Você se
chama Nina. Ou melhor, Rosângela. Mas odeia o nome desde menina. Desde que teve
de compartilhar a carteira com a outra Rosângela. Rosângela Seabra, para ser
mais preciso. Um poço de antipatia. Você, a Rosângela Silva. A professora tinha
mania de ordenar os alunos por ordem alfabética. Por isso os assentos
compartilhados. Então, resolveu que, a partir daquela aula tal, no dia qual,
não seria mais xará da nojenta, da petulante. E trocou seu nome para Nina. “Aí,
galera, ninguém agora vai me chamar mais de Rosângela. Agora sou a Nina.” Você
só tinha dez anos, mas já sabia o que queria da vida. E o que não queria! Uma
dessas coisas era ser xará da Rosângela Seabra, a pernóstica, a podre, como
você dizia. E passou o tempo todo de escola como Nina, até chegar à faculdade.
No curso de Educação Artística, no primeiro dia de aula, na primeira aula, vai
o professor de Português fazer a chamada. “Rosângela Silva?” Você se levanta e
diz “Professor, por favor, não me chame por este nome horroroso. Eu sou a Nina
daqui em diante. Aí, sou a Nina! Certo, galera?” Quatro anos depois, no dia da
formatura, você é convocada a subir ao palco para receber seu canudo de
brincadeirinha: “Nina Silva!” E é ovacionada pelos colegas.
oxoxoxoxoxoxoxoxoxo
Você se
chama José de Souza Machado. Na folhinha, corriam desacelerados os primeiros
anos da década de 10 do século passado. Descobre, muito a contragosto, que há
um seu homônimo, de cabo a rabo, do jota inicial ao o final, que anda
enxovalhando o nome na praça, com pendências de dívidas e negócios escusos,
sentando em tratos e não cumprindo palavra dada. Você é um homem de bem. Tem brios
e vergonha na cara. Inclusive engatilhou casamento com a filha do Coronel
Antonico Pinto e não pode – e não quer! – ter o nome sujo. Resolve, por isso
mesmo, de moto próprio – coisa que lhe deu na telha –, passar a se chamar José
de Paula Machado. Casa-se José de Paula Machado, abre conta no banco José de
Paula Machado e sobrenomeia um dos dez filhos com o Paula, que tomou emprestado
a um ascendente. Na única e derradeira vez em que fica doente – com aquela
doença ruim, a inominada matadora de gente boa –, os filhos vão dar entrada nos papéis para
o INSS e descobrem, meses antes de fazer a passagem, que você nunca foi José de
Paula Machado, como consta de todas as certidões de nascimento de filhos e
netos. Você é exatamente como seus outros seis irmãos: um Souza Machado. Mas
isso é letra morta na genealogia da família. Você ficou eternizado José de
Paula Machado.
oxoxoxoxoxoxoxoxoxo
Vocês são
duas, distanciadas pela idade e pela geografia. Você, mais nova, é Felisbela e
odeia o nome. Pede ao professor para ser chamada por Bela. O professor a
examina dos pés à cabeça, respeitoso porém admirado, e cogita que o apelido se
aplica perfeitamente à pessoa: menina-moça morena, alta, olhos e longos cabelos
negros, rosto juvenil equilibrado, sem marcas. Beleza que o uniforme da escola
pública – saia levantada até o meio da coxa roliça – não consegue esconder.
Você é Bela e bela, com redundância e tudo. Você, mais velha, contudo, é
Florinda e também tem ojeriza ao nome. Também pede ao professor que a chame de
Linda, ao responder à chamada no curso de Administração, no primeiro dia de
aula. O professor afasta os óculos dos olhos em sua direção. E constata o
antagonismo visível entre o apelido e o atributo, entre o nome e o adjetivo. Você
está acima do peso, a pele marcada, os olhos um tanto desalinhados atrás de uma
armação escura nada elegante, uma sutil verruga sobre o nariz. Enfim, cada uma
carregando o peso do nome, abrandado pela alcunha, que nem sempre faz jus à
pessoa.
oxoxoxoxoxoxoxoxoxo
Você canta
desentoado, semitonando nas notas altas. Sua carreira de cantor de barzinho faz
esfriar o filezinho aperitivo mais saboroso. Principalmente quando canta música
romântica. Você toca violão como se tocasse porco na estrada. A voz e o
acompanhamento não casam, não se harmonizam. Mas você insiste. Canta a troco do
lanche ao final. Um dia reclama com a amiga que sua carreira não deslancha. A amiga,
cheia das mais estranhas superstições – aliás, todas as superstições são
estranhas –, lhe indica um tarólogo-numerólogo-astrólogo-jogador de baralho
cigano, com consultório na rua do matadouro. Você não crê, mas não descrê. Melhor
não recusar, e procura o bruxo. Ele, o bruxo, depois de estudar seu mapa
astral, jogar o baralho, mexer nos números, diz que o entrave está no seu nome.
E lhe propõe colocar um ípsilon, um agá e dobrar uma letra qualquer, para dar
equilíbrio e força, sem as quais a desafinação só iria piorar. Você aceita, até
porque pagou caro pela ajuda. E passa a grafar Gennyvaldho. No primeiro fim de
semana, perde o contrato de cantor do quiosque da pracinha. Segundo o gerente,
ficou muito complicado escrever seu nome na lousa verde. Além disso, ele iria ocupar o lugar do
preço do cachorro-quente.
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