Aqui vai a terceira e última parte do levantamento sobre as doenças da vila, no tempo da minha meninice e adolescência.
Mau
olhado: O mau olhado é uma doença, ou antes, uma condição sobretudo psíquica e
mítica na crença do povo do interior. Atribuía-se a algumas pessoas a
capacidade de, com seu olhar, produzir efeitos nocivos e às vezes fatais sobre
plantas, animais e pessoas. Tive um tio-avô que era conhecido por seu olhar perigoso.
Contavam que ele descobriu esse seu lado negro, quando admirou um pássaro sobre
um galho de árvore e o bichinho, de imediato, tombou fulminado. Ao visitar um
conhecido, ele alertava a pessoa para tirar de seus olhos qualquer passarinho
de estimação. Tal característica também era nomeada como “olhar de seca
pimenteira”. Por outro lado, também, meu tio era chamado para olhar bicheiras
de animais, a fim de que elas acabassem. Era pôr o olho na bicheira, para o
boi, por exemplo, ficar curado.
Nó
nas tripas: A obstrução intestinal, que provoca a retenção de fezes, era assim
chamada na vila. É provocado pela torção do intestino e requer até mesmo
procedimento cirúrgico em hospital.
Paludismo:
É o mesmo que impaludismo ou malária. Nunca soube de casos de malária na nossa
região, apenas era referida como uma doença antiga, que havia causado grandes
problemas.
Panariço,
var. de panarício: O panariço é o que a medicina chama de paroníquia, isto é,
unheiro. Quando criança, era a doença que mais me causava apreensão. O panariço
tinha a fama de ser uma doença de reincidência programada: se desse no dedo
fura-bolo da mão direita, daria no fura-bolo da mão esquerda, tão logo fosse
curado da primeira vez. Não era incomum ver pessoas com os dedos enrolados em
gaze, com a mão para cima, a fim de aliviar a pressão que ocorria pela
inflamação. Ao saber que aquele dedo mumificado era panriço, eu dava um jeito
de me afastar, com medo de pegar a doença.
Pedra
nos rins: Ainda hoje assim se diz para o cálculo renal. Quando percebido a
tempo, corria-se para o João Gregório ou o Doca Nascimento e suas poções
milagrosas. O preparado levava o nome de chá de quebra pedra e tinha função de
destruir, antes que se expelisse com muito sofrimento, os cristais
solidificados na bexiga.
Pescoço
duro: Na vila, ninguém dizia torcicolo para a contração dolorida do pescoço que
deixava a cabeça de lado. O pescoço duro podia ocorrer por um movimento brusco
ou por um vento encanado que soprava sobre tal região do corpo. Nesse caso, não
havia remédio melhor do que uma reza poderosa de dona Carola ou Sá Luiza, as
benzedeiras mais famosas da vila. Minha bisavó Mariquinha também era conhecida
como rezadeira. Eu mesmo, em criança, tive um, após uma pelada no campo do
Liberdade, e fui atendido pela Sá Luiza. Ela colocou minha cabeça sobre suas
pernas, pegou um pedaço de pano limpo e uma agulha e linha e foi costurando o
pano sobre a área afetada e fazendo sua oração quase inaudível. Quando ela
terminou, meu pescoço estava curado.
Minha
irmã Cristina também conhece uma simpatia boa para todo tipo de torção,
contração e estiramento, com o mesmo procedimento acima. Deve ser feita por
três vezes, durante três dias, com exceção de sábados e domingos, e antes do
pôr do sol. É assim:
O que eu rezo?
Rezo nervo torcido,
Osso quebrado
E carne magoada.
O que eu rezo?
Segundo
ela, é tiro e queda!
Piriri:
É a diarreia nossa de cada dia, normalmente motivada por algum tipo de comida;
excesso de garapa, na época da colheita da cana; excesso de manga ou de mamão,
frutas danadas para soltar intestino de menino! Na época, não havia o soro
caseiro. Então o tratamento, às vezes, era com comida também: suco de caju, ou
mesmo a fruta, feijão com farinha durinho, os mais comuns. Às vezes, uma
homeopatia do meu bisavô Antonico Pinto, ou o socorro dos remédios do Zé da
Farmácia e do Antônio Miranda, quando o piriri persistia por mais tempo.
Sapinho:
É a candidíase oral, produzida por um fungo e muito comum em bebês e crianças.
Era habitual tratar-se o sapinho com violeta de genciana, um antisséptico de
coloração vibrante que deixava a carinha das crianças pintadas.
Sífilis:
Sífilis foi uma doença extremamente letal antes que se descobrisse a
penicilina. É uma doença infecto-contagiosa, sexualmente transmitida, que fez
muitas vítimas. Até que surgiu uma injeção milagrosa, vulgarmente conhecida
como 1914. Meu pai contava que o doente de sífilis que aguentasse a potência da
1914 estaria curado. Se não aguentasse, batia as botas. Era propriamente um
coice de mula em forma de remédio.
Simple
(pronúncia local para “simples”) é um tipo de retardo mental em crianças.
Tesourinha:
consiste no problema caracterizado por uma moleza nas pernas de crianças.
Tiriça:
é icterícia e se tratava com banho de carrapicho.
Unha
encravada e unheiro são aparentadas do panariço, descrito mais acima.
Vento
virado: esta doença não permitia que a criança conseguisse colocar as mãos nos
pés. Era tratada com o exercício de juntar a mão esquerda com o pé direito, na
direção das costas da criança; e a mão direita com o pé esquerdo.
Havia
também as doenças infecto-contagiosas que acometiam sobretudo as crianças: caxumba,
sarampo, catapora ou varicela, coqueluche, as mais comuns; e varíola, também
conhecida como bexiga, menos comum.
A
caxumba exigia também, como tratamento, repouso absoluto, inclusive com a
recomendação de que o menino doente ficasse de pernas para cima, para a caxumba
não descer para as partes, sob pena de ficar rendido. Essa consequência é a
inflamação dos testículos, o que levava os pais a temerem que o filho se
tornasse estéril.
Com o
aparecimento da vacina, o posto de saúde da vila começou campanha de vacinação
das crianças. Meu tio-avô Cícero era o responsável por aplicá-las.
Numa delas, o procedimento se dava assim: ele passava um algodão com álcool no
braço; pegava uma pena de caneta tinteiro (Os mais novos nem devem saber o que
é isso.) com a ponta quebrada, de modo a ficar rombuda; escalavrava a pele, esticada com os dedos, até minar
sangue; em seguida soprava por um canudinho fino a dose do remédio. Ao fim
recomendava que não se podia lavar, secar ou passar a mão sobre o remédio, que
deveria secar naturalmente no local. É por isso que ficamos com a marca da vacina no braço.
Com
esta terceira parte, fica encerrado o levantamento das doenças que nos
acometiam por aquele tempo. Muitas delas estão até hoje entre nós, já que as
condições sanitárias ainda não são as ideais, às vezes apenas com os nomes modernos.
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Quebrava-se a ponta da pena da caneta, de modo a servir para arranhar a pele onde se aplicava a vacina.
(imagem em mercadolivre.com).
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Nota final: Agradeço a preciosa ajuda da minha mãe e da minha irmã Cristina, com suas memórias sobre o tema, as quais enriqueceram o texto..
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