6 de setembro de 2013

RETOCANDO O COLESTEROL


Estive em Tiradentes, neste último fim de semana, retocando meu colesterol.

Vou sempre lá com a Jane e amigos. Desta vez, em petit comité, com Rogério e Laura. Mas já fomos em bando de mais de vinte amigos. Nunca há erro. Nunca há deslizes ou equívocos, e cada vez é sempre inusitada.

Tiradentes deve ser o meu destino preferido de viagem.  Até mais que Paris, porque mais acessível.

Já disse alhures que devo ter uma alma colonial, inconfidente; mineira, enfim. Ou não há outra explicação para esta identidade tão grande. Mesmo para mim que não acredito em almas. Deste ou do outro mundo. Mas é que há uma sintonia fina, em HD, sei lá, com a cidade. E, reparem, não tenho o mínimo interesse em morar lá: aquelas pedras do calçamento destruiriam o que ainda sobra de sadio em meus joelhos, já tão propensos à artrose.

Mas vou lá para retocar meu colesterol. Que meu endocrinologista não me leia! Contudo continuo tomando a droga que ele prescreve e entro de sola - ou melhor, caio de boca - em torresmos, costelinhas, lombinhos, linguiças, tutus, feijões tropeiros, movidos a cerveja e pinga. Que ninguém é de ferro! E, à noite, há libações enológicas de muito bom gosto, dentro dos limites que a economia nos impõe. Porque, se pobres ou minguados de pecúnia, somos soberbos em bom gosto.

A vida sem colesterol deve ser muito sem graça. Desde que nasci, no interior do Rio de Janeiro – em Carabuçu, para ser mais preciso –, ando de braços com o colesterol. Lá somos – ou éramos, pelo menos – criados à base de carne de porco e seus embutidos magníficos, o chouriço e a linguiça no topo da lista. Ainda hoje, em Bom Jesus do Norte, onde mora, minha mãe mantém nacos de porco mergulhados em gordura. Nunca falta carne numa emergência.

Aí vem a ciência médica e nos exige exames disso e daquilo, vampirismo em sangue alheio, e olha lá a taxa de colesterol gritando contra os abusos de dezenas de anos e um sedentarismo confortável. A gente se assusta. Eu, sem querer afrontar demais o progresso da ciência, me resigno a cuidar das (mal)ditas taxas, a fim de não sofrer um entupimento nas vias sanguíneas e fechar o paletó antes do tempo.

Entretanto não abro mão dos prazeres que aprendi a cultivar desde a mais tenra idade, quando era testemunha da matança de porco empreendida por minha saudosa avó Maína ou por minha tia Alda, que ainda está entre nós e não me deixa mentir.

Devo confessar que não tinha pena do bichinho, pelo muito de delícia que ele nos proporcionava. Ainda hoje também não tenho. Sobretudo quando se vai a Minas Gerais, onde o porco é o rei da culinária.

E em Tiradentes, no Bar do Celso, por exemplo, local a que nunca deixamos de ir, todas as vezes que chegamos à cidade, entramos na orgia gastronômica tão mineira, tão brasileira e tão carregada no colesterol. Mas quem há de resistir, tendo essa minha história gourmand, esse pedigree caipira que come carne sem constrangimentos. Não porque não tenha pena do bichinho, mas porque o ser humano só come outro ser vivo, como a couve, por exemplo, tão esquecida nesses argumentos politicamente corretos.

Voltei com o colesterol lubrificado. E a alma mineira – se é que ela exista – retemperada. No alho, na cebola, na pimenta-do-reino e no alecrim.
 
Imagem em gastronomirian.blogspot.com.br.

(PS: Em Miracema, utilizando o modem da Vivo, é impossível conexão decente com a Internet. Por isso, esta postagem vai sem ilustração. Tão logo seja possível, ela aqui estará.
PS2: Incluí a imagem, como podem ver aí.) 

2 comentários:

  1. Saboreei cada paragrafo e ainda fiquei com água na boca.
    Ah, Minas dos meus "brasis": as palavras do poeta, os quitutes, o vinho e a mulher amada - não necessariamente nessa ordem.

    ResponderExcluir
  2. Tenho que ir a Tiradentes, enquanto as minhas pernas aguentam as pedras da calçada e enquanto as análises não assustam o médico...
    Fiquei com água na boca!

    ResponderExcluir