7 de março de 2014

NÃO SE ACEITA DEVOLUÇÃO DE MERCADORIA COM DEFEITO

Perci começou a ciscar fora do casamento, sem que ninguém em casa se desse conta.

A história havia começado há alguns meses com uma antiga aluna das aulas de educação física, uma morena de porte esbelto, longos cabelos encaracolados, olhos de ressaca que lembravam Capitu.

Foi uma coisa assim mais ou menos irresistível. Ele já entrado em anos, como se dizia; ela, na flor da idade.

Procurou, de todas as formas, dissimular as escapadelas para se encontrar com a morena. Mulher e filhas nem poderiam suspeitar que Perci andasse pulando a cerca matrimonial.

Mas, como dizia o estadista norte-americano, não se consegue enganar todos por muito tempo e a traição acabou na boca do povinho miúdo das fofocas e dos disse-me-disse. Daí para o ouvido de Anja, a esposa, foi um lance de escada.

Em casa, o tempo virou, com raios e trovões, Perci não conseguindo mais esconder nada, porque os detalhes falavam por si. Encostado à parede pela mulher e as filhas, chorou, arrependeu-se e prometeu emendar-se, tomar tenência, dedicar-se mais à família. A mulher até lembrou-lhe a falta de religião, que naturalmente contribuíra para aquele passo em falso. Ameaçou, inclusive, ir ter dois dedos de prosa com a zinha, para botar tudo em pratos limpos, coisa que Perci descartou de pronto, tomasse juízo a Anja e não fosse se rebaixar, arriscando-se a um confronto, que ele não queria ver nem no final dos tempos. As filhas aconselharam a mãe a não tomar tal atitude, para não armar barraco, que talvez fosse mais vantajoso para a zinha do que para ela, uma mulher de respeito, mãe de família, etc. e tal. Anja acatou a ponderação das filhas, mas exigiu nova postura do marido daí em diante.

Perci, envergonhado por ser pego com a boca na botija, passou a chegar mais cedo a casa, a jantar com a família, agora mais que unida. Ponderou com a mulher que a falta de religião pudesse, realmente, ser a falta de freio de sua vida e disse que estava procurando um caminho, lendo umas coisas, assuntando informações.

Duas semanas depois, a família reunida em volta da mesa, Perci comunicou que, pesadas e medidas todas as pesquisas, se decidira por entrar para o espiritismo de caxambu e terreiro, porque se sentia atraído pela força dos ancestrais africanos que presidiam a vida dos seus devotos. A mulher, por ser cristã, estranhou muito a escolha, tentou argumentar, mas acabou concordando, pois vislumbrava nessa nova postura uma regra de conduta. Toda religião, pensava ela, tem por base primeira uma ética de conduta da vida do crente.

Perci começou a frequentar o terreiro às sextas-feiras, passou a usar guias e roupas brancas em determinadas situações. Falou mesmo com a mulher que estava pensando em fazer cabeça na Bahia, num terreiro afamado, que exigia cerca de quinze dias de reclusão.

Ana, a princípio, se opôs a isso, julgando ser precipitada a decisão do marido. Ele, no entanto, explicou-lhe que era exigência do santo de cabeça. Foi, então, para a Bahia de todos os santos, onde ficou por cerca de vinte dias. Notícias só ao chegar e ao sair. No interregno, estava em obrigação no roncó, incomunicável com gente externa.

A dedicação de Perci, assim que voltou da cerimônia, passou a ser quase monástica, com perdão da má palavra no caso. Até que um dia comunicou à família que deveria permanecer no terreiro da tarde de sexta-feira até o meio-dia do sábado, pois se tornara ajudante da mãe de santo, a velha ialorixá Incisse, sua guia espiritual desde a chegada ao centro.

Foi levando a vida assim, a mulher e as filhas conformadas com a orientação religiosa do pai, a cada dia mais devotado às obrigações.

Numa dessas sextas-feiras, aconteceu de Perci ter um desconforto físico e ser levado às pressas para o hospital São Vicente de Paulo. Era um infarto do miocárdio de grau mediano, que o fez permanecer na UTI por uns dias.

A família, imediatamente avisada do problema, correu ao hospital. Lá foi informada da gravidade da situação, dos procedimentos adotados e das providências a se tomarem. Foi dito à esposa que ele fora levado ao hospital por um taxista, e lá deixado para atendimento. Anja procurou, então, nos pertences do marido que o hospital lhe entregara o telefone da mãe de santo, para saber detalhes do que ocorrera, se a incorporação o fizera beber muita pinga e coisas que tal. Para sua surpresa, a mãe de santo outra não era senão a tal morena de olhos de Capitu, a mesma zinha com quem ele tivera o caso, nunca jamais encerrado em tempo algum, e com a qual fora, inclusive, passar uma temporada na Costa do Sauípe. E o terreiro a exigir sua presença era o corpo morno dela.

Sem alarde, sem escândalos, chamou as filhas e comunicou tudo o que descobrira. Decidida, procurou advogado, que providenciou a petição de divórcio, com todas as formalidades legais atendidas.

No hospital, informou-se com os médicos a data da alta e, à saída do farsante, ainda no saguão de entrada, estendeu-lhe a petição para que também a assinasse, a zinha ao lado dele, já que estavam todas as cartas postas na mesa. Ainda atordoado pela pancada recebida, assinou a papelada, sem tempo de pedir perdão, sem tempo de se explicar novamente.

Uma das filhas, com a mágoa que só as filhas podem ter de um pai traidor, virou-se para a zinha e lhe disse com todos os efes e erres:

- Cuide bem do meu pai, mas não aceitamos devolução.

Carolus Duran, O convalescente, Museu D'Orsay (em ilgiornaledellarte.com)


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