(Para Jane, Maria Lúcia e Jorge Neiva.)
Às vezes sou assaltado por certas lembranças gustativas – talvez uma das mais constantes em minha vida de glutão -, assim do nada. Sem mais nem menos, elas aparecem. Até já postei textos aqui sobre isso. Estou fazendo alguma coisa e pum! lá vem a memória de alguma coisa gostosa que experimentei durante minha vida.
É claro que isto deve ser
comum a todos os seres humanos, desumanos e extraterrenos. Comer é um dos
grandes prazeres que se tem na vida, e necessariamente deixa alguma coisa
gravada em nós.
Estava há pouco num
botequim aqui próximos de casa, onde fui bebemorar o campeonato do Glorioso
(Maitê, ainda estou esperando!), com a alternância entre um chope escuro/um
chope claro (Só faltou a Estrela Solitária.), acolitados por moelas, e me veio
à memória o fígado de galinha que comia no Bar Pracinha de Miracema.
O Bar Pracinha era um
grande salão na Rua Direita, cujo vão era sustentado por colunas
de ferro, um balcão de atendimento à direita de quem entrava por uma de suas
três ou quatro portas (Ele não existe mais.) e várias mesas e cadeiras em toda
a extensão à esquerda.
A primeira vez que lá fui,
há bons anos, foi a convite do meu sogro, o saudoso seu Beethoven, que me disse
da qualidade daquele fígado.
Aqui é preciso fazer uma
digressão de caráter gourmand. Fígado de galinha é uma iguaria não muito
apreciada pelo cidadão cosmopolita e urbano de cidade grande. O pessoal do
interior como eu é muito chegado a certas guloseimas para as quais o homem da cidade
torce o nariz, como se fosse coisa de segunda ou terceira categoria. Fígado,
moela, rim, língua – e por aí vai – estão nesta categoria.
Pois muito bem! Convidado por
ele, não me furtei a experimentar o tal fígado.
Quando lá chegamos, o bar
já estava todo tomado por clientes. Era um sábado à tardinha. Sobrou-nos,
então, a posição mais apropriada aos bares: encostar o umbigo ao balcão e degustar
o que possa sair lá de dentro da cozinha. Pedimos uma cerveja (Na época, não
havia esta sofisticação que hoje há, e meu sogro também foi habituado a só
beber uma marca de cerveja.) e uma porção de fígado.
Posso garantir aos amigos
leitores que me honram com sua atenção que os galináceos não morreram em vão
para o bar e seu cozinheiro. Não faço a mínima ideia de como se preparou aquele
fígado. Na verdade, ele não vinha com nenhuma atração visual maior, que não sua
integridade esplendorosa, um tanto vítrea ao olhar, a maciez de que é dotado e
um paladar inigualável. Só acrescentei algumas gotas de pimenta, como é de meu
feitio.
Tirante o fígado de
galinha que minha mãe pescava na panela onde fazia o restante da penosa (Até
digo isto para não parecer um filho ingrato.), nenhum outro se comparou em toda
a minha vida àquele fígado feito pelo cozinheiro do Bar Pracinha.
Alguns anos depois,
despareceu o bar, dando lugar a outro empreendimento comercial sem o charme e o
apelo do botequim, e nunca jamais, em tempo algum, pude provar outro
semelhante.
Por isso é que, ao
escolher um tira-gosto hoje no botequim aqui ao lado, para acompanhar a
homenagem etílica ao meu Glorioso, resolvi ficar na moela de galinha acebolada.
Não queria magoar a
memória daquele fígado, nem do prazer que tinha em ir ao bar com meu saudoso
sogro, Beethoven Neiva, flamenguista dos mais enjoados que conheci. Aliás não
conheço flamenguista que não seja enjoado!
Salve o Botafogo! Viva
Maitê Proença! Saudades do seu Beethoven!
![]() |
Imagem em youtube.com. |