14 de outubro de 2011

MARIA MATA O PORCO

(Para a tia Alda Gomes Schuab.)

O dia tinha amanhecido esquisito, céu de chumbo malparado, tanto que Maria não atinara com a hora, no momento em que foi dar milho à criação. Pela cara da manhã, bem poderiam ser seis horas, quanto oito. O sol não havia saído e o tempo parecia a pasta acinzentada do sabão que ela frequentemente fazia no tacho colocado do lado de fora da casa e com o qual lavava os teréns da cozinha.

E a jornada prometia, com a faina de matar porco, que se dava, pelo menos, a cada dois meses.
Até parecia que os bichos desconfiavam: era um bulício só nas cevas e galinheiros. Deve haver algum anjo da guarda encarregado de lhes avisar sobre as desgraças anunciadas. Ou eles não teriam aquele comportamento alvoroçado.
Pergentino, o marido de Maria, preparava o borralho com a palha de café a queimar, a fim de fazer o café da manhã.
Na sua casa de roça, não havia muita distinção em quem fazia a primeira refeição do dia. Aquele que primeiro pulasse da cama tratava dos bichos de terreiro; o outro ia para o fogão. E foi isso o que se deu naquele sábado.
As crianças, seus três filhos – dois meninos e uma menina –, mais dois sobrinhos que vieram passar uns dias na folga da escola, só acordariam um pouco depois, para acompanhar a lida. Isto era como uma diversão para eles.
Criança de roça não tem o sentimento pelos animais que têm as crianças da cidade, que só os conhecem por fotos, filmes e programas de tevê. Como estão diuturnamente com eles e aprendem com os mais velhos o uso que há milhares de anos o ser humano faz dos bichos, não sentem pena ou se mortificam com o sacrifício de alguns para o sustento da família.
Assim matar porco, matar galinha, cortar a cabeça do pato, que sai esguichando sangue pelo terreiro em desorientada carreira, não provoca horror ou repugnância. Felizmente ou infelizmente, os bichos estão aí para que deles se tire o proveito e o paladar.
Até mesmo o gato e o cachorro, que pretensamente são os bichos de estimação, não merecem a estima que os citadinos lhes devotam. São mais bichos domésticos, que compartilham espaços comuns, sem que sobre eles se derrame a quantidade de afeto e carinho que se vê nas casas e nos apartamentos das grandes cidades. E ninguém fica mais ou menos humano ou desumano por tal tipo de comportamento.
Quando, após o café da manhã, Pergentino se dirigiu à ceva para escolher o capado a ser abatido naquele dia, as crianças já haviam acordado e correram todas para ver o início da função.
O abate do animal era o mais simples possível, sem sofisticação e com as dores normais que os animais padecem para que, após algum tempo, se transformem em costelinhas, carrés, lombos, pernis, chouriços, torresmos, linguiças e outras delícias, que poderiam ficar guardadas, mergulhadas na gordura do animal, numa grande lata. E serviam para o consumo durante mês e tal, quando, então, outro leitão iria para o sacrifício.
Pergentino não perdia uma gota de sangue do bicho, que se debatia e grunhia desesperadamente, após ter a faca pontuda enterrada, de forma certeira, por sob sua pata dianteira esquerda, indo atingir diretamente o coração. O passo seguinte, também, por conta dele, era sapecar a pele, a fim de que os pelos fossem retirados, o que fazia com um banho de álcool, a que se ateava fogo com um palito de fósforo.
Neste momento, os meninos deveriam afastar-se ainda mais, para que não se queimassem com o porco.
Em seguida, seguia-se o descarne do sacrificado, com a retirada da pele com o toucinho, a separação das peças de carne, a extração dos intestinos que, depois de muito bem lavados com água corrente e limão galego, se prestariam a chouriços e linguiças. Apartava-se cuidadosamente a banha, a barriga para o torresmo, as partes terminais, como orelhas e pés, porque sempre havia a ameaça de uma feijoada num dia festivo, na comemoração de uma data especial. E Maria era exímia nesta parte da lida. Fazia-a com a rapidez e a competência que a prática que lhe dera.
A tudo, as crianças acompanhavam com certo ar de espanto, porém sem medo ou horror. Sabiam que, daí a pouco, iriam comer um bom bife de porco acebolado, um pouco depois um saboroso chouriço cheio de pimentas e, mais um pouco à frente, linguiças que se desmanchavam na boca, após curarem no fumo do borralho, por alguns dias.
Por isso é que, na roça, esses bichos que se prestam à alimentação não tinham nome. Apenas os gatos e os cães mereciam tal distinção.
Lá para o fim da tarde, tudo já terminado, o terreiro limpo, as crianças retomavam suas brincadeiras normais, como puxar carrinhos de boi feitos de sabugos de milho, que cortavam imaginários morros imensos no montinho de areia junto à tulha. A menina voltava às falas e cuidados com suas bonecas de pano. E a vida seguia nos mesmos planos normais, naturais, previstos desde que, neste mundão desembestado, o ser humano começou sua trajetória e se multiplicou numa sucessão milenar, até os dias de hoje.
Hoje, em algum canto do país, Maria vai matar o porco, para a subsistência de sua família. E ninguém será mais ou menos humano ou desumano por isto.
Luiz Taquelim, Matar o porco (séc. XX),
em centroculturaldelagos.wordpress.com.

6 comentários:

  1. Se bem que existam poucas Marias hoje em dia. A grande maioria prefere mesmo as gondolas mágicas dos supermercados. É mais civilizado. O que não impede de, vez por outra, comprarmos gato por lebre.

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  2. Você está coberto de razão, Paulo Laurindo. Esta história fica por conta de minhas reminiscências.

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  3. Reproduzo aqui o texto enviado por Alfredo Moreirinhas (Travel with us):
    "Engraçado, que quando comecei a ler o texto, pensei para comigo, que sabia da matança do porco, mas como sempre vivi na cidade, nunca em minha casa se matou qualquer animal! Dei por mim, a pensar que seria horroroso ter que o fazer para comer!... Ao longo do texto fui percebendo que se fosse filho da Maria, isso seria absolutamente normal.
    Texto muito interessante.
    Obrigado, Abraço
    Alfredo" (por e-mail)

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  4. Eu aqui, doido num torresminho que há tempos não aprecio. Bela crônica.

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  5. Me lembro claramente desses dias. O acordar cedo, acompaanhar toda a movimentação era festa!!!!!!
    Obrigada de novo... mais uma vez... por trazer lembranças tão boas!!!!!!!!

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  6. Oi, Lilian! Veja como estas boas lembranças são comuns a nós. Bjs

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