com ele. Quano chegou por aqui, já era um home mais
serenado, mais entrado na idade, com o juízo mais arrumado na cabeça, de modo
que era outra pessoa, de ninguém dizer que era verdade as peripécia dele. Tanto
que acabou amigo do patrão e se tornou até compadre.
A recomendação do seu
Orelo é que nós chegasse de vorta na boca da noite, trazeno o menino a laço, se
fosse perciso, mas que, em antes, nós tentasse fazer ver a ele que tinha de
vortar na paz, pra mode reparar seu erro. Eh! Lasqueira! Eh! Empreitada
desconchavada, sô!
A marcha foi
tranquila. De vez em quano, nós parava pra mode descansar os animal, dar de
comer a eles e de beber. Tempo também de nós mascar um naco de carne com
farinha, que nós trazia de matutage num bornal, acender o pito, tirar água do
joelho e espichar as perna, que fica meio dura no arco da sela, quano a marcha
vai longa, demorada.
Cheguemo na Promissão
bem na hora do armoço – Coisa boa, sô! – saudemo seu Antõi e dona Carmita e
esclarecemo a eles a nossa missão ali, da parte do nosso patrão Orelo, pai do
Juliano e compadre deles, tudo bem esclarecido, de molde a não haver dúvida,
nem desconfiança. Seu Antõi disse que tava munto bem, tava munto justo, o
compadre Orelo é um homem direito, conhecedor de seus deveres, e sabe aquilatar
bem as atitude do fio, e ele, Antõi das Morte, em pessoa, ia ter uma conversa
com o afiado agorinha e fazer ver a ele a justeza da atitude a tomar. E pediu à
dona Carmita que botasse mais dois prato na mesa, que nós era convidado dele, e
entrou pra dentro da casa, pra ter dois dedo de prosa com o menino Juliano.
Não delongou munto a
prosa, e os dois vortaro lá de dentro: seu Antõi na frente, com a cara boa, e
Juliano em seguida, com cara de cachorro que virou a panela do vizinho. O
menino se dirigiu a nós – Oi, Troquato! Oi, Zeca! -, de zoio baixo, sem encarar
nós, e se assentou no banco comprido que fica do lado da mesa de armoço. Seu
Antõi convidou a gente pra sentar também, enquanto dona Carmita acabava de pôr
a mesa com aquela comida fumegante de cheirosa: costelinha de porco, angu
molinho, taioba refogada, arroz sortinho e feijão cheio de pertence.
Seu Antõi, no mesmo
instante em que servia o prato, dizia da conversa tida com o afiado. Estava
tudo nos conformes, disse ele. O menino entendeu tudo e estava disposto a
vortar em paz com nós. Nessa hora, Juliano levantou os zoio, me oiou sem
arrogância e sem prevenção, e senti que nossa empreitada ia ter um remate
tranquilo, sem munta quizumba. Senti que o Zeca ficou aliviado com a reação do
menino. É que nós esperava um frege danado, um quiproquó daqueles.
Antes de pegar a
estrada de vorta, dona Carmita ainda passou um café esperto. Bebemo o café,
despedimo deles e peguemo o caminho de vorta.
Durante todo o
trajeto, Juliano fugia da conversa que eu puxava. Eu ia arrodiano, cevano o
menino de jeito, como quem ceva traíra arisca. Queria dar uns conseio a ele,
que podia ser meu fio, mostrar que às vez a gente erra, mas pode consertar as
coisa. Só a morte não tem conserto, agaranti pra ele. O que não pode é fugir às
responsabilidade. Que ele fosse com o coração manso conversar com o pai, que
gostava dele, apesar de tudo. Zeca, vez em quano, reforçava meus argumento com
um uhum!, um é isso meso. Juliano não tugia nem mugia. Ouvia tudo quieto. Num
dado momento, ele abriu a boca pra dizer que eu tava certo, que ele tinha agido
como criança irresponsave, mas que tinha pensado munto em tudo isso que eu
disse pra ele. E o padrim dele também.
