1 de outubro de 2011

NA VENDA DO VALTER

Enrolou o pito. De cócoras, como estava, ficou, olhando a carneirada de nuvens correndo o céu de ponta a ponta. Aos poucos, os amigos de prosa iam chegando à venda do Valter como sempre nas tardes de sábado. E, aí, engatavam na conversa, na porrinha, no cisprandi, na cachaçada com tira-gosto de tripa, pele de porco, chouriço, linguiça, rim, fígado, passarinha. E se deixavam ficar até altas horas, num falatório, numa risadaria sem fim, de parecer que a vida da roça não jogava sobre seus ombros o peso da pobreza, da penúria e da falta de horizontes.
Puxou uma boa tragada, que soltou devagarinho, experimentando o paladar do fumo forte. Veio o Berilo, veio o Tatão, veio o Acácio e foi vindo gente. A venda, aos poucos, se enchendo. Valter e seus caixeiros se desdobrando para atender um e outro nas compras da semana, nas doses de cana, nas lascas de petiscos. E era o que mais ria das anedotas, dos causos, daquela historiada toda de gente do mato.
O pito já chegando ao finzinho, quase lhe queimando os beiços, ele entrou na venda e disse em tom alto: Gente, matei minha mulher! Acabem comigo, pelo amor de Deus!
A conversaria cessou. Um ou dois se engasgaram com a talagada de cana. Valter foi o primeiro a falar: Que é isso, homem? Deixa de bobagem!
Não era, porém. Fossem até sua casa.
A noite nem ia alta nessa hora. Valter deixou os caixeiros na venda, chamou uns homens para acompanhá-lo e rumaram para a casa do Alípio. Foram quase todos, ninguém acreditando.
A cena era dantesca. O corpo da mulher, retalhado a machado, se espalhava pela casa pobre de pau a pique, placas de sangue pelas paredes e pelos móveis rústicos. As crianças, quatro ao todo, amontoadas no canto do único quarto, choravam como filhotes abandonados.
Alguns ficaram no casebre para as providências. Outros voltaram às carreiras para pegar o assassino.
Alípio estava enrolando mais um cigarro de palha, quando os homens o pegaram, sacudiram, inquiriram sobre ato tão destinado.
Não sei, gente, não sei! Só me deu uma vontade danada de matar alguém, sem ódio, nem vingança. Aí eu retalhei ela, tão boa ela era pra mim, pros filhos, pros vizinhos. Nem atinei comigo mesmo! Nem sei de mim... Na hora, até me deu um gosto doce de sangue na boca. Agora, nem isso. Acho que estou no ar, a cabeça meio zonza e vazia. Como é que estão as crianças? Cuidem delas pra mim, gente. Será que Deus vai ter piedade da alma dela? Tão boa ela era... Será que as crianças vão me perdoar? Tou começando a achar tudo tão sem graça, tudo tão desorientado. Vocês acham que eu tou ficando doido? Antes de me matarem, deixa eu rezar pra São Judas Tadeu. Acho que eu tou tão precisado de ajuda. Vocês não acham? Vocês, meus amigos, me perdoam também? Com toda a sinceridade?! Agora podem me matar. Nem sei se vale a pena, mas podem me matar, igual que fiz com ela. Perdão, gente! Acho que tou tão precisado de perdão...


Almeida Jr., Caipira picando fumo (séc. XIX),
Pinacoteca do Estado de São Paulo
(imagem em pt.wikipedia.org).


Um comentário:

  1. Dai-nos força, Deus, para que nunca sejamos fracos ao ponto de sucumbir ao teu inferno.

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