(Para o amigo lusitano Alfredo Moreirinhas, que anda tomando aguardente industrializada lá na Terrinha e achando bom.)
Vim do
interior, onde aprendi a apreciar cachaça, apesar de toda a carga social
negativa sobre ela. Mas conhecia pessoas que a tomavam e não se degradavam
socialmente. Meu tio Aurélio, por exemplo.
Ele foi um
dos meus mais queridos tios. Casado com a tia Toninha, irmã da minha mãe, era
proprietário rural em Carabuçu e não passava sem sua cachacinha às refeições.
Fora disso, nunca o vi beber. Nem cerveja.
Quando éramos
pequenos - eu e seus dois filhos: Délbio e Zé Luiz -, ele nos permitia tomar
pequeninos goles, em canequinhas de ágate, também ao almoço, para abrir o
apetite. Hoje talvez isso fosse politicamente incorreto, imprudente,
inapropriado. Ao entrarmos na adolescência, ele não o fez mais, com receio
de que pudéssemos virar pinguços.
Passei, então,
alguns bons anos sem colocar um só tiquinho de cachaça na boca, até que atingi
a maioridade.
Sempre gostei
da bichinha, que tomo com prazer e temperança, saboreando o gosto forte que ela
deixa na boca. Meu paladar é afeito a sabores marcantes.
Aprendi, por
exemplo, que cachaça boa não precisa queimar a garganta. Não desce escalavrando
a traqueia. Não adormece as papilas gustativas; antes, as atiça, de modo a que
se desfrute do tira-gosto apropriado logo a seguir. Acho imprudente tomar
qualquer bebida alcoólica, sem algo a acompanhá-la, ainda que seja água
mineral.
E já bebi
cachaças maravilhosas por essa vida afora.
Uma delas
atendia justamente pelo nome de Maravilhosa e me foi oferecida por meu ex-aluno Pascotto,
de Miracema. Seu pai, proprietário da Fazenda Maravilha, era produtor de
cachaça, e ele me presenteou com uma que fora embarrilada no ano de seu
nascimento, havia vinte e poucos anos. Era propriamente um néctar de cana.
Infelizmente, não é mais produzida.
Outra,
descoberta ao acaso durante almoço comemorativo do aniversário da professora da
minha filha, era tão boa, que não estranhei o preço de cada dose medida em
dedal de costureira que tomei: à época, isso faz uns oito/dez anos, foi R$13,90. É a cachaça Montanhesa Premium,
produzida em Araguari, no Triângulo Mineiro.
Meu amigo
gringo Kenneth trouxe do Rio Grande do Sul a 30 Luas, envelhecida por trinta
meses em barril de carvalho. Cachaça soberba, desce macio, arredondada, sem
esporear a garganta, como se esperaria de uma pinga gauchesca.
Nessa trilha do
sul, encontrei outra gaúcha, de Santo Antônio da Patrulha, na Cachaçaria Tonel
e Pinga, em Niterói: Moenda Nobre. Apresentada em bela garrafa de 500ml, essa cachaça
também passa por barris e tem sabor marcante.
Ainda desta cachaçaria, adquiri a Menina do Rio Ouro, produzida em Sapucaia-RJ. Na
cor âmbar, translúcida como só, ao primeiro gole, tive um insight: é bonita e cheirosa como a Camila Pitanga, uma verdadeira
menina do Rio. Embora nunca tenha cheirado essa belíssima atriz, com a
imaginação, é possível deduzir isso.
Outra,
paulista de Bananal, é – ou foi – a Santa Inês. Soube que, por questões
mercadológicas, teve de trocar seu nome, conquanto ainda possa ser encontrada em
pesquisa na Internet. Da mesma região, em Cunha, trouxe em belíssima garrafa de
cerâmica a Empório Renzi, acompanhada de certificado de procedência. Mas sem garantia
do conteúdo, que foi detonado durante uma feijoada oferecida aos amigos.
Há coisa de
trinta dias, apareceu o amigo bissexto Cássio, num domingo de manhã. Conversa vai,
conversa vem, antes que eu lhe oferecesse um cafezinho – eram dez horas –, ele
perguntou se eu tinha uma boa cachaça. Aqui em casa é o que não falta. Abri as
garrafas da Volúpia e da Bocaina, que havia trazido de Minas, e ficamos na
segunda, originária de Lavras-MG, por várias doses homeopáticas, com o papo
rolando solto. A Volúpia, também uma excelente bebida, produzida em Alagoa
Grande-PB, fica para outro dia.
Em
Tiradentes, há alguns anos, durante o Festival de Cultura e Gastronomia,
conheci a Vale Verde, de Betim-MG, também extraordinária, que foi eleita pela
revista Playboy como a melhor cachaça do Brasil. Comprei lá duas garrafas, uma
das quais presenteei à minha irmã Cristina.
Agora foi a
vez de ela me retribuir o mimo e, por ocasião de nossa volta àquela cidade
mineira, associou-se à nossa sobrinha Fernanda para me dar a Vitorina, que
ainda não experimentei, mas já vem com a melhor das recomendações: a dona da
Cachaçaria Confidências Mineiras confessou-lhe que é a de que mais gosta. Como
a Volúpia, está com os dias contados. Vem aí a festa de Thanksgiving do meu amigo gringo e acabo levando uma delas para lá.
Thanksgiving climatizado nos
trópicos!
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A bela garrafa da 30 Luas (em costibebidas.com.br). |