16 de setembro de 2012

TRAIÇÕES CABOCLAS III

Mais duas histórias curtas de traições longas da vila de Liberdade, antes que ela passasse a se chamar Carabuçu.
A primeira.
L. M. - não vou dizer-lhe o nome, pois, embora morto e enterrado de muitos anos, deixou vasta descendência que ainda se mantém por aquelas bandas - era fazendeiro de estimadas posses, numeroso gado, alambiqueiro afamado e contumaz traidor de sua mulher, em quem fizera uma fieira de filhos.
Diziam as péssimas línguas de então que dona M, mulher dele e mãe da filharada, não tivera as bênçãos das deusas da beleza e, durante anos, sofreu estoicamente as estripulias do marido, que disseminava sua prole terceirizada por toda a parte.
Até que um dia, decidiu ir até a cidade de Campos, para ter um particular com uma teúda e manteúda dele. Foi desarmada de tudo, menos de espírito.
Chegou decidida. Bateu palmas à porta, e ninguém atendeu.
A casa ficava numa espécie de chácara, em centro de terreno. Fixado num toco ao lado, estava um machado, usado para rachar lenda. Dona M pegou o machado e abriu a porta com alguns golpes vigorosos. Entrou pela casa adentro e pôs abaixo, a poder de machadadas, todos os móveis, da sala aos quartos, da cozinha à despensa.
Dali foi levada diretamente, em camisa de força, para o Henrique Roxo, hospital psiquiátrico tradicional da cidade, onde passou seus últimos anos.
Imagem em pt.wikipedia.org.
A segunda.
Mário Nunes, outro fazendeiro das antigas, reinava sobre pastos e plantações com a mesma desenvoltura que sobre as mulheres que lhe estavam à mercê. Lindinalva era uma delas.
Numa casinha simples, caiada de branco, com portas e janelas azul-rei, ela vivia a expensas do fazendeiro, fazendo-lhe aquilo que à esposa era vetado. E, além disso, tinha de si a presunção da juventude e do cheiro de amora na pele trigueira.
Por isso é que, audaciosa, vestiu-se toda bonita e foi até a casa do fazendeiro. Lá, foi recebida pela esposa traída.  Perguntou por ele, se ia demorar, e disse que ficaria esperando que voltasse.
Sentou-se altiva com sua saia rodada, de estampas florais.
Dona Alzira, que no momento esquentava a água para o café da tarde, veio até a sala trazendo o canecão com a água fervente, levantou a saia de Lindinalva e escaldou a área de lazer do marido infiel.
Consta que os lábios ficaram grudados, por derretidos, e tiveram de sofrer lanternagem de doutor diplomado, para tentar recuperar seu antigo jeito.

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