Quano a noite caiu,
nós já tava adentrando a porteira da Fazenda do Jacó. Senti que o menino
estremeceu feito vara verde em riba do cavalo que ele fugiu. Falei pra ele que
nós ia ficar do lado dele, diante do pai dele, pra agarantir que seu Orelo não
tivesse outro destampatório pra cima dele. Apiemo das besta, subimo os degrau
da escada da casa da fazenda – as roseta das espora fazeno seu baruio ritmado
–, gritemo oi! de casa! e entremo pra dentro do salão grande já iluminado pela
luz minguada do gerador da banqueta. Ouvino nossos passo, dona Carmita e seu
Orelo viero lá de dentro – o pisado da botina do patrão roncava as tauba do
chão -, e em antes que seu Orelo abrisse a boca pra dizer coisa, sortar os
bichos pra riba do fio, falei firme, mas com todo respeito como é do meu
feitio:
- Patrão, fomo buscar
um moleque e tamo devorvendo um home. Aqui está seu fio!
Sempre que um economista acerta uma previsão
econômica, é sinal de que a Economia errou.
O medo não escolhe idade, mas tem uma preferência muito
grande pelas crianças. Não sou psicólogo, por isso não sei de onde vem o medo.
Sei até para onde vai. Uma compreensão talvez um pouco melhor do que sobre a
dúvida ontológica do estar no mundo.
Em Carabuçu, pelo tempo em que lá vivi, até os meus
dezoito anos, desenvolvíamos os medos mais diversificados possíveis: de boi
bravo, de cachorro doido, de cobra venenosa, de marimbondo caçador e mangangá,
de corisco em dias de tempestade, de morcegos, de gatos à noite (De dia, não
havia problemas com eles.), de panarício (Eu tinha um medo quase pânico de
panarício!). Medos que poderia pôr na conta da existência física, do meio
ambiente, mas que eram muito bem administráveis por nós. Outros, contudo,
fugiam ao nosso controle: o medo do Saci-Pererê, da Mula-sem-cabeça e do
Lobisomem, entidades que rondavam a vila em noites soturnas de nossa meninice,
povoando histórias assombradas tão ao gosto da nossa gente cabocla.
E um outro, mais real, mais terrível que todos: o medo do
Carro Preto, uma entidade criada pelos adultos, para fazer o controle da
criançada. Menino que se afastasse muito de casa, corria o risco de ser roubado
(Não usávamos a palavra raptado.) pelo Carro Preto e desaparecer no oco do
mundo, para nunca mais. Alguns chegavam a dizer que o objetivo do Carro Preto
era levar as crianças para delas fazer sabão. Nem se cogitava em resgate a
troco de algum bem valioso. Era simplesmente sumir e voltar em forma de sabão. E
não poderia haver, até então, pavor pior do que ser transformado ingloriamente
numa barra de sabão.
Por essa altura a vila tinha pouquíssimos veículos, e
qualquer um que aparecesse, na cor preta, metia a criançada em polvorosa. Por
vezes, alguém dava o alarme de que vira um carro preto descendo o Morro do
Marta, na entrada da vila, e a criançada toda debandava, para esconder-se em
casa, o único local seguro na vila. Só o carro do seu César Portugal, um do
tipo cristaleira, como dizíamos, não infundia esse pavor em nós, por já ser
nosso antigo conhecido.
Como eu também desenvolvi não um medo, mas um certo
respeito, por aquilo que os mais velhos diziam de funesto sobre nossas
traquinagens, me precavia um pouco mais. Se um adulto alertasse para qualquer
perigo iminente de uma peripécia inconsequente, eu tinha aquilo como um
vaticínio. É que que fui testemunha ocular, durante uma dessas farras de
meninos na serraria aberta que ficava sob um frondoso pau-d’alho na subida do
morro da escola, da queda de um de nossos companheiros, do alto de um galho,
bem depois do aviso de um senhorzinho de cabeça branca que passava ao lado
- Cuidado aí, menino, que você vai acabar caindo e
quebrar o braço!
Não deu outra! Daí a pouco meu parceiro estava no chão,
há uns cinco metros abaixo do galho, com o braço partido.
Por isso é que passei a julgar que os adultos tivessem
parte com adivinhos, pessoas capazes de prever o futuro. E só para desgraças.
