Puxa
vida! Sinto que sou mesmo brasileiro, apesar de todos os percalços, de todas as
frustrações, de todos os sonhos não realizados.
Agora,
por exemplo, bebo pisco com tira-gosto de guacamole, ouço Neil Young na caixa
de som importada, através do programa Spotify, mas me sinto bem brasileiro,
extremamente. Talvez até induzido a pensar em sair do país, em abandonar a
terra, à procura de paragens mais amenas, mais seguras, mais limpas, mais cultas,
mais pacíficas.
Sou
brasileiro moldado pela terra, marchetado pelo barro preto da curva da estrada
do Jacó, mas lavado pelas chuvas torrenciais de verão. Chateado com tantas
coisas que julgo erradas, com a desesperança de que meus netos vivam num país
mais decente. Mas sou visceralmente brasileiro. Atarracadamente preso à terra,
desde a vila-mãe perdida do interior, até a cidade grande cheia de asfalto e
incertezas.
A
cultura me molda. A língua portuguesa me encanta. A culinária me seduz. As relações
sociais tecem a teia em que me enrosco inapelavelmente.
Sinto
que sou definitivamente brasileiro. Originário de um torrão singelo, perdido no
mapa do Brasil, e com a pretensão de que o mundo vem até mim, sem que eu
precise fazer muito esforço. Chega pelos livros, pelos modernos meios de
comunicação, pelo cinema, pela música, decidido a me arrebatar. Mas continuo
firme, os pés fincados no chão, os olhos à procura do Cruzeiro do Sul que não
se vê na cidade, mas com a convicção inabalável de que sou brasileiro. E aqui
farei meu repouso eterno.
Sinto
que sou brasileiro, como um determinismo fatal de tudo que eu vivo.
E disso
não consigo abrir mão!

Imagem em youtube.com.