9 de maio de 2015

UMA CARTA

(Ao amigo José Luiz Padilha, destinatário da carta, e aos primos Adriano e Bedu.)


Organizando as coisas que foram retiradas de seus cantos, por conta de uma obra em casa, recuperei a cópia de uma carta enviada, nos anos 80, ao meu velho e querido amigo José Luiz Padilha, então morador de Carabuçu, nossa terrinha natal.

À época, escreviam-se cartas. As comunicações ainda não estavam essa maravilha de hoje, com as mídias eletrônicas a facilitarem o contato entre os amigos. Assim, vez em quando, cometia cartas: à família, aos amigos, a uma ou outra menina que havia engatilhado na mira dos olhos e do coração, coisa esta última que não gerou nenhuma consequência – benéfica ou maléfica – na minha vida.

Para a curiosidade dos meus amigos leitores, reproduzo a dita carta aqui, o mais próximo possível de sua conformação gráfica. Ela foi datilografada.

Aí vai.

Olivetti Lettera 22, a máquina em que cometia minhas cartas (imagem em mercadolivre.com.br)

Prezado Padilha,

adriano, bedu e eu comíamos uma rabada com agrião
e batata,
ao som de duas antárticas estupidamente,
quando falamos de você e dessa sua cabeça grandi-
 loquente.
dizíamos, então, que os seus grilos e sonhos
são demais para minha cabeça pequena,
mais preocupada com o se safar dos problemas
                                    do mundo
que com as indagações de ordem metafísico-sentimental do estar-no-mundo e suas consequentes projeções na velhice, essa fatalidade a que estaremos sujeitos caso a bosta do coração que vocifera no peito
não fizer papel miserável antes do final do
                                 primeiro tempo.
nossos duplos filhos, de nós quatro, estão ainda
na preliminar dos dentes-de-leite
e nós, com o preparo físico comprometido,
por incursões erótico-etílico-profissionais
no jogo principal a que assistem impávidos
o leão do imposto de renda
a caderneta de poupança
os juros e a correção monetária
e aquela indefectível certeza de que ainda despertamos sentimentos escusos na mulher do vizinho
e a bunda da rita cadillac rodando na televisão.
não há como pensar.
foi aí que o bedu disse que você tem esse tal medo
de envelhecer.
foi aí que eu disse que o vovô chico albino morreu pobre, esquelético, esclerótico, um espectro de gente, em um bairro qualquer de caxias, que por obrigação
se chama 25 de agosto, já roçando a beira dos noventa anos de idade.
como se, quem vivesse tanto,
essa merda de vida deixasse viver em paz.
foi aí que eu disse que também o zé fábio tem
os grilos altíssimos do receio de ficar velho
e brocha, naturalmente. mas já há muitos anos.
talvez ele tenha mesmo como missão na vida
estar chamando nossa atenção descuidada
para o tobogã irreversível da queda de produção,
de cabelo, de tesão e de vitalidade. aí o inps
para nos reconfortar. que merda é o jair soares!*
o pior, no entanto, é morrer novo, devendo vida,
como quem sai de fininho, sem querer, querendo,
de uma festa em casa de gente pobre, para cujo
banquete se convidassem as iguarias ao invés dos comensais.
o vovô não saiu de fininho. saiu pela porta da
frente, todo quebrado, como que saísse de uma
luta a que sucumbira de modo incontestável.
e na aparência dormente dos mortos antigos que
levam um pouco da ciência de uma vida que ele
mesmo esqueceu de viver nesses últimos anos,
qual o mago da poção miraculosa cuja fórmula põe ao fogo para não cair em mãos de estranhos e criminosos. não direi que lá foi o meu avô, porque simplesmente não há o lá, o onde chegar. muito menos desencantou-se, como afirmou o flávio rangel pela morte do vinícius de morais. que essa vida não é encanto.
simplesmente acabou-se, como se acabam o doce, a bala azedinha, o gosto de pano de guarda-chuva encardido
na boca.
a diferença é que o bicho-homem tem memória, o que dele há de ficar.
a verdade é que temos de glorificar a vida. temos de valorizar a capacidade de resistir
e não a grandeza da batalha final.
os mortos são os desaparecidos.
os outros é que ficam, mesmo perdidos nesse planeta
de ódio e violência.
adriano, bedu e eu estraçalhávamos com a voracidade dos nossos trinta e tais anos aquela rabada de boi, assessorada por goles dourados de antártica, mas comíamos e bebíamos aos que nascem e nasceram ontem. nós vamos descansar para o segundo tempo,
caso não sejamos barrados pelo técnico
em virtude de nosso baixo rendimento.
os dentes-de-leite, fazendo a partida preliminar,
ainda tocam a bola de primeira,
batem corner sem a malícia dos anos
e, principalmente, ficam na barreira
sem a preocupação de proteger os culhões contra o chute do time contendor.
e nós, de barriga cheia, os olhos meio repuxados
pela claridade estonteante da luz no fim do túnel, rimos superiores à incapacidade, inconsequência
e imaturidade
dessas pobres crianças que pusemos no mundo
não por um desígnio dos céus
nem por um prazer egoístico de procriar
mas sobretudo pela certeza de que eles
serão melhores
              maiores
                     mais bonitos
                                 mais amantes
que nós.
pela estranha e compreensível esperança humana
de que o espetáculo dantesco que vivemos
não pode – não deve – não será passado a todas
essas crianças que por aí choram
                           sofre
                           buscam
                           riem
e têm necessariamente de encontrar A PAZ.
ou não poderei morrer velho, esquelético e esclerótico, todo quebrado, pela porta da frente, sem a vergonha da derrota, ainda que derrotado, estampada no rosto.
que vivam os vivos!
                            um abração do
                               SClair
                                                                  3/6/82


*desculpe-me o palavrão!

2 comentários:

  1. O negócio é vez por outra, remexer nos móveis da casa. Quem sabe não encontremos um pedacinho da gente vivinho pra se gostar.

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    1. Mas não é, Paulo Laurindo! É isso mesmo o que acontece.

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