Nunca para boas novidades.
Depois que vim para a cidade grande, aquelas identidades
míticas como o Saci desapareceram. Nunca soube por aqui que tivesse aparecido
Saci em Niterói. Em Icaraí, por exemplo, onde cheguei em 1967, já desembaraçado
de todos esses medos. Lembro-me até de uma propaganda antiga sobre os
benefícios da energia elétrica: até mesmo esses assustadores bichos da noite
haviam desaparecido. É que a escuridão e o consequente medo dela propiciam a
que vejamos coisas que nem mesmo existem.
E aí estava a base para que a professora primária fizesse
a distinção entre substantivo concreto e substantivo abstrato. Este último
representava alguma coisa que só existia em nossa imaginação: o Saci, por
exemplo.
Claro que a explicação desses conceitos gramaticais não é
assim tão simples, mas ajuda a minimizar um pouco a sensação de medo que fazia
parte inerente à nossa vida.
Hoje vivemos aos sobressaltos, cheios de medo. Não de
coisas ou entidades criadas por nossa fértil imaginação. Mas um medo concreto
da violência das ruas, uma situação a que fomos levados há alguns anos e que só
vem-se agravando.
Hoje temos medo até de sair do portão de casa.
E este é um medo muito maior, muito pior, que não depende
apenas de nossos esforços individuais para vencê-lo.
Há cerca de quatorze anos, escrevi uma carta para Gabriela, minha neta, tão logo ela retornou à sua casa, após passar um fim de semana conosco. Hoje encontrei essa carta num pen-drive com alguns documentos e fotos antigas, da mesma época. Aproveitei, então, que Gabi já sabe ler há muitos bons anos e pode muito bem entender o que passava pela cabeça do avô, diante do encantamento por sua primeira neta, para a enviar por Whatsapp.
Aí está a carta.
"Minha linda netinha Gabriela,
Você tem apenas um ano e um mês. Já anda, já fala as primeiras
palavras. Vou enumerá-las para que você saiba, tentando o mais possível
reproduzir o modo como você as produz: “papá”, “mãmã”, “bobô”, “bobó”, “inda”
às vezes “dinda” (para madrinha), “lá” (para Flávio, com um movimento da língua
que pressupõe que antes do /l/ vem alguma coisa ainda não bem dita); “papato”;
“cocó”, “dedera”; “papá” (para comida); “papo” (sapo); “Didite” (Vó Judith);
“Zezé” (bem aberto), dentre outras que não me ocorrem.
Nós (eu, sua vó Jane, sua dinda Estefânia) achamos você muito
esperta e precoce, porque consegue falar tudo isso e entender quase tudo que
falamos com você.
Além disso, você é uma garotinha muito obediente. Atende às
proibições de alguma atitude que possa levá-la a se ferir.
Tem vivo interesse em alguns vídeos de histórias infantis (Branca
de Neve, Cinderela) e de músicas (A palavra cantada, por exemplo). Gosta de ver
os intervalos comerciais do canal Discovery Kids, mas não tem muita atenção
para as historinhas que são apresentadas.
Você é uma menina muito comunicativa, esperta, alegre, de um bom
humor contagiante, embora seja cheia de vontades e, às vezes, brigue por isso.
Sabemos que, na Casa de Rui Barbosa, você joga beijo para os
porteiros e os seguranças, e todos lá gostam muito de você.
Sua mãe e seu pai sempre a trazem muito elegante e bonita, cheia
de apetrechos que os nenéns usam em sua bagagem.
Não há como conviver com você sem se apaixonar.
Boa parte do que nós somos é herança de nossos pais. Outra nós
trazemos naturalmente. Uma outra adquirimos pela vida afora.
Você traz consigo o bom humor, a alegria e a felicidade
contagiante. Isso você pode cultivar durante toda a sua vida, pois assim viverá
melhor.
De seus pais, você adquire, além de traços físicos e de
personalidade, a educação, o trato com as pessoas, o senso de responsabilidade,
a noção de ética, o interesse por diversos assuntos (música, cinema, esporte,
por exemplo).
