De já hoje topei Zeca em
riba da ponte pescando lambari. O dia ainda tava claro, e ele ali meio
desinsofrido. Aí foi assossegar as caraminholas da cachola pra mode não ficar
doido de vez. Parei pra trocar dois dedos de prosa com ele, falar bobagens, assuntar
a vida, discutir o último jogo do Liberdade com o Olímpico, mas ele não tava aí
pra conversa. Deu uns muxoxos a cada palavra minha, sem ânimo pra nada.
Desconfiei daquilo.
- Que que tá pegando, Zeca?
Tá encafifado com alguma coisa? Desembucha aí, que é melhor.
Zeca não queria se abrir. Aliás
ele tem muita dificuldade de botar pra fora seus problemas. Mas, eita!, todos
nós temos problemas! Eu mesmo mal desembaraço de um e já me enredo em dois ou
três, em seguida, cada um mais cabeludo que o outro. Então é comum a gente
viver arrodeado de problemas. O homem é uma ilha arrodeada de problemas, penso
eu.
Zeca remancheou um pouco, se
fez de desinteressado, não queria incomodar o amigo com seus desassossegos, que
ele chama de grumixamas, que eram coisas lá dele, que podiam ser resolvidos com
o tempo. Pra dizer a verdade, nem sei de onde ele tirou grumixama para
problema. Será que é pelo som da palavra? Se fosse cipoal, a gente ia atinar
melhor. É que problema parece mais com cipoal, que você tem de vencer na base
do facão de mato afiado.
- Às vez o tempo não dá
tempo pra resolver, Zeca. Tresantontem mesmo era o compadre Joanico às voltas
com problema com o burro da carroça. O bicho apareceu sorumbático, olhar de
peixe morto, que fez Joanico se valer do Filhinho Gregório com uma garrafada de
ervas do mato. Foi só meter a beberagem goela adentro dele, pra em poucas horas
o Jeitoso, que é o nome dele, voltar ao que era. Já tá lá todo felizão puxando
a carroça, como se fosse a melhor coisa do mundo.
- Mas eu não tou
precisando de garrafada de Filhinho Gregório nenhum, Tatão! – disse ele meio
arrevesado.
Meu nome é Sebastião Ladino,
mas todo mundo só me chama de Tatão. Por aqui, quando eles põem sobrenome, é à
moda antiga, ligando a gente ao pai ou à mãe: Tatão do Hortêncio. É, meu pai
era o Hortêncio Ladino, dos Ladinos lá do Caparaó, que Deus o tenha, que chegou
na vila há um tempão. Aqui tenho a fama do meu sobrenome verdadeiro. Gosto de
puxar assunto com os outros. Há sempre um pessoal meio casmurro, de poucas
palavras, mas eu não: eu gosto de uma prosa, qualquer que seja seu rumo. Por
isso é que resolvi indagar do Zeca aquele jeito esquisito dele, ali, pescando
num lugar onde quase ninguém pesca. O poço que fica embaixo da ponte não tem
pesqueiro bom. Isso agora, pois em antigamente era só jogar o anzol e puxar um
piau, um mandi, um lambari. Depois, também, Zeca é meu amigo desde menino.
Praticamente a gente foi criado junto, brincando pelos pastos, subindo em
árvores, chupando fruta madura do quintal, levando corrida de cachorro bravo,
caçando passarinho com bodoque, tomando banho no poço do valão. Até a escola
nós frequentamos juntos, na mesma sala, com a mesma professora, levando os
mesmos pitos. Nossas famílias sempre moraram uma perto da outra, lá para os
lados das terras do doutor Ferolla.
Ah! esse era outro homem
bom! Eh, doutor Ferolla! Deu até o terreno para o Liberdade fazer o campo de
futebol, cercado com aquele muro alto, que a criançada pula para jogar bola,
nas horas vagas. Tá lá o nome dele escrito na parede da entrada, na cor azul:
Estádio Doutor César Ferolla. Eu mesmo não me alembro dele. Mas meu pai falava
muito bem, dava boas referências dele. Que era um médico de bom coração,
prestativo, atencioso.
Mas resolvi deixar o Zeca
pra lá com suas preocupações. Não quer me falar, então azar o dele! Ele que
resolva sozinho. Se quiser tou aqui para ajudar.
- Então tá, Zeca! Na hora
que precisar, tou aí. Sabe que pode contar comigo.
