Carabuçu carecia de uma
capela mortuária, a fim de que o igualitarismo chegasse à morte. Por diversas
vezes, houve problemas no velório de um e outro falecido, em virtude de sua
crença religiosa – ou seu ateísmo – e a disponibilidade nas igrejas locais,
normalmente cenário desse tipo de cerimônia. É bem verdade que, na vila, era
muito comum que se velassem os mortos em suas próprias casas, já que quase
todos os habitantes se conhecem e são camaradas. Isto também facilitava à
família do defunto o preparo dos quitutes apropriados para a ocasião, pois o
fogão estava logo ali na cozinha, contígua à sala onde o morto descansava sobreterrestremente
pela derradeira vez.
Um dos fatos que
determinou meu primo Délbio Azevedo a encabeçar movimento reivindicatório foi o
velório de nosso tio José Catarina, o Cate, que não encontrou abrigo na antiga
capela local e foi acolhido na Igreja Presbiteriana, que ele jamais frequentou
em vida. Como aliás todas as demais da vila, do Rio de Janeiro, onde morou por
décadas, e do Brasil, de onde também nunca se ausentou por qualquer motivo.
Depois de alguma gestão
junto à prefeitura, o chefe do executivo de Bom Jesus do Itabapoana na ocasião,
nosso conterrâneo e amigo de infância Paulo Portugal, atendeu os reclamos da
população e mandou construir à entrada do pequeno cemitério local a sonhada
capela mortuária. Para tanto, incumbiu Délbio de gerenciar a obra, zelando para
que o dinheiro público fosse usado da melhor forma possível.
Ao final de algum tempo,
lá estava a capela estalando de nova. Délbio, o maior festeiro que conheço,
resolveu, então, bancar uma festa de inauguração antecipada apenas para os
operários que trabalharam na obra. Para tanto, instalou a parafernália sonora
de que dispõe para fazer todos os tipos de comemorações da vila, comprou do
próprio bolso material para fazer cachorro-quente e bebidas – cachaça e cerveja
–, a fim de mostrar seu reconhecimento àqueles homens simples, que o atenderam
com paciência durante os trabalhos.
A festa rolava solta, com
alguns jogos que ele criou – comprou um troféu também para agraciar o primeiro
colocado –, o som animado, a rapaziada se divertindo a valer. Nesse instante,
para diante daquela nova construção, localizada na Rua Coronel Antônio Olímpio
de Figueiredo, o nosso bisavô, um jovem homem com seu carro reluzente, placa de
Apiacá, cidade próxima, já no estado do Espírito Santo. Muito surpreso, quis
saber o rapaz o que estava ocorrendo. Délbio explicou que era uma festa
reservada apenas para os operários da obra, mas que o local seria oficialmente
inaugurado no próximo sábado.
Animado com a perspectiva
de uma nova casa de diversão – bar ou coisa assemelhada –, o jovem se mostrou
interessado e disse que certamente voltaria. No entanto, para garantir,
perguntou:
- Vai ser um bar?
Délbio, que não fica
triste nem em velório, disse cheio de dentes:
- Não, amigo! Aqui vai ser
a nova capela mortuária de Carabuçu.
O apiacaense, apavorado,
engatou a primeira marcha do carro e disse, com cara de acompanhar defunto:
- É ruim de eu aparecer
aqui!
E de nada adiantou Délbio
tentar dar um panorama da cerimônia: discursos, coquetel, canapés e música
sacra e erudita, inclusive a Marcha Fúnebre, de Chopin.
O motorista só não fez o
possante cantar pneu, porque em Carabuçu isso não é de bom-tom.
 |
Cemitério de Carabuçua (foto do autor). |