5 de fevereiro de 2013

VOCÊ...

Gaturama ( em inea.rj.gov.br. Publicada em 4/10/2010. Fonte da foto: http://ednene.files.wordpress.com/2008/12/gaturamo.jpg)

Você tem um gaturama*. Trata do bichinho com todo o cuidado. Dá mamão para ele comer. Penso que os gaturamas gostem de mamão. Troca a mísera aguinha dele todo santo dia, porque ele se banha nela e faz uma sujeira danada. Retira o cocô – gaturama que come mamão faz mais cocô que o normal – do fundo da gaiola. Limpa tudo. Sopra as cascas da sementinha que lhe serve de ração (Havia-me esquecido de dizer que também há um coxinho pequenino pendurado nas palhetas, onde se colocam os grãozinhos minúsculos para o gaturama.) e que o passarinho espalha com seu bico por todo o lado. O gaturama é cantador, tem as cores mais bonitas que você já viu nessa espécie de pássaro. Saltita nos poleiros quase o dia inteiro, parando apenas para descansar, dormir e meditar. Você mesmo já ficou observando e notou que o gaturama parece meditar de vez em quando. Não sabe muito bem sobre o que pensa aquela cabecinha desmiolada. Quem saltita alegre assim o dia inteiro, mesmo estando engaiolado, não pode ter o juízo perfeito. O gaturama, quando canta dolentemente, parece estar com saudades de algo ou de alguém. Talvez de seu antigo ninho no meio do mato, de sua mãe ou de uma namorada perdida entre as folhagens das árvores. E o canto é quase de cortar o coração de tão bonito. Aí, no dia seguinte de manhã, você encontra o gaturama morto, sendo devorado por malditas formigas.

 oxoxoxoxo
Você tem apenas nove anos e já persegue sua coleguinha de escola por todos os lados durante o recreio. Durante as aulas, como não pode sentar-se ao seu lado, coloca-se estrategicamente num lugar de onde possa vê-la, enquanto a professora passa no quadro o problema de matemática, em que quer saber como dividir tantas maçãs por tantas crianças. Por você, daria todas as maçãs para a moreninha, de pelos nos braços, cabelos negros escorridos sobre o sorriso branco. Você não tem ouvidos para a matemática, nem para o português, nem para o diabo a quatro. Só fica pensando nela. A professora não nota, porque seus óculos são muito fortes e ela não percebe muita coisa além da terceira fileira. Dali para trás, tudo parece meio embaçado para ela. Aí você desenha corações no caderno em vez de maçãs. E fica com ar sonhador. Então planeja no recreio aproximar-se dela e perguntar se ela quer ir à sua casa chupar laranjas no pomar. Ela está na fila da merenda. Você nota que logo atrás dela está o Pedrinho, aquele seu amigo nem tanto amigo assim, porque já começou a mexer nos cabelos dela e, pior, ela parece estar gostando. Você tem ganas de sair da fila e ir até lá dar um empurrão nele, mas não tem coragem. É preciso ser pacífico e observar a ordem de chegada. A seguir você percebe que ela dá para o Pedrinho o sorriso mais bonito de todo o grupo escolar e que você sempre imaginou que seria somente seu. Então a merenda já não tem mais graça. E você sai da fila e vai jogar pedra nos passarinhos que frequentam as árvores do pátio da escola. Quem mandou que eles ficassem cantando as dores de infantis amores?
  oxoxoxoxo

Você comprou um carro usado daquele vizinho que vivia azarando sua irmã, porque ele, para parecer bonzinho, fez um preço camarada. Você até praticou um ato condenável: pediu que sua irmã jogasse charme para ele, enquanto entabulava a negociação. O vizinho nunca foi flor que se cheirasse. Ou seria apenas inveja pelo carro envenenado, que cantava pneus sempre que ele saía do bairro? Mas você não tinha dinheiro para comprar um carro novo e viu o anúncio colado no vidro. Quando a gente tem vinte e poucos anos, sem muito dinheiro, qualquer carro parece uma limusine, um bólido. E você já se imaginava também cantando pneu, queimando asfalto, impressionando a garota do 43, em frente à lan-house. Ela sempre tinha um maravilhoso ar de banho recém-tomado. E, nas vezes em que passou por você, recendia um gostoso perfume de sabonete de boa qualidade. Por ela, dispôs-se a pagar o preço que o cara pedia, depois que sua irmã o deixasse mais indefeso que lutador nocauteado. Mas você não conhece carro – e muito menos o cara – e nem sabe dirigir direito. Pagou a entrada e combinou de, durante outros seis meses, completar o restante do preço. Você nem bem colocou gasolina no carango, o bicho empacou antes de queimar asfalto, e foi parar no mecânico. Até arame havia no motor do carro, engatilhando alguma coisa que você desconhece. E não adiantou reclamar com ele. o cara já era namorado firme de sua irmã, que chamou você de mané, que não sabe nem comprar um carro, bem feito para deixar de ser bobo. E você ainda tinha de ver sua irmã nas mãos miseráveis daquele cara. Oh, dor!
 oxoxoxoxo
Você, toda manhã, diz para sua mãe, após acordar tarde, que sairá à rua para procurar emprego. Sua mãe, como todas as demais mães do planeta, acredita neste caô. E você toma um banho, pede um dinheirinho a ela – inclusive para almoçar no centro da cidade, porque, talvez, perca muito tempo nessa procura – e sai de casa tentando assobiar uma canção do Rappa inassobiável – você não conhece a palavra, mas a criou mentalmente –, parecendo decido a conquistar o mundo. Sua mãe ainda vê pela janela você dobrar a esquina e pede à santa de devoção – Santa Terezinha do Menino Jesus – que o oriente. Você chega ao centro, ali pela Praça Tiradentes, e vai direto para o salão de sinuca, que fica no segundo andar de um prédio histórico. Só gosta de jogar a dinheiro. Bem que não aposte muito, tudo asim minguado. E consegue ganhar de alguns patos, porque se finge de bobo e faz negaças com o taco, como se nem o soubesse segurar. Até que um dia você encontra um cara tipo Carne-Seca (Lembra dele?) e se dá tão mal e toma uma coça tão grande e se sente tão desnorteado, que aceita o emprego de auxiliar de balcão naquela lanchonete de frente para a praça que, alguns dias depois, explode quando você chegava para o segundo dia de trabalho. À noite, em casa, ao ver o noticiário, ainda diz para a mãe que poderia estar morto numa hora dessas, viu mamãe? Esse negócio de trabalho é muito perigoso, mãezinha! Melhor jogar sinuca, viu! E a pobre mulher ainda acredita em você e lhe dá conselhos e mais algum dinheirinho, para que vá procurar outro emprego, desta vez em outra praça diferente. Talvez no Lido, diante do mar, no meio daquele mundão de biquínis minúsculos, pernas roliças e bundas ensolaradas, que deixam qualquer um desnorteado. Eh, vida boa!
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* Forma de uso preferencial da palavra em minha terra natal. A forma dicionarizada é gaturamo.

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