(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 23/5/2010.)
Um burburinho se instalou sobre a ponte que liga as
duas Bom Jesus, do Norte e do Itabapoana, na fronteira entre os estados do
Espírito Santo e Rio de Janeiro. O motivo da confusão era a tentativa de
suicídio por afogamento que Valcírio armava com estardalhaço. Alguns passantes,
quando perceberam Valcírio sobre o parapeito da ponte, preste a se atirar nas
águas barrentas do Itabapoana, correram a segurá-lo. Desatinado, o homem
gritava que queria se matar, que sua vida não valia mais nada, não tinha mais
sentido. Tudo porque descobriu que sua mulher, uma morena fornida em carnes,
facilitava a vida de uns e outros.
Pego no desaviso com a revelação do amigo de botequim,
correu até sua casa, onde pôde constatar a veracidade da fofoca. Albertina
estava de acochambração com um vizinho espadaúdo, cuja pele brilhava de suor
sob a fraca lâmpada do abajur na mesinha de cabeceira. Saiu correndo do local,
as ideias embaralhadas.
Agora estava ele ali, armando a confusão, muito mais
para chamar atenção para si. No entanto as pessoas não percebiam que aquilo era
mais um pedido de socorro do que o desejo real de se matar.
- Não cometa esse desatino, Valcírio! Tome juízo,
homem!
- Me deixem, eu quero morrer! Vou me jogar no rio,
quero morrer!
E seguia esse vai-não-vai, com gente chegando, a
confusão aumentando rapidamente sobre a ponte, onde já não passava mais nenhum
veículo.
Até que chegou Saturnino Malagueta, nordestino cabra da
peste que morava do lado capixaba há mais de quinze anos, mas que ainda não
deixara de todo uns hábitos da terrinha: andava sempre com uma peixeira de
lâmina estreita e comprida na cintura, para qualquer emergência. E foi-se
metendo entre o povinho que cercava o desatinado, impedindo-o de pular ponte
abaixo.
Empurra daqui, empurra dali, abria caminho com seu corpão acobreado,
para assuntar o ocorrido. Até que chegou no centro dos acontecimentos e viu a
cena: Valcírio contido por uns três ou quatro homens, pedindo para deixá-lo
morrer.
- Que é que está acontecendo aqui? Qual o motivo desse
forrobodó? – perguntou Saturnino.
- É o Valcírio, Saturnino! Tá querendo morrer só porque
descobriu que é corno!
Saturnino Malagueta não vacilou: sacou da peixeira de
lâmina reluzente, pegou no colarinho do pobre Valcírio e disse para todos
ouvirem:
- Ó xente, Valcírio, se você quer morrer, vou ajudar!
Vai ser agora! Deixa o homem comigo, gente! – falou para os demais.
- Que é isso, Saturnino?! – gritaram alguns. E partiram
para segurar o nordestino, contido com certa dificuldade, já que estava
verdadeiramente decidido a ajudar o pobre coitado a partir desta para melhor.
Valcírio só teve tempo de dizer, antes de desmaiar:
- Pelo amor de Deus, Saturnino, não me sangra não! Ai,
meu Deus!
E ficou o dito pelo não dito e o suicídio pelo não
suicídio. Valcírio aprendeu a suportar a infidelidade da mulher, porque ameaça
de suicídio, naquela terra, era quase um princípio de morte. Cruz credo, sô!
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Imagem em desciclopedia.org. |
Ô xente! parece ité istoria do "Cel. e o lobisomem" inté cumedo do Saturnino fique. Deu e q me livre.
ResponderExcluirObrigado pela comparação, que muito me honra, Anônimo. Pena que seu nome não apareceu aqui.
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