Há alguns dias, vi uma mulata dessas de fazer português errar no
troco, aguardando a abertura da agência bancária próxima ao prédio onde moro.
Eram umas nove e pouco da manhã de uma segunda-feira clara de ofuscar os olhos.
Lá estava ela: linda, alta, pernuda, com um shortinho jeans apertado
ao corpo, óculos escuros, cabelos curtos bem penteados.
Quando voltei, o banco ainda fechado, permanecia ela lá, dando
toques no cabelo, que caía em franja lateral sobre os óculos.
Não se vê uma mulata dessas sem pensar besteiras. Fiquei
imaginando o banzé que ela iria fazer com o gerente ou algum outro funcionário,
que lhe teria prometido mundos e fundos e desaparecido logo depois de tudo.
Agora ela estava ali para botar os pingos nos is. Aguardava a abertura do
banco. Eu, como passante, levei esses pensamentos embora. Podia ser uma simples
cliente. Nem tão simples assim também...
Por causa de histórias como essas, é que me enredei com uma. Lá
pela década de 70, iniciando a carreira do magistério, fui encantando por uma
que subia sempre as escadas da faculdade com aquele jeito inzoneiro da canção
de Ari Barroso. Não sopesei na ocasião o poder que as mulatas tinham e resolvi
arriscar. Resultado: hoje somos até avós, após quase quarenta anos daquela
temeridade.
A mulata é tão importante na cultura nacional que há até a
especialidade de mulatólogo, criada pelo saudoso botafoguense Oswaldo
Sargentelli. Mas, antes dele, Ataulfo Alves cantava os estragos que as mulatas
fazem no vacilante coração dos mortais. Di Cavalcanti é outro que não me deixa
mentir, com as mulatas que retratou tão bem em seus quadros. Não são só esses,
mas esses são os expoentes, os especialistas.
Mas as mulatas também nos iludem, nos fazem de bobo. Uma outra,
aluna minha do curso de Letras, tinha um cabelo belíssimo, amarrado num
rabo-de-cavalo lateral, como uma Brigitte Bardot dos trópicos. Comentei com
minha mulher sobre o cabelo de tal aluna. Então ela me pediu que lhe
perguntasse qual o tratamento dado à cabeleira. Descaradamente ela me
respondeu: é natural, não faço nada! Para vocês verem como até as mulatas
mentem sem pudor nenhum.
Na fila de pagamento do funcionalismo estadual através do antigo
BANERJ, quando havia BANERJ - as filas estão aí até hoje -, estava eu lá pelo meio, umas quinze
pessoas à minha frente, quando adentrou soberana e perfumada uma poderosa
mulata do alto do seu metro e oitenta, com tudo de fábrica. Sorriu faceira com
o canto da boca, cheia de dentes brancos e brilhantes, dizendo que só falaria
com o caixa rapidamente. Falou, resolveu seus problemas e, ao sair, agradeceu
com um simpático “agradecida”, sem que ninguém, homem ou mulher, tivesse
qualquer tipo de reação. Minto: acho que os homens babaram.
Assim é melhor se precaver quando uma mulata portentosa vier em
sua direção. Primeiro, não lhe prometa nada, senão estará encalacrado. Mas se
prometer, malandro, aí você terá de cumprir. Ou não me chamo Saint-Clair.
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A linda atriz Sheron Menezes (em pureblack.com.br). |