Não temos hábito de ouvir música portuguesa. Às vezes, até
sabemos alguma canção antiga, que entrou no cancioneiro nacional há muito. Sobretudo
se fado. Das modernas, pouquíssimas. Salvo, apenas, aquelas que são veiculadas
por novelas. Eu mesmo sou assim. Temos aqui a quase certeza de que o Brasil faz
a melhor música popular do mundo e nos achamos os reis da cocada preta, exceção
feita, tão-somente, à música norte-americana.
Mas temos passado por maus pedaços como ouvintes de rádio e
tevê em termos musicais. Nossa mídia resolveu que ouviremos o pior que se faz
no país, e tome lá uma enxurrada de canções fraquinhas, letras tatibitate,
cantores e cantoras de duvidosa competência e por aí afora, quando não são
ruins pra burro. Todos parecem dispostos a faturar a qualquer preço, sem se
importar em oferecer qualidade. Aliás, boa parte desses que aí estão – tenho
quase certeza – não é capaz de voos mais altos nesse aspecto. Assim
ficamos sem a autêntica manifestação popular em termos musicais, nem temos a
MPB de tão excelente qualidade, que nos fez conhecidos em todos os recantos do
mundo.
Mas qualquer país, tenho a impressão, é mais ou menos assim.
No Brasil é que tudo o que é ruim é muito mais cultuado, sempre em nome da
diversão, do frege, do beijinho no ombro, da boquinha da garrafa, da abaixada
até o chão na coreografia sexual de muitas dessas novas danças.
Portugal, por exemplo, tem um maravilhoso compositor, cantor
e músico que muito pouco conhecemos e que nunca, em tempo algum, ouvimos em
nossas rádios. É ele Pedro Abrunhosa. De sólida formação musical, gravou em
1994 seu primeiro disco, Viagens, com
o grupo Bandemónio, que o acompanharia por alguns anos.
Tenho dele apenas o único cd que vi em terras brasileiras: Momento, de 2002, seu quarto álbum de
músicas inéditas, todas de sua autoria – letra e música. O mais que dele
conheço é via YouTube.
Basicamente as músicas são feitas a partir do piano, têm uma
levada lenta, com letras extremamente bem feitas, melodias interessantes e
inesperadas, cantadas com uma poderosa voz grave, a escandir os versos de forma
marcante. Seu estilo lembra muito o de outro grande artista: o canadense
Leonard Cohen, que fala/canta suas próprias criações.
É impossível ouvi-lo sem prestar atenção. Sua música não é
feita para o consumo imediato, sôfrego, inconsequente, como os brasileiros
estamos sendo levados a ouvir em nossas rádios e tevês. É preciso silêncio e
reflexão. Nada do que Abrunhosa diz em suas letras é gratuito. E elas, as
letras, muitas das vezes, atingem o valor de verdadeiros poemas.
Gostaria que meu leitor atento fosse até a ligação abaixo e
visse/ouvisse um exemplo da maravilhosa música de Pedro Abrunhosa.
Espero que goste como eu.
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Capa do cd Momento (imagem em pt.wikipedia.org). |
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Para ver/ouvir a música, clique na ligação: https://youtu.be/loCDq_Cbygs