1 de março de 2014

CARNAVAL NO ESCURO


Senti que minha bengala havia tocado numa pessoa e pedi desculpas. Mas não adiantou. Uma voz de moça na flor da idade, como dizíamos nos meus bons tempos, soou ríspida:

- Você não se enxerga, não, seu velho?

Pelo toque da bengala, senti que era uma moça bem fornida em carnes. Devo ter tocado seu bumbum malhado – deu para sentir. Pela voz, também pude formar, no meu cérebro, uma figura bonita, como há muito deixei de ver. Era uma voz resoluta, firme, mas com timbre de menina ainda mal saída da puberdade.

- De fato, não me enxergo, senhorita: sou cego. Queira me perdoar. -  disse-lhe com o jeito mais macio possível, a fim de que ela não se exasperasse ainda mais.

Era carnaval e, por consequência, aqui na cidade, muitas coisas são permitidas, sem que provoquem reações violentas. Eu apenas queria atravessar a Avenida por onde – ouvia – desfilavam blocos de sujo, coisas assim um tanto desorganizadas, caóticas, pelo que se percebia do canto e da batida dos tambores. Talvez ela estivesse passando justo no momento em que levantei a bengala para encontrar o caminho entre os que se aglomeravam à beira da calçada.

- Mil perdões, senhor, não percebi que não enxergava. É que há muitos engraçadinhos no carnaval, e o senhor deve saber como são: querem se aproveitar de tudo.

E pegou na minha mão para me ajudar a atravessar para o outro lado. Sua mão estava úmida de suor e quente, naturalmente produto da folia que desfrutava, e tinha um toque sedoso. Ela se aproximou um pouco mais de mim e pude sentir também a quentura que exalava do seu corpo. Misturado ao suor, um cheiro doce de perfume. Eu sou cego, mas não sou insensível. Perguntei-lhe se ela estava desfilando, ao que me respondeu afirmativamente. Então não precisa me ajudar, disse-lhe. Pode ir brincar seu carnaval, que sigo em frente. Já sou cego há muitos anos e me habituei a andar pelas ruas cheias de gente. Estou indo para a Cinelândia, para o show de marchinhas. São músicas do meu tempo. Ela, então, quis saber se eu gostava de carnaval. Sempre gostei, respondi, e entabulamos uma conversa agradável, durante o trajeto – ela me segurando pela mão, porquanto eu havia aposentado a bengala sob meu braço direito. Quis saber se a avenida estava bonita, bem ornamentada, e ela reclamou do descaso da prefeitura nos últimos anos, de que não enfeitava a rua com uma decoração de bom gosto. Tudo parecia feito de refugo e às pressas, mas a alegria continuava a mesma, segundo ela. O carnaval acontecerá a despeito de tudo, afirmou sorrindo.

Quando nos aproximamos do Teatro Municipal, ela me perguntou em que lugar eu pretendia ficar. Pedi-lhe que me deixasse sobre o calçadão da Praça Floriano, em algum espaço menos cheio de pessoas. Alguns passos mais adiante, ela me disse que ali estava bom, que era possível ouvir muito bem, sem que o som incomodasse. E quis saber mesmo se eu estava bem, se ela poderia ir embora, continuar a brincadeira. Respondi-lhe que sim, que estava tudo muito bem, que meu carnaval havia sido maravilhoso pelo encontro acidental com ela, pois me havia feito recuar no tempo em que também por ali saía, fantasiado de Arlequim, cantando Mamãe eu quero. Percebi que ela sorriu, pelo hálito de cerveja que lhe saía da boca. Então ela perguntou se me podia beijar no rosto. Eu disse que sim, que ficaria muito feliz com seu gesto. Ela me beijou calorosa e terna. Um comichão percorreu meu corpo de alto a baixo, e ela se despediu jovial e alegre, como são as meninas-moças do Rio de Janeiro.

- Tchau!

Nem bem saíra, senti que ela se voltou, para perguntar:

- Desculpe, qual é o seu nome?

- Felicidade! – respondi com um sorriso – E o seu? – indaguei em seguida.

Ela disse não acreditar, já a alguns passos adiante. E falou seu nome. Não mais a ouvi. O som da marchinha cantada por uma das antigas cantoras do rádio encobriu sua fala e sua risada gostosa.


Eu fiquei só por ali, com minha bengala e, como disse Drummond, com o sentimento do mundo. O meu carnaval estava iluminado!

Pablo Picasso, Paul vestido de Arlequim (em triplov.com).

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