Definitivamente esta quarentena não está fazendo bem a
ninguém.
Marido e mulher, cada um sentado em uma ponta do sofá,
acompanham o telejornal da noite. Ela, por dizer que tem atenção múltipla, essa
coisa que só mulher garante que tem, também futuca suas redes sociais ao
celular, enquanto afirma que também acompanha o noticiário. O homem jamais
saberá se é verdade, uma vez que morre de pavor de que isso seja realmente
possível: um ser humano ser capaz de prestar atenção a duas coisas distintas ao
mesmo tempo.
Num dos intervalos, o marido se levanta e começa a sair
da sala. A mulher, de imediato, lhe pergunta:
- Onde está indo?
Aqui é preciso observar que, antes da pandemia, tal
pergunta só ocorria no instante em que o marido sorrateiramente desferrolhava a
porta da casa, na intenção de ir ao botequim beber umas e outras e confraternizar
com qualquer um que estivesse com o umbigo encostado ao balcão – o Botequim
Chalé está logo ali embaixo, com suas torneiras de chope a convidar quem se aproxima.
Durante a pandemia, contudo, a saída de qualquer ambiente, por mais doméstico
que seja, passa a ser suspeita, passível de inquirição pelos órgãos competentes,
quer dizer, a mulher. Pois é o que está ocorrendo neste exato instante em que o
narrador flagra a cena.
- Vou ao banheiro. – responde ele com certa má vontade.
- Fazer o quê? – volta a inquiridora, a levar adiante o
inquérito administrativo recém-instaurado no ambiente sacrossanto do lar,
submetido às estritas leis da quarentena.
- Prefiro não responder! – diz ele, já aborrecido,
valendo-se do dispositivo constitucional de que o investigado não tem a obrigação
de produzir provas que possam incriminá-lo.
E vai em direção ao banheiro.
Fica lá o tempo necessário para atender aos reclamos da
sua biologia já um pouco desgastada pelo tempo e volta com a mesma pouca
disposição para conversa com que saiu ainda há pouco.
A mulher continua a demonstrar, com toda a segurança, que
vê o noticiário, futuca as redes sociais e ainda tem tempo para cronometrar a
ida do marido ao banheiro.
- Achei que você demorou. O que esteve fazendo?
O marido repete a mesma justificativa anterior: não vai
produzir provas contra si. Tem garantias da constituição para assim proceder. É
um cidadão livre e se reserva o direito de só declarar algo diante de autoridade
judicial concursada, empossada e paramentada para a ocasião. Se possível com
aquela cabeleira branca de juízes ingleses.
- É que eu tenho notado que você tem ido ao banheiro com muita
frequência e não estou gostando disso. Você deve procurar um médico para saber
o que anda acontecendo com você. Pode ser problema de rim. Você tem urinado
demais ultimamente.
- Problema de rim é quando não urina. Se estou urinando é
porque o rim funciona, né não?
- Ah! Mas assim também já acho um pouco exagerado. Tudo
tem de ter uma medida. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, não é assim que se
diz? E também não vejo você bebendo água, para precisar de ir tanto ao
banheiro. Aliás você não tem tomado água. Você pode estar se desidratando aos
poucos, sem perceber.
O marido dá meia volta, para fugir à preocupação da
mulher. Em vão. Agora como promotora começa a levantar indícios e sinais
pretéritos.
- Se lembra do seu Ricardo, lá do nosso antigo prédio da
Pereira da Silva?
O marido se lembra bem, evidentemente, pois ainda não é
incomodado pelo alemão odioso. Antes de virem para seu endereço atual, moravam
no apartamento de frente para o do senhor Ricardo e dona Mercedes, já idosos à
época. Seu Ricardo era um vizinho de boa conversa, simpático. Tinha sido
remador do Clube de Regatas, quando mais novo, e até pouco tempo mantivera o
hábito de sair pela Baía de Guanabara molhando o casco de seu barco, um single
skif branco, impulsionado por grandes remos apoiados às laterais.
No entanto, começara com um comportamento estranho, que
foi denunciado à filha pelo proprietário do bar no térreo do edifício, que
ficou preocupado com o que vira. É que seu Ricardo, com frequência usava o banheiro
do bar, e José, o dono do estabelecimento, notou que, após o uso, o vaso ficava
manchado de sangue. Depois disso seu Ricardo não durou muito. Ele, agindo
assim, escondia da esposa e da filha seu problema, o que atrasou o tratamento
de um fulminante câncer nos rins.
- Claro que eu sei! – respondeu ele já um tanto irritado
– Mas eu não estou com o problema do seu Ricardo. Apenas tenho ido com mais
frequência ao banheiro, porque já estou mais velho. E ainda fico feliz por meu
rim estar funcionando bem. O problema é se ele não funcionar.
- Não sei por que homem se recusa a ir a médico, se
tratar, prevenir qualquer tipo de doença. Nós mulheres somos precavidas: ao
primeiro sinal de que alguma coisa não anda bem, logo corremos ao médico. Por isso
é que morremos sempre depois de vocês. Você sabe a quantidade de viúva que há por
aí. Lembra do micro-ônibus que nos levava ao teatro no Rio como era cheio de
mulheres sozinhas, todas viúvas?
É claro que ele se lembrava. Num micro-ônibus lotado, era
só ele de homem. Se sentia como um dois de paus no meio daquele bando de mulheres
tagarelas, sem seus maridos, que já tinham ido para a cidade dos pés juntos. E ele
ali, sozinho. Por isso é que talvez tivesse tanta segurança de que aquelas idas
à miúde ao banheiro não fossem sinal de problemas.
- Lembra que a Marlene, aquela sua colega aposentada, contou
como o marido dela também morreu de uma hora para outra, sem que fosse por
problema de coração? Foi uma coisa assim, sem importância para ele, que acabou por levá-lo ao cemitério.
- Mulher, vira essa boca pra lá! Parece que está me
agourando! Está querendo também ficar viúva, para ir ao teatro num micro-ônibus
só de mulheres?
- Deus me livre! Morro de medo de ficar sozinha! Não
quero trocar nossa cama de casal, por uma cama de viúva! Você não vai me fazer
a desfeita de morrer e me deixar aqui.
A lógica da mulher escapa um pouco à compreensão
masculina. Então o marido tenta contra-argumentar:
- Então, se eu não posso morrer antes, você é que terá de
morrer, pela lógica. Aí eu é que ficarei viúvo. Mas não irei ao teatro naquele
micro-ônibus. Pode ter certeza!
E solta uma gargalhada.
- Mas não vai mesmo! E eu não vou morrer, e deixar você
aí soltinho, correndo atrás de sirigaita nenhuma. Está pensando que eu sou
boba?
E continua a mulher a futucar seu celular, ao tempo em
que também assiste ao telejornal e tece considerações acerca da vida e da saúde
em geral e do seu marido em particular.
A quarentena está apenas pela metade, sem perspectivas de
acabar. Ainda haverá muita oportunidade para que tal assunto volte à baila,
entre na ordem do dia, esteja sobre a mesa de negociação. Nunca se sabe até
onde podem chegar os problemas de fundo psicológico que esse diabo de vírus
pode produzir. Esse casal é apenas e tão somente uma de suas vítimas
atualmente.
E este narrador se exime de qualquer responsabilidade no desfecho da história.
![AG] Excursão para Caxias no fim de semana do dia dos pais. - Clicsul.net](https://www.clicsul.net/portal/wp-content/uploads/2013/07/desenho-de-onibus_thumb3.jpg)
Imagem colhida na internet.