Estou na sala, vendo velhos
vídeos de música pela tevê. Neil Young era até bem jovem neste de agora. Já
havia visto outros antes: Crosby & Nash; Crosby, Stills, Nash & Young; Yes; Amarok e alguns de rock progressivo francês.
Devo estar um pouco
nostálgico hoje. Ou não! Como diria Caetano. Nunca se tem certeza disso.
Então me ocorreu procurar
por um velho amigo das lides acadêmicas, que não vejo há anos. Mas como achá-lo,
se não tenho mais nenhuma referência dele? Já era casado então, e eu sabia onde
morava, frequentava sua casa. Conhecia-lhe a mulher e o filho. Mas há muito se
separou, saiu de casa e foi viver com outra. O filho certamente já lhe deu
netos. Sua ex-esposa nunca mais vi. O telefone não é mais o mesmo. E na época
ainda não havia celulares.
Ocorreu-me, assim, tentar encontrá-lo
nos lugares possíveis. Fizemos Letras – Português/Francês -, gostamos de ler,
temos um humor semelhante, somos até conterrâneos, mas a Livraria Gutenberg,
onde certamente ele devia ir, já não existe também. Botequins ele não
frequentava. Nunca me ocorreu vê-lo virar um suado copo de cerveja.
Que opção, então, resta para
tentar achá-lo? Pensei na idade que temos. Ele, inclusive, é alguns poucos anos
mais velho que eu. Assim é provável que em alguma farmácia com entrega ele
esteja na agenda.
Liguei para a Drogaria Tal
(nome que inventei agora, para não fazer propaganda gratuita). O atendente foi
solícito. Aproveitei para encomendar uma caixa de analgésico e lhe contei o
verdadeiro motivo da minha ligação. Queria que ele conferisse em sua agenda se
consta o nome do meu amigo. Falei da nostalgia, da saudade, essa coisa tão
brasileira que, até mesmo no verão escaldante de Niterói, pode nos assaltar.
É bem verdade que ele achou
meu desejo um tanto esquisito. Mas apelei para minha história com a farmácia. Visse ele quantas vezes tinha solicitado alguma entrega. E ele sabia meu nome, endereço, número de telefone, entre outros dados. Meu desejo era apenas uma saudade inocente. De velhos amigos que não se veem há tempos.
Falei ainda que
meu sumido amigo deve morar no nosso bairro e talvez até fosse cliente do
estabelecimento. Repeti seu nome. O atendente procurou no computador e
encontrou. Contudo teve receio de me fornecer seu endereço e telefone. Para tentar
uma segurança no atendimento, perguntou se eu imaginava que tipo de medicamento
ele consumiria. Garanti-lhe que era difícil. No tempo da faculdade todos éramos
bem mais jovens e não costumávamos consumir nenhum tipo de remédio de forma
habitual.
- Mas o senhor não imagina,
já que o conhece bem, o que pode estar incomodando a saúde dele hoje em dia?
Então fiquei refazendo a
figura do amigo. Era alto, magro, branquelo, parcos cabelos já à ocasião,
sorriso solto, galanteador contumaz, mas sempre de paletó, gravata e uma antiga
valise James Bond. E trabalhava numa subsidiária da Companhia Siderúrgica
Nacional. Era advogado e chefe do setor de seguros.
Achei que seus nervos não
tivessem resistido ao estresse da ocupação e provocado avarias em seu estômago.
Ah, e era homem frugal na alimentação. É isso! Meu amigo talvez tivesse problemas
estomacais, que se agravaram com o episódio da separação e não lhe tenham dado
sossego desde então.
- Veja aí se no registro das
encomendas dele constam remédios para gastrite, úlcera, azia, coisas desse
tipo.
O atendente levou alguns
minutos conferindo os registros e me disse:
- Não! Nada desse tipo.
Aqui, neste nome que o senhor me passou, apenas alguns analgésicos e vários
daqueles remedinhos azuis. Se é que o senhor me entende. Infelizmente não é
esse o seu amigo.
Puxa vida! Deve ser ele
mesmo. O danado não teve nada de estômago e anda de saliências por aí.
Preciso encontrá-lo o quanto
antes. Ele deve ter muitas histórias a me contar!
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Diógenes procurando um homem honesto, de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein (1751 – 1829),1780 . |