E saí dali sem ouvir se ele
respondeu ou não. Isso também não me chateia. Tou acostumado a esse pessoal de
poucas palavras. Cada um é do seu próprio jeito e a gente não pode mudar: o pau
que nasce torto morre torto, já diz o ditado popular.
Um pouco depois, mais à
frente, parei na venda do Argemiro para comer um pé de moleque. Cheguei como
sempre: cheio de espalhafato e boas intenções:
- Boas tardes, Argemiro! Já
cheguei doidinho por um doce daqueles que só dona Zezé sabe fazer! Já tem pé de
moleque fresquinho?
Eu sabia que, mais ou menos
àquela hora, dona Zezé já estava com o tacho pronto, fazendo aquele doce que
todos nós apreciamos tanto. E eu, principalmente, gosto dele quentinho, ainda
meio mole. É que depois que esfria ele endurece, e aí a gente que usa dentadura
postiça fica com mais dificuldade pra quebrar o doce nos dentes. Até ando prevenido,
com meu canivetinho Corneta cabo de chifre no bolso, pra certas ocasiões. Uma
delas é cortar o pé de moleque em pedaços pequenos, pra não correr o risco de
a dentadura pular da boca, na hora de morder. Aliás tou carecendo de voltar no
Dirceu Dentista, pra mode ele ajustar essas dentaduras. Tem horas que fica
chato falar, e elas ficam pererecando na boca, ameaçando cair em cima do vizinho
de conversa. Imagina o papel miserável que isso seria!
Argemiro trouxe lá de dentro
– a venda fica na parte da frente da casa de moradia – uma peneira com alguns
doces para eu escolher. Olhei um bem graúdo, lotado de amendoim, e peguei. Ele
ainda tava morninho, bem do jeito que eu gosto. Depois da janta – a gente na
roça janta no finzinho da tarde – comer um pé de moleque quentinho é tudo de
bom na vida.
Aí puxei assunto com o
vendeiro, que também não é de muita conversa, mas não interrompe nenhuma que
foi puxada. Como ele gosta muito de passarinho e de pescar, indaguei da próxima
pescaria. Isso era sábado e quase todo domingo é certo de a turma dele sair pra
beira do Itabapoana, lá pelas terras da viúva ou do Jorge Assis, pra jogar sua
isca na água e apagar um pouco as preocupações que rondavam a vida. Por essa
ocasião, as rádios viviam dando notícias da briga do Lacerda com o doutor
Getúlio, e o povo andava preocupado aonde isso ia chegar.
Ele então me disse que já tava
tudo combinado com o Domingos Peçanha, o João Coleto, o Alcino Carroceiro, o
Alcides Almeida e o João Dutra. Eles sempre partiam cedinho, ainda dia escuro, em
cima de suas bicicletas, rumo aos pesqueiros da região. O melhor, segundo ele,
ficava na curva do Jorge Assis, ponto onde o Itabapoana desguia seu leito um
pouco pra esquerda, junto a uma pequena mata onde há bandos de macacos-prego.
Conforme ele me falou, dali
se tira muito boa pescaria: piaus grandes, traíras gordas, grumatãs largas,
corvinas bonitas e, quando o pescador é sortudo, dourados e robalos de tamanho
avantajado. Até mesmo cachimbau Argemiro consegue fisgar, nos tempos desse
peixe, que é muito arisco e escondedor em locas e grutas afogadas. E ele tira
com vara de pescar mesmo, com uma técnica que inventou, só observando as
negaças do peixe, que gosta de mamar a isca encastoada na ponta do anzol.
Fiquei ali conversando,
puxando assunto, agora sobre coleiros, canários, bicos-de-lacre, curiós,
trinca-ferros, papa-capins, até o fim da consumição do segundo pé de moleque,
que comi bem devagarzinho, pra aproveitar o gosto. Paguei e fui pra barbearia
do Moreninho bem em frente. A essa hora da tarde, já começa a juntar freguês
pra aparar o pico e rapar a barba. Moreninho cortava o cabelo do Enéas,
enquanto o Louro e o Dirceu do Pequetito esperavam sua vez. Entrei,
cumprimentei os presentes e me coloquei na fila.
- Marraio aí, Moreninho.