A vida vai lhe mostrar os embates, os caminhos, as opções, o
outro, que nunca deve ser encarado como o oposto, mas apenas como o diferente
de você. Não temos necessidade de lutar contra o nosso semelhante, mas fazer
dele nosso aliado, para que os embates, os caminhos e as opções sejam os
melhores, os mais promissores.
A escolaridade também vem de fora. E é preciso que você aproveite
o máximo possível de sua passagem pela escola. Tire dela o máximo possível,
para que você possa também retribuir com o melhor que puder.
Um beijo do vovô
Saint-Clair"
Definitivamente esta quarentena não está fazendo bem a ninguém.
Marido e mulher, cada um sentado em uma ponta do sofá,
acompanham o telejornal da noite. Ela, por dizer que tem atenção múltipla, essa
coisa que só mulher garante que tem, também futuca suas redes sociais ao
celular, enquanto afirma que também acompanha o noticiário. O homem jamais
saberá se é verdade, uma vez que morre de pavor de que isso seja realmente
possível: um ser humano ser capaz de prestar atenção a duas coisas distintas ao
mesmo tempo.
Num dos intervalos, o marido se levanta e começa a sair
da sala. A mulher, de imediato, lhe pergunta:
- Onde está indo?
Aqui é preciso observar que, antes da pandemia, tal
pergunta só ocorria no instante em que o marido sorrateiramente desferrolhava a
porta da casa, na intenção de ir ao botequim beber umas e outras e confraternizar
com qualquer um que estivesse com o umbigo encostado ao balcão – o Botequim
Chalé está logo ali embaixo, com suas torneiras de chope a convidar quem se aproxima.
Durante a pandemia, contudo, a saída de qualquer ambiente, por mais doméstico
que seja, passa a ser suspeita, passível de inquirição pelos órgãos competentes,
quer dizer, a mulher. Pois é o que está ocorrendo neste exato instante em que o
narrador flagra a cena.
- Vou ao banheiro. – responde ele com certa má vontade.
- Fazer o quê? – volta a inquiridora, a levar adiante o
inquérito administrativo recém-instaurado no ambiente sacrossanto do lar,
submetido às estritas leis da quarentena.
- Prefiro não responder! – diz ele, já aborrecido,
valendo-se do dispositivo constitucional de que o investigado não tem a obrigação
de produzir provas que possam incriminá-lo.
E vai em direção ao banheiro.
Fica lá o tempo necessário para atender aos reclamos da
sua biologia já um pouco desgastada pelo tempo e volta com a mesma pouca
disposição para conversa com que saiu ainda há pouco.
A mulher continua a demonstrar, com toda a segurança, que
vê o noticiário, futuca as redes sociais e ainda tem tempo para cronometrar a
ida do marido ao banheiro.
- Achei que você demorou. O que esteve fazendo?
O marido repete a mesma justificativa anterior: não vai
produzir provas contra si. Tem garantias da constituição para assim proceder. É
um cidadão livre e se reserva o direito de só declarar algo diante de autoridade
judicial concursada, empossada e paramentada para a ocasião. Se possível com
aquela cabeleira branca de juízes ingleses.
- É que eu tenho notado que você tem ido ao banheiro com muita
frequência e não estou gostando disso. Você deve procurar um médico para saber
o que anda acontecendo com você. Pode ser problema de rim. Você tem urinado
demais ultimamente.
- Problema de rim é quando não urina. Se estou urinando é
porque o rim funciona, né não?
- Ah! Mas assim também já acho um pouco exagerado. Tudo
tem de ter uma medida. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, não é assim que se
diz? E também não vejo você bebendo água, para precisar de ir tanto ao
banheiro. Aliás você não tem tomado água. Você pode estar se desidratando aos
poucos, sem perceber.
O marido dá meia volta, para fugir à preocupação da
mulher. Em vão. Agora como promotora começa a levantar indícios e sinais
pretéritos.
- Se lembra do seu Ricardo, lá do nosso antigo prédio da
Pereira da Silva?
