31 de março de 2026

EU TE AMAREI

 (Para minha netinha Maria, autora do autorretrato que ilustra o poema. )


Eu te amarei
Até que a luz se apague
No quarto 
Na festa
Na cidade
No universo. 
Eu te amarei
Em palavra
Prosa e verso
Em verbo e carne
Enquanto a minha carne
Sustentar os sonhos
Que sonho por ti.
Eu te amarei
Por todo o tempo
Antes
Durante
E depois
Do que já foi e será
Um dia
E até o fim, 
Maria.

 


Maria Linhares, Autorretrato, 2026.

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PS: Quando enviou seu autorretrato, Maria passou as mensagens abaixo:
[21:20, 30/03/2026] Vovô eu dei o meu melhor ok
[21:21, 30/03/2026] Mas acho que podia ter caprichado mais quem sabe eu faço outro ,um beijo te amo tchau
[21:22, 30/03/2026] A e vovô vc gostou da minha assinatura????????

21 de março de 2026

O CURIÓ (Conto ligeiro)

Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.

As manhãs de domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura. Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.

Murchou tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.

Num dia de muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.


Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)


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PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.

14 de março de 2026

CANTO DE GUERRA

dilacerem-se
estraçalhem-se
devorem-se por lá
ministros presidentes aiatolás
mas me deixem por aqui
tocando meu barco soprado a sonho
e minha vida movida a desespero

engulam-se
destruam-se
eliminem-se
idiotas eternos da guerra
chacais abjetos da violência
mas evitem-me qualquer parcela em sua luta
livrem minha cara de sua saliva irada
meu sangue não tingirá suas mãos despóticas
nem meus descompassos marcharão nos exércitos
dos que destroem homens
e continuam impunes

morram todos vocês
para que os povos enfim sobrevivam
do que lhes sobrar desses tempos de estupidez

                                                        [e ódio


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Nota: Este poema é do inícios dos anos 80 e está publicado em meu livro Ucronia, pelo Clube de Autores. Trago-o aqui por nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre os que promovem guerras.