Estivemos no
último sábado em Miracema, para o sepultamento do nosso amigo Rogério de Poly.
Rogério foi, dito assim simplesmente, um dos mais destacados Dzi Croquettes, a
trupe de bailarinos-atores que nos idos de 70 subverteu a cena carioca de
teatro, com um espetáculo inusitado, inventivo, irreverente, provocativo,
transgressor e, por que não dizer, tendo em vista a época, subversivo. E
Rogério se destacava do grupo visualmente por seu porte de corpo e seu rosto
bonitos, seus longos cabelos.
Depois que
os Dzi Croquettes ganharam o público brasileiro, eles foram aventurar-se na
Europa, sobretudo na França, onde Rogério acabou ficando como vários deles,
inclusive seu irmão Reginaldo, também membro do elenco.
Conheci
Rogério por ocasião de uma das apresentações do grupo no Rio de Janeiro, no
início dos 70. Minha mulher já era amiga dos irmãos em Miracema, onde nasceram.
Depois do espetáculo, saímos para comemorar o reencontro e o sucesso estrondoso
que faziam, a despeito de todo o cuidado e da obliteração da censura da
ditadura militar.
Passaram-se
os anos até que Jane e eu fomos pela primeira vez a Paris. Lá fomos recebidos
por Rogério que, morador da cidade há duas décadas, nos serviu como um
anfitrião luxuoso, nos levando a conhecer a cidade como os seus habitantes a
conhecem, além de alguns pontos de interesse que tínhamos solicitado a ele.
Lembro-me, por exemplo, que nos disse que não voltaria pela enésima vez ao
Louvre, porque, se encontrasse a Mona Lisa novamente, daria uns tapas na cara
dela, de tão cheio da Gioconda. Rimos muito.
Embora já
adaptado à cidade, onde chegou sem dizer uma só palavra da língua de
Robespierre, confessou-nos que tinha horror à comida francesa cheia de manteiga
e creme de leite. E nos levou para almoçar num restaurante japonês próximo à
igreja de São Pedro e São Paulo, no Marais, bairro em que havia morado. Fomos
também conhecer seu antigo endereço, na Rue des Rosiers, em cuja caixinha de
correios ainda estava anotado seu nome. No périplo por esse tradicional bairro
de Paris, conhecemos a loja de chás Mariage Frères de propriedade de um amigo dele,
onde compramos alguns chás, a bela catedral Batista e uma loja de roupas para
gays de outro amigo. Aliás, o Marais era tido como o bairro gay de
Paris.
Noutro dia,
indo em direção à igreja da Medalha Milagrosa – pedido de Jane a ele –
atravessou a rua na faixa de pedestre tão logo chegamos à calçada. Jane e eu
ficamos aguardando um carro que vinha a uns cinquenta metros, ao que ele disse:
- Podem
atravessar: motorista francês não é louco de atropelar vocês sobre a faixa.
Jane,
esperta e desconfiada, moradora de Niterói, lhe disse:
- E se for
um brasileiro que alugou o carro a dirigir?
E foi outra
sessão de risos. Era melhor prevenir.
Noutro dia,
fomos até o cemitério de Montparnasse, onde está sepultado seu irmão Reginaldo,
assassinado brutalmente na capital francesa. Jane queria ver o túmulo do seu
amigo de infância. Rogério, já conhecido do porteiro do cemitério, repetiu o
ritual em honra de seu irmão: limpou o túmulo; varreu no entorno; levou flores,
joias, fotos; levou o gravador com músicas de que ele gostava e, ao final dos
cuidados, fez uma prece para o irmão. O túmulo do Reginaldo fica próximo ao de
Baudelaire, talvez não sem alguma motivação: ambos em suas épocas chocaram a
sociedade com uma postura transgressora.
Um pouco
antes de voltarmos ao Brasil, ele nos ofereceu um jantar frio – não havia fogão
no pequeno espaço onde morava – cheio de paladares, acompanhado por vinho
branco nacional. Armou a mesa na pequena sacada e nos sentamos para comer. O ar
da noite estava suave, o papo corria descontraído e alegre. Daí a pouco,
percebi, de fundo, o barulho de água corrente e trilos de pássaros.
Perguntei de onde vinha tal barulho, e ele me mostrou no portal, atrás de mim,
um pequeno gravador dependurado, que reproduzia os sons dos ribeirões e dos
pássaros de Miracema, que ele gravara em uma de suas idas à cidade natal, a fim
de que matasse um pouco da saudade e reforçasse suas raízes.
- Ainda
volto para lá, compro um sítio e vou viver tranquilo.
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Rogério e Jane, durante o jantar na casa dele. |
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Jane e eu durante o jantar (foto feita pelo Rogério). |
Uma das confissões
que me fez, supondo que não o conhecesse tão bem quanto a Jane, foi
característica de sua personalidade:
-
Saint-Clair, sou como um velho elepê: às vezes sou lado A, às vezes sou lado B.
Dependendo da fase, gosto de meninos e de meninas.
No ano
seguinte, meu filho Pedro e eu fomos ver a Copa do Mundo da França e, mais uma
vez, encontramos Rogério, para quem levávamos encomendas. Ele estava no afã de
decorar um barco no Rio Sena, que serviria de bar e restaurante durante o evento,
com espetáculos musicais e de dança de que participaria.
Numa das
vezes em que veio a Miracema pelas festas de fim de ano, contou-me que tinha
trazido uma garrafa de armagnac e nos convidou para um trago. Disse-lhe que
gostava muito da bebida, e ele, com seu costumeiro sorriso debochado, me disse:
- Você sabe
apreciar as coisas boas!
Anos depois,
após ter sofrido um atropelamento por um ônibus urbano enquanto pedalava pelas
ruas parisienses, Rogério foi trazido por seu irmão mais novo, Ronaldo, para
Miracema, a fim de que tivesse os cuidados necessários de sua família. Sua fase
de glamour e transgressões havia passado, e aquele belo homem andrógino, que
agradava tanto a homens quanto a mulheres, tinha perdido seu brilho, em função
da saúde abalada por alguns maus físicos e psíquicos. Sempre que íamos a
Miracema, continuamos a encontrá-lo, a levar para ele lembranças em forma de
guloseimas diet, de que tanto gostava. Não tanto pelo paladar, mas, sobretudo,
gostava da atenção que a Jane lhe dedicava.
Sábado
último, às seis horas da manhã, depois de uma semana internado, nosso amigo
Rogério de Poly, bailarino, ator, professor de dança, miracemense e
transgressor assumido, faleceu como acontece a qualquer ser humano. Mas deixa
gravada na história das artes cênicas do Brasil um papel que dificilmente será
apagado, não importa o tempo que o calendário debulhar, nem o sussurro dolorido das
águas dos ribeirões de sua terra natal.
Descanse em
paz, Rogério!
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Jane e Rogério na Igreja da Medalha Milagrosa, em Paris, em 1997. |