O marido se lembra bem, evidentemente, pois ainda não é
incomodado pelo alemão odioso. Antes de virem para seu endereço atual, moravam
no apartamento de frente para o do senhor Ricardo e dona Mercedes, já idosos à
época. Seu Ricardo era um vizinho de boa conversa, simpático. Tinha sido
remador do Clube de Regatas, quando mais novo, e até pouco tempo mantivera o
hábito de sair pela Baía de Guanabara molhando o casco de seu barco, um single
skif branco, impulsionado por grandes remos apoiados às laterais.
No entanto, começara com um comportamento estranho, que
foi denunciado à filha pelo proprietário do bar no térreo do edifício, que
ficou preocupado com o que vira. É que seu Ricardo, com frequência usava o banheiro
do bar, e José, o dono do estabelecimento, notou que, após o uso, o vaso ficava
manchado de sangue. Depois disso seu Ricardo não durou muito. Ele, agindo
assim, escondia da esposa e da filha seu problema, o que atrasou o tratamento
de um fulminante câncer nos rins.
- Claro que eu sei! – respondeu ele já um tanto irritado
– Mas eu não estou com o problema do seu Ricardo. Apenas tenho ido com mais
frequência ao banheiro, porque já estou mais velho. E ainda fico feliz por meu
rim estar funcionando bem. O problema é se ele não funcionar.
- Não sei por que homem se recusa a ir a médico, se
tratar, prevenir qualquer tipo de doença. Nós mulheres somos precavidas: ao
primeiro sinal de que alguma coisa não anda bem, logo corremos ao médico. Por isso
é que morremos sempre depois de vocês. Você sabe a quantidade de viúva que há por
aí. Lembra do micro-ônibus que nos levava ao teatro no Rio como era cheio de
mulheres sozinhas, todas viúvas?
É claro que ele se lembrava. Num micro-ônibus lotado, era
só ele de homem. Se sentia como um dois de paus no meio daquele bando de mulheres
tagarelas, sem seus maridos, que já tinham ido para a cidade dos pés juntos. E ele
ali, sozinho. Por isso é que talvez tivesse tanta segurança de que aquelas idas
à miúde ao banheiro não fossem sinal de problemas.
- Lembra que a Marlene, aquela sua colega aposentada, contou
como o marido dela também morreu de uma hora para outra, sem que fosse por
problema de coração? Foi uma coisa assim, sem importância para ele, que acabou por levá-lo ao cemitério.
- Mulher, vira essa boca pra lá! Parece que está me
agourando! Está querendo também ficar viúva, para ir ao teatro num micro-ônibus
só de mulheres?
- Deus me livre! Morro de medo de ficar sozinha! Não
quero trocar nossa cama de casal, por uma cama de viúva! Você não vai me fazer
a desfeita de morrer e me deixar aqui.
A lógica da mulher escapa um pouco à compreensão
masculina. Então o marido tenta contra-argumentar:
- Então, se eu não posso morrer antes, você é que terá de
morrer, pela lógica. Aí eu é que ficarei viúvo. Mas não irei ao teatro naquele
micro-ônibus. Pode ter certeza!
E solta uma gargalhada.
- Mas não vai mesmo! E eu não vou morrer, e deixar você
aí soltinho, correndo atrás de sirigaita nenhuma. Está pensando que eu sou
boba?
E continua a mulher a futucar seu celular, ao tempo em
que também assiste ao telejornal e tece considerações acerca da vida e da saúde
em geral e do seu marido em particular.
A quarentena está apenas pela metade, sem perspectivas de
acabar. Ainda haverá muita oportunidade para que tal assunto volte à baila,
entre na ordem do dia, esteja sobre a mesa de negociação. Nunca se sabe até
onde podem chegar os problemas de fundo psicológico que esse diabo de vírus
pode produzir. Esse casal é apenas e tão somente uma de suas vítimas
atualmente.
E este narrador se exime de qualquer responsabilidade no desfecho da história.
Imagem colhida na internet.
![]() |
Pintura de Meyer von Bremen (1813-1886), colhida da Internet. |
Inverno em Icaraí (jun/2015; foto do autor). |
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Imagem obtida na Internet. |
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Imagem em tudodesenhos.com. |
Rio Itabapoana, próximo a Bom Jesus (foto do autor). |
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Pauline Roche, No café (paulinerochefineart.com) |