Estou entrando na casa da
minha bisavó, a Vovó Mariquinha, para mais uma visita à sua solidão.
Minha mãe era uma boa neta. Sempre
visitava Vovó Mariquinha, nos finzinhos de tarde, comecinhos de noite, antes da
hora do jantar, de modo a não quebrar a rotina da casa sossegada.
Vovó Mariquinha vivia sozinha
numa casa grande e elevada, a que se tinha acesso por uma escada externa, com três
quartos, sala espaçosa, cozinha comprida e alpendre para o lado de uma chácara
cheia de árvores, na rua que entra em Carabuçu.
Devo confessar hoje que, à
época, lá pelos meus oito-nove anos, a visita à Vovó Marquinha naquele horário
jogava, na minha imaginação infantil, cores soturnas sobre a casa. A sala,
único espaço a ter a lâmpada acesa, onde sentávamos para conversar com ela,
diante de uma comprida mesa de madeira, ladeada por dois bancos também
compridos, era exagerada para minha cabeça de menino: parecia uma vastidão. A
decoração, se é que se poderia assim chamar a presença de poucos móveis,
sobretudo uma cristaleira escura, era de austeridade espartana. A cozinha,
localizada à direita, a partir dos fundos da sala, permanecia numa penumbra
soturna, com suas panelas de alumínio refletindo mal e mal a luz da sala.
Porém o que me chamava a
atenção era o relógio de parede, em madeira também escura, com dois bojos
redondos protegidos por vidros, através de que era possível ver o movimento do
pêndulo, com seu tique-taque cadenciado, a fazer escorrer bem devagarinho o
tempo da conversa.
Eu ficava ali, absorto,
contemplativo, como que hipnotizado pelo vaivém daquele mecanismo de precisão, tendo
como fundo sonoro as vozes suaves da minha mãe e da minha bisavó.
Por essa época, Vovó Mariquinha
deveria ter cerca oitenta anos, estava perfeitamente lúcida, como aliás
permaneceu até seus dias finais, já com cento e dois anos, e não tinha nenhum
medo em viver sem ninguém consigo. Fazia suas refeições, cuidava de sua casa,
que estava sempre limpa, e gostava quando minha mãe lá aparecia, para trocar
dedos de prosa sobre assuntos antigos, lembranças de um passado que a mim
pareceria muito afundado no tempo, e outros contemporâneos, a que não faltavam
a política e as notícias da família, as peripécias singelas da vila pequena.
Eu e meus irmãos, mais novos
do que eu, ficávamos quietos, sem desassossego, sentados nos bancos, braços
apoiados na mesa, aguardando que aquela conversa tivesse fim, e nós
regressássemos a casa. Se ainda houvesse luz diurna, até corríamos pelo terreno
espaçoso, onde ficava uma edícula em que moramos quando eu ainda era bem
pequeno e meus irmãos ainda não existiam, da qual guardo na memória algumas
poucas imagens e o cheiro da casa construída em pau-a-pique. Caso a escuridão
da noite já se fizesse presente, o medo impedia que arredássemos o pé da sala.
E eu ficava olhando o
pêndulo a balançar cadenciadamente, ouvindo ao mesmo tempo o tique-taque
característico das engrenagens do relógio, como a pingar de modo dolente o tempo
a escorrer suave e sem pressa sobre aqueles meus dias de infância.
E não me lembra mais a que
hora chegávamos à casa da Vovó Mariquinha, quantas horas lá ficávamos – se é
que chegasse a tanto! -, nem tampouco o caminho da volta.
Só me recordo bem do balanço
do pêndulo, do tique-taque monótono e das vozes plácidas da minha bisavó e da
minha mãe, tecendo com palavras a vida simples daqueles tempos.
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Pintura de Meyer von Bremen (1813-1886), colhida da Internet. |