É difícil encontrar um
barbeiro soturno, trancado. No mais das vezes, são falantes e comunicativos. Na
vila, além do Moreninho, tem o Nego Souza e o Adolfo. Só esse último é meio carrancudo,
de poucas palavras. Por isso é que me dou bem nesse ambiente. Não há um
instante em que a gente deixe de conversar. Sai tudo que é assunto,
principalmente de futebol. O jogo do Liberdade contra o Olímpico, no último fim
de semana, no nosso campo, então, é assunto que só termina quando ocorre outro
jogo. E se fala de Vasco, de Botafogo, de Fluminense, de Flamengo. Só não se
fala da vida alheia. A vida alheia ali na barbearia do Moreninho é assunto
proibido. Se alguém começa com assunto de “eu ouvi falar que a mulher do”, o
barbeiro logo interrompe, sem deixar que o boca de trapo cite o nome do pobre
coitado, que já deve de estar sofrendo nas línguas ferinas de uns e outros. E
logo emenda assunto de cinema, que é outra questão da sua preferência. Precisa
ver como os olhos dele brilham quando fala de Brigitte, Marilyn, Rita e Eddy.
Até deu o nome de uma de suas filhas dessa última: Edilamar, assim mesmo
conformado ao nosso jeito de escrever.
Ali fiquei bem uma hora e,
de barba feita, Aqua Velva cheirando até a pracinha do Sabiá, procurei rumo do
bar do Tônio Pinto, na esquina da rua do clube, onde gosto de ir pra dar
minhas tacadas na sinuca. Chegando lá vi que já estava armada uma partida de
vida. Ciloca, Neca Adolfo, Nico Dutra e Romeu apostavam dinheiro em suas bolas.
Preferi não entrar. Era mais prudente. Eu ia perder meu suado dinheirinho com a
maior facilidade. Aqueles quatro tinham o taco calibrado, sola empoada de giz e
uma visão de gato. Aí resolvi dar uma de sapo, só olhando e me deliciando com
as jogadas que cada um armava. Na verdade, só de ver os quatro jogando a gente
já fica contente. Todo jogo bem jogado é bonito, é emocionante. Até mesmo jogo
de baralho. Algumas noites, por exemplo, vou para o reservado do bar do Tônio pra
jogar. Às vez chego atrasado e a mesa tá completa. Então fico de sapo, olhando,
aguardando minha vez, com a desistência de alguém. E vejo as manobras jeitosas
de um e de outro – e sempre de bico calado – na combinação das cartas do
pife-pafe ou do cunca. E é bonito de ver um descarte final, com os outros
jogadores xingando e jogando as cartas da mão sobre a mesa verde, lamentando a
partida perdida. O Herson é o mais espalhafatoso. Quando compra uma carta boa
de encaixe numa sequência, enfia a bichinha no lugar, empurrando com o
cotovelo. Aí os demais já sabem que o jogo tinha melhorado pra ele. A não ser
que fosse um blefe, muito comum entre nós.
Mais tarde, lá pelas oito e
meia, nove horas, vou até a venda do Nalim, onde tenho uma caderneta de fiado,
e pego os mantimentos da semana, que o Dadá tinha separado seguindo minha
listinha. Ponho tudo num saco de aniagem branquinho, branquinho, lavado com
capricho pela patroa, meto ele nas costas e volto pra casa, caminhando devagar,
matutando sobre as coisas da vida, contando os passos que me separam da Rua,
que é como a gente chama a vila, depois de cruzar novamente a ponte onde
encontrei Zeca quando chegava, e pegar a estrada que segue poeirenta para as
propriedades espalhadas pela vargem grande aos pés dos morros em volta. Em noites
de lua cheia, nem precisa da lanterna que trago no bolso da calça. A luz do
luar, no meio de um mundaréu de estrelas dependuradas no vão do céu, prateia a
imensidão dos pastos em volta e alumia o caminho que me leva de volta à minha
casinha humilde, mas muito bem cuidada pela mulher. Quando chego, os meninos,
ainda acordados, esperam que, de dentro do saco, saia uma bala, um biscoito ou
um pão doce, que sempre pego na padaria do Chico Furtado, bem ali ao lado da
venda do Nalim. E com esse gostinho doce, a gente sopra a chama das lamparinas,
faz escuro nos quartos e ferra no sono, com a certeza de que o dia seguinte vai
fazer a gente pular da cama com toda a disposição, porque para a criação de
terreiro não tem sábado, domingo, dia santo ou feriado.
 |
Paul Cézanne (1839-1906), Os jogadores de cartas (1892) (em todamateria.com.br). |