(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 22/3/2010.)
Lá pelo início da década de 60, ocorreu
esse fato verídico, que vou tentar contar com a maior fidelidade possível aos
acontecimentos.
Havia
em Bom Jesus do Itabapoana um órgão do governo federal denominado SAPS, que
cuidava da venda de alimentos de primeira necessidade a preços mais baratos,
porque isentos de impostos. Tinha a agência do SAPS como gerente uma figura
bastante folclórica, ligada ao antigo Partido Trabalhista Brasileiro do então
governador, Roberto Silveira, pai do ex-prefeito de Niterói, Jorge Roberto.
Todos
sabiam que o cargo lhe tinha sido dado pelo fato de ser um dos quadros do
partido, ainda que bem pequeno e lá no interior norte do Estado, já que não era
portador de maiores condições intelectuais para a empreitada.
Certa
vez, programou-se uma partida de futebol, de caráter amistoso, entre os
funcionários do SAPS de Bom Jesus e do SAPS de Itaperuna, cidade vizinha.
Para
divulgar a partida, o tal gerente (permitam-me omitir-lhe o nome em
consideração a seus descendentes) dirigiu-se à Tipografia Almeida para
solicitar a confecção do cartaz alusivo à contenda. Levou todo o texto pronto.
O
sócio da tipografia reproduziu no cartaz exatamente o texto que o gerente do
SAPS lhe entregou, talvez até por picardia, sabendo quem era o homem.
E
saiu bem no meio do cartaz, do tamanho de meia folha de jornal, em caixa alta:
O JOGO SERÁ ENTISIOSPÉTICO.
Pedrinho
Teixeira, homem de muita cultura, dono de uma vasta biblioteca que herdara de
seu pai e proprietário de uma farmácia na Praça Governador Portela, próxima à
agência do SAPS, pesquisou em todos os seus dicionários e enciclopédias, sem
conseguir encontrar o sentido da palavra entisiospético. Consultou, por
carta, o programa da Rádio Nacional, de muito sucesso à época, “Seu Criado,
Obrigado!”, que se dispunha a esclarecer as mais diversas dúvidas dos ouvintes
espalhados por esse Brasilzão afora. Dias depois, “Seu Criado” foi obrigado a
reconhecer que, apesar de todo esforço, não conseguira encontrar tal palavra na
língua portuguesa.
Diante
de todos esses fatos, Pedrinho Teixeira não teve dúvidas em procurar o gerente
do SAPS para, enfim, descobrir que sentido tinha a palavra.
Sem
titubear, o gerente lhe disse do alto de sua sapiência:
-
Pedrinho, logo você, um homem culto, dono de uma biblioteca tão grande não sabe
o que significa.
Pedrinho,
humilde, teve de confessar:
-
É... de fato, não sei! Nem eu, nem o “Seu Criado, Obrigado”.
-
Ora, Pedrinho, entisiospético é uma coisa assim meio incrisocrônica!
E
deu-se o diálogo por findo, o gerente soberano em sua sapiência. E
todo o povo de Bom Jesus e adjacências continua, até a presente data, sem saber
que diabos significam essas palavras.
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