Seu
Elias era o ascensorista do prédio onde eu trabalhava. Magro, alto, cabelo
preto liso e farto, bigodinho aparado, tinha o queixo afundado a fórceps, como
o de Noel Rosa. Sua fisionomia era uma mistura de Jacó do Bandolim com o
compositor da Vila. Mas era um homem simples, trabalhador humilde, num ambiente
de vossas excelências e excelsos sodalícios.
E
desenvolvia seu trabalho de subir e descer andares, nos velhos elevadores de
porta pantográfica, com bom humor, simpatia e uma verbosidade acima da média. Enquanto
com uns dizia “bom dia, excelência!”, “pois não, excelência!”, com os
funcionários comuns como eu, sempre tinha uma brincadeira, uma conversa
descontraída. Comigo, por exemplo, vivia a questionar meu suspeito preparo
físico, minha minguada habilidade corporal para alguns exercícios, a fim de me
instigar, já que eu lhe havia confessado minha preguiça proverbial.
Às
vezes, chegava à porta da sala onde eu estava, jogava seu molho de chaves ao
chão e o pegava flexionando o tronco, mas mantendo os joelhos fixos, com uma
facilidade afrontosa. E perguntava, debochado, se eu faria semelhantemente. E
ria triunfal!
Certo
dia, porém, mostrei a ele que não haveria dificuldades. Joguei minhas chaves ao
chão, flexionei os joelhos, mantendo o tronco ereto, e as peguei, sem
dificuldades à época. E lhe disse, zombeteiro:
-
Como mocinha de saia plissada curta, seu Elias. Bem-comportada!
E
todos rimos.
Algum
tempo depois, chegou-nos a notícia de que seu Elias tinha sido atropelado por
um ônibus urbano, enquanto andava de bicicleta pelas ruas do seu bairro, atividade
que fazia com frequência.
Meses
depois, volta seu Elias ao trabalho, após bom período de recuperação de seu
acidente, ainda um tanto estropiado do contravapor que levara do veículo descontrolado.
Aí
foi a minha vez de me vingar:
-
Viu, seu Elias, o que dá ser atleta? Acabou atropelado andando de magrela. Isso
não acontece comigo. Talvez eu pudesse até estar dentro do ônibus que o
atropelou. Nunca de bicicleta.
Ele
riu meio sem-graça e percebeu que, desta vez, tinha perdido para o preguiçoso.
E
continuamos a boa convivência, cada um em sua função, até que troquei de setor,
de local e de prédio.
E lá
ficou seu Elias, subindo e descendo o velho elevador de porta pantográfica,
brincando com uns e cumprimentado outros com a deferência que o cargo exigisse.
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Imagem em flickr.com/photos/violinha/300456704 |