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Van Gogh, O par de sapatos (em pensaacabeca.blogspot.com). |
Vivia na guaxa, na zona do meretrício, na margem
direita do rio. Tinha até amante. Toda noite passava por lá para molhar o
ganso. A mulher mesmo, a esposa de papel passado, mãe dos filhos, já não
prestava para nada: gorda como porca cevada. Servia, isso sim, para brigar com
ele, aporrinhar seu juízo e, vez ou outra, descer-lhe aquele braço balofo no meio da
cara.
Também pudera: ele pequeno, magrelo, minguado e,
sobretudo, homem de muita paz, diga-se de passagem! A não ser que tivesse de
dar, salvo melhor juízo, data venia, um tiro nela. Isto, nem
pensar! Assim, era melhor mesmo, de vez em quando, levar uns cacetes. Tinha lá
também suas compensações.
Por causa desta vida de zona, com amante e tudo,
fora exonerado do cargo de promotor de justiça ad hoc da
comarca. Muito desclassificante tal comportamento em comarca do interior norte
do estado. Está bem, conformou-se! Sua banca de advogado dava para o sustento
da casa e da vida desregrada, o que era coisa passada em julgado.
A esposa, no entanto, nem sonhava com suas
peripécias. Por isso é que, numa manhãzinha de segunda-feira, após uma noitada
de esbórnia, estava ele chegando a casa com todo o cuidado para não acordá-la.
Sutil como gato, sentou-se na cama, com o indefectível terno, e começou a
desamarrar os sapatos.
Um movimento um tanto mais brusco, no entanto,
acordou a mulher, que de imediato queria saber o que estava acontecendo. Ele,
para não começar a semana levando safanões e contravapores, voltou a amarrar os
sapatos, dizendo que tinha assunto urgente para tratar com cliente no Arraial dos
Cabritos, no Arrebenta Rabicho, em Sacramento, sei lá.
Ajeitou o nó da gravata, passou a mão no paletó
tresnoitado e saiu pela Praça Governador Portela, passo apressado, os olhos
ardendo como brasa, sem direito de tirar um ronquinho em sua própria cama, em
sua própria casa. E ia ter de tomar o café da manhã no bar do Salim, seu
patrício.
Que ele podia ser tudo na vida, menos bobo!