Ao nascer,
foi desenganado pela parteira e, posteriormente, pelo médico da cidade. Teria
uma vida breve. Por isso, na pia batismal, recebeu o ofensivo nome de Antônio
das Mortes. Nenhum dos dois acertou. A mãe ficou com remorso, mas já era tarde.
Aos doze
anos, despencou-se do pau-d’alho, na serraria do Bebeco, de onde voou cerca de
cinco metros até as tábuas aparelhadas. Levantou-se, bateu a serragem que lhe
agarrou ao corpo e à roupa, chorou um pouco e foi embora para casa, ali perto,
no morro do colégio. Pelo corpo, apenas umas contusões sem maiores
consequências. A vizinha maledicente ainda falou um dia esse menino morre, um
dia esse desesperado faz a passagem.
Aos dezoito
anos, de olho mortiço em bem apessoada morena do fim da rua, consultou
cartomante de prestígio nas redondezas sobre suas chances no amor e soube, por
uma carta atravessada sobre outra, que sua vida seria curta. Não chegaria a
deixar descendentes, que dirá desfrutar de menina nova.
Aos quarenta
anos, com vários filhos, dois netos já engatilhados para nascer, venda de
secos-e-molhados sortida, caiu da escada ao arrumar latas de biscoito Havaí na
última prateleira do armário. Fraturou o cotovelo, sofreu cirurgia, ocasião em
que os médicos descobriram haver algo errado com sua saúde. Depois de muitos
exames e fuxicações em seu organismo, disseram-lhe para providenciar testamento,
que aquilo que eles encontraram nos escondidos dos órgãos e das células não lhe
permitiria ver o São João do ano entrante.
Aos sessenta
anos, fez festança para calar a boca de todos os vaticinadores de desgraças.
Durante a função, recebeu presente estranho, enviado por desconhecido. Dentro
de uma caixinha preta, bilhete soturno anunciava mais um infortúnio. Jogou
aquilo fora, sem dar maiores importâncias. E tomou um porre de juntar cachorro!
Passaram-se
os setenta e os oitenta. Todas as aves agourentas, profetas de desgraças, já
estavam embaixo dos sete palmos, desfrutando a paz dos cemitérios, comendo
capim pela raiz. Ele ainda comia feijoada, bebia caipirinha, pitava cigarro de
fumo de rolo, jogava cunca de cacheta até as desoras e futucava popa de moça
bonita desavisada.
Vieram os
noventa e ele teimoso, sacudido, contrariando todas as previsões que lhe
jogaram na cara desde o nascimento. E, não fosse um tiro certeiro de incerto
marido desconfiado, morador da rua do cemitério, romperia os cem anos lépido e
fagueiro, porque morreu com a saúde tinindo e trincando, praticamente
inoxidável.
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