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Tenho
cravada em minha memória a cena sedutora de um filme mexicano em que a
belíssima atriz cubana Maria Antonieta Pons, dentro de um vagão de trem,
deixava que o mocinho (ou seria o bandido?) lhe beijasse o lindo tornozelo
torneado, apenas insinuado com o suave levantar de sua saia comprida. Não sei
quem era o canalha que lhe beijava o tornozelo, nem o título do filme, nem o
nome do diretor, assim como não me recordo de nenhum fotograma anterior ou
posterior a esse. Mas esse ainda está incrustado num escaninho qualquer lá
dentro de mim. Imaginem, então, o que a cena causou em minha cabeça! Devia ter
lá meus doze/treze anos, quando vi o filme. E tive o cuidado de, após a sessão,
saber o nome daquela bela atriz e seu tornozelo maravilhoso: Maria Antonieta Pons!
Aliás, o cinema mexicano da época, através da Pelmex, era pródigo em belas
mulheres. Só para citar algumas: Libertad Lamarque, Dolores Del Rio, Ninón
Sevilla, Maria Felix. E desconfio de que continue assim até hoje...
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María Antonieta Pons (em cinemexicano.mty.itesm.mx). |
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De
quando em vez, meu saudoso avô Chico Albino, que à época morava em Duque de
Caxias, ia visitar os parentes – dentre eles meu pai, seu filho – que deixara
na pequena vila de Carabuçu. Eu o admirava profundamente. Achava-o um homem
elegante, porte nobre, sempre vestido com correção e dono de uma dicção limpa,
clara. Não tenho lembranças de que me levasse presentes. Nesse tempo, não era
comum, pelo menos na minha terra, que se dessem presentes. Mas sua presença por
lá era motivo de grande satisfação minha. Numa dessas visitas, estava conversando
com os amigos na venda de meu pai, contando lá as histórias de Duque de Caxias,
quando se referiu a certo cidadão, personagem do que dizia, com a palavra cafajeste:
-
Fulano era um verdadeiro cafajeste!
Na
hora, achei a palavra muito bonita, muito sonora, e gostei de ouvi-la da boca
de meu avô. Como já era um menino esperto, perguntei-lhe o que significava cafajeste.
Tive, então, a maior decepção com o sentido. Como podia uma palavra tão sonora,
tão bonita, significar aquilo que me dizia? Comecei, assim, a perceber que nem
sempre os sons correspondiam aos sentidos.
Quando
fui para a faculdade, tive confirmada essa percepção, ao saber do lamento do
grande poeta francês Guillaume Apollinaire, autor de Calligrammes, com a
língua francesa, que tem a palavra jour (pronunciada /jur/), de
sonoridade fechada, escura, para o que em português é dia, de pronúncia
aberta, clara. Dizia ele da necessidade poética, em francês, de adjetivar
a palavra para carrear, para seu sentido de claridade, também a claridade da pronúncia,
que há na palavra portuguesa. Assim propunha, por exemplo, clair jour (pronúncia
/klér jur/) – dia claro – em que o adjetivo de som aberto como que clareia o
sentido de jour.
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Lá
nos idos de 1950, meu pai soube, por um dos fregueses de sua venda, que certo
conhecido, durante uma partida de futebol de várzea das roças no entorno da
vila, tinha sido esfaqueado, por motivo de discussão boba, desmotivada.
Virou-se, então, para o que trazia a notícia e exclamou:
-
Xi! Coitado! Deu com os costados na cerca!
Ao
ouvir isso, quis saber do meu pai se o homem se ferira na cerca, normalmente
feita de arame farpado. Meu pai deu um sorriso amarelo e me disse:
-
Não, morreu mesmo! Dar com os costados na cerca quer dizer morrer.
Dessa
vez, percebi também que as palavras nem sempre querem dizer o que dizem e podem
nos meter em enrascada. Ê vida difícil! É o que talvez justifique aquele
camarada que se explicou à autoridade, dizendo que chamara o outro de filho da
puta no bom sentido.
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Bom
sentido que não existia há algumas décadas. E foi o que motivou um tio-avô a
atirar num desafeto, justamente por chamá-lo de filho da puta. Na época, era a
maior ofensa que se fazia a um homem, porque atingia diretamente sua mãe. Era
um agravo na raiz da nascença, como se dizia, que manchava toda a descendência,
ainda que por tabela. Tão logo foi xingado, meu tio agrediu o ofensor. A turma
do deixa-disso fez a separação dos briguentos. Após a rixa, correu a notícia de
que o outro estava andando armado, para dar fim a meu tio, que também pôs
revólver na cinta. Não era, então, estranho as pessoas andarem armadas. Os de
menor posse muniam-se de facas e peixeiras; os de maior, de garruchas e
revólveres. Mesmo que não se portassem as armas, elas estavam dentro das casas.
Por isso ocorreu que, estando meu tio num bar, em conversa com amigos, de
costas para a porta, ao ouvir o chamamento do desafeto – não se matava um homem
pelas costas –, ele já se virou atirando. O homem, alvejado, foi levado para o
hospital de Bom Jesus, vindo a falecer, tempos depois, em consequência de
complicações pelo tiro que levou.
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Os
mais velhos contam uma história interessante, ocorrida em Carabuçu. Durante o
primeiro governo de Getúlio Vargas, foi instituída uma força policial volante,
que vasculhava o interior para desarmar as pessoas. Nessa época, havia por todo
lado muitos jagunços, muitos grupos armados, e os confrontos eram
corriqueiros*. Para o norte do antigo estado do Rio de Janeiro – a Velha
Província que teimava em sobreviver –, foi mandada a volante comandada pelo
tenente Coaracy, homem de estatura baixa, mas tido como enquizilado, carne de
pescoço, temido por todos.
Vem
a volante entrando na vila, tenente Coaracy à frente, montado em sua garbosa
mula alta. Ele, de pequetito, virava um homenzarrão sobre a besta. Na porta do
botequim, estava um homem que, ao ver o grupamento, julgou por bem não se
afastar, para não levantar qualquer tipo de suspeita, o que, certamente, o
levaria a passar maus momentos. Tenente Coaracy estaca a montaria diante do
homem, que já imagina o pior. Com sua voz firme e autoritária, pergunta ao
homem:
-
Caboclo, você fuma?
Tremendo
de medo, o pobre coitado não teve como mentir e disse, com a voz já por um
fiapo:
-
Fumo, sim, senhor! Mas, se o senhor quiser, eu largo o vício.
-
Não é nada disso, caboclo! Me arranja um cigarro, que o meu acabou!
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(*
Se quiserem conhecer mais detalhes desse período da história brasileira, indico
o excepcional romance de Mário Palmério Chapadão do bugre, que também
serviu de base para minissérie homônima, levada ao ar pela Rede Bandeirantes,
no ano de 1988, com direção de Valter Avancini e Jardel Mello.)