9 de agosto de 2013

COMO ABORTAR UMA CARREIRA PROMISSORA EM DOIS TEMPOS

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 11/4/2010.)
 
 
Brotavam os anos 60. Com meus 15 anos, meu pai pergunta se eu queria aprender a profissão de barbeiro, lá em nossa pequena vila de Carabuçu. Eu, com convicção, disse-lhe: Não! Como resposta, ele foi taxativo: Pode ir, que o Moreninho está esperando pra te ensinar.
Menino obediente, fui, sem discutir. Também era raro menino discutir com o pai nessa época.
Moreninho, infelizmente já falecido, era uma dessas pessoas interessantes que encontramos ao longo da vida: bom papo, vascaíno doente e apaixonado por cinema. Tinha um caderno em que anotava os nomes dos filmes a que assistira e dos seus atores principais, mais uma ou outra observação importante. Naquela altura, lá no interior, não ligávamos para diretores. Quem levava o cinéfilo à sala escura eram os atores. Para marcar essas paixões indelevelmente, atribuiu aos quatro filhos do primeiro casamento – período em que convivi com ele – os seguintes nomes: Ademir, em homenagem ao grande goleador vascaíno; Carmem Lúcia, em homenagem a uma nadadora também do time; Bellini, em homenagem ao zagueiro do Vasco e da Seleção Brasileira de 58; Edilamar, em homenagem à atriz americana Eddy Lammar, uma das suas paixões na tela. Minha memória para por aí, nesses filhos.
Ia eu levando o aprendizado de barbeiro meio a contragosto, apenas porque meu pai assim determinara.
Próximo à barbearia – tudo na vila é próximo –, ficava a farmácia do José Resende, o Zé da Farmácia, onde trabalhava como prático o meu amigo Ronaldo Salles. Estávamos sempre de conversa e, nas horas vagas, ia à farmácia para ler gibis, que ficavam em duas grandes gavetas na parte de baixo das prateleiras de remédios e do lado do freguês. Zé era um aficionado por gibis. E isso era muito bom para os meninos que os podiam ler sem gastar nada, pois Zé não fazia conta dessas coisas.
Aliado ao prazer da leitura dos gibis, vinha em minhas narinas o cheiro gostoso das drogas, dos álcoois e dos éteres. E a farmácia estava sempre limpinha, sempre arrumada, diferentemente do salão de barbeiro com seu chão com cabelos cortados, varrido de vez em quando.
Talvez por tudo isso é que tinha lá desejos de me tornar, também, prático de farmácia e sair aplicando injeções a três por quatro, aviar receitas, fazer curativo nas meninas. Ronaldo, no entanto, sempre me dizia que não era bem assim, as coisas ali eram complicadas.
Até que, certa tarde, mandou-me chamar na barbearia para ver algo. Estava ele nos cuidados de uma bicheira horrorosa na cabeça de Caburé, trabalhador rural que nos fins de semana ia à vila tomar cachaça, e que acabou por envolver-se numa briga com outro bêbado, o Argeu. Na queda, Caburé bateu com a cabeça no meio-fio da rua e agora estava ali com a ferida botando bichos por todos os lados. A visão era tenebrosa. Mas fiquei atento, vendo os cuidados de Ronaldo. Aquilo já balançou um pouco meus planos.
Daí mais uns dias, Ronaldo manda me chamar, novamente, para ver  seu trabalho.
Havia chegado à vila um circo de nome Gran Circo Panamericano, que, dentre outras atrações, trazia animais. Um rapaz, funcionário do circo, meteu-se a urinar próximo à jaula das hienas. Sem pestanejar, uma das feras deu-lhe uma mordida bem lá na área de lazer, que lhe fez um furo de lado a lado. Desesperado, correu à farmácia.
Agora lá estava o Ronaldo no trabalho de curar o pinto do abestalhado circense, passando algodões, mertiolate e outras coisas mais. Virou-se para mim e perguntou:
- Ainda quer trabalhar em farmácia?
Abortei o plano na hora e botei na cabeça que, dali em diante, iria fazer Letras. E eu lá sou bobo?!
 
Lee Dubin, Barbearia (em liveinternet.ru).
 
 


Um comentário:

  1. Muito bom, seo Saint-Clair. O amigo pode não ter se tornado farmacêutico mas, sabe como preparar um bom remédio.

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