17 de junho de 2015

O TROPEIRO

(Para os irmãos Délbio, José Luís e Julinda, meus primos.)


Brincando no terreirão de café, ainda vazio dos grãos, ouço o grito ao longe do Acácio a guiar a tropa de burros da fazenda do meu tio Aurélio. É possível ainda hoje, nos momentos em que certa nostalgia indolor me bate, poder ouvir seus comandos a orientar cada animal na entrada da porteira da Fazenda do Jacó:
- Tchu, tchu, Canário! Volta, Soberbo!
Cada animal sabia seu posto no espaço em frente à tulha, onde Seu Sebastião Seleiro trabalhava o couro, com mãos peritas, na manutenção dos arreios da tropa.
Aliviados do peso das quiçambas abarrotadas de espigas de milho, os animais daí a pouco poderiam comer em sossego sua comida e beber a água cristalina do valão, para aliviar a faina do dia.
Acácio, também um pouco depois, iria descansar, mas antes precisava refrescar o lombo da tropa com baldes d’água, antes de soltá-la no pasto.
Não havia tempo ruim para o tropeiro, apesar da dureza do trabalho. Parecia que o fazia com o prazer inocente daqueles que sabem que vieram à vida a serviço e não a lazer. E, com isto, o fardo parecia mais leve.
Ele morava numa casa simples, porém bem construída pelo meu tio, do outro lado da estrada, com sua mulher Eva e seus três filhos, o primeiro deles, o Cosme, que era um pouco mais novo do que eu por aquele tempo e que também participava, algumas vezes, da brincadeira conosco - Délbio, Zé Luís, Dinda e eu.
Nos sábados à tardinha, já de banho tomado, era comum que ele fosse para a venda do Valter Matinada, irmão do meu tio, a qual ficava cerca de uns trezentos-quatrocentos metros além, após uma curva do caminho, para o lazer miúdo da gente da roça: beber pinga; fumar cigarro de fumo de rolo; comer lascas de carne-seca crua, rodelas de salame, pedaços de chouriço frito, cubinhos de torresmos crocantes, com punhados de farinha de mandioca; contar causos; caçoar uns dos outros e cair em gargalhadas estrepitosas, de parecer que a vida era um constante parque de diversões,
- Varte, põe mais uma dósia aí pra mim!
Era como eles comumente falavam com o vendeiro que, atento a tudo, no movimento intenso do sábado, derramava no copo canelado a cachaça solicitada e continuava a pesar os mantimentos que cada homem deveria levar, num saco branco de aniagem, para a subsistência da família durante a próxima semana.
Antes de sorver o gole da calibrina, davam uma para o santo, engoliam num sorvo rápido e certeiro goela abaixo, a cusparada em seguida para limpar o travo da bebida, no além da porta da venda, e o tira-gosto para acarinhar o paladar rústico desses homens simples. Eh, mundão bão de Deus, sô!
Por vezes, nas noites de inverno, que por aqueles tempos esfriavam muito em Liberdade, sempre havia uma pequena fogueira no espaço de chão batido em frente à venda, à roda da qual continuavam a conversa e as troças uns com os outros, que nunca produziam malquerenças, relembravam seus tempos de moleques soltos por aqueles ermos, grimpando morros, rompendo vargens, varando caminhos, caçando passarinhos, tomando banho de valão. Se a data fosse próxima ao São João, batiam caxambu, cantavam versos paralelísticos de memória antiga a ressoar ainda em meus ouvidos, agora um tanto saturados dos barulhos urbanos:

Na cama de Jesus Cristo
Quantos travesseiros tem?
Oi! na cama de Jesus Cristo
Quantos travesseiros tem?

Menina bonita chegou agora
De Santa Luzia de Carangola.
Oi! menina bonita chegou agora
De Santa Luzia de Carangola.

O meu boi tava chorando
Só porque botei na canga.
Oi! o meu boi tava chorando
Só porque botei na canga.

Quem nunca viu vem ver
Caldeirão sem fundo ferver.
Oi, quem nunca viu vem ver
Caldeirão sem fundo ferver.

E depois, quando as brasas da fogueira principiavam a se tornar carvões, cada qual seguia para o seu lado, alguns em lombo de animais, outros a pé, como Acácio, que voltava sob o céu frio e estrelado da noite, os passos cambaleantes pela quantidade de camulaia acumulada no sangue, a fim dormir o sono dos justos.
Na segunda-feira seguinte, já voltava à lida com os burros, varando estradas e trilhas, indo atrás da colheita da época, para transformar tudo em alimento para a gente da Rua, que é como todos nós chamávamos nossa pequena vila de Carabuçu.
A porteira da fazenda batia atrás do último burro e eu ouvia o grito do Acácio a conduzir a tropa, naquele tempo e ainda hoje, na minha memória auditiva que teima em voltar sempre àquelas paragens da infância:
- Tchu, tchu! Canário! Vamos, Godero! Volta, Soberbo!

Escravo negro conduzindo tropas no Rio Grande do Sul. Aquarela de Jean-Baptiste DeBret, de 1823
(
Imagem em curitiba-parana.net).


Nenhum comentário:

Postar um comentário