Gracinha herdou da mãe a
alvura da pele, as sardas de ferrugem do rosto, os cabelos ruivos
encaracolados. Do pai, Gracinha herdaria fazenda de caprichada extensão, com
gado subindo e descendo morros, pastando para engorda e produzindo carroças de
queijo curado. Por isso era considerada a moça mais interessante da vila. Sua
beleza tinha, assim, o brilho de sua herança.
Morava numa vasta casa de
várias portas e janelas, com eira, beira e algumas outras besteiras de que os
demais habitantes da vila não desfrutavam. Por exemplo, geladeira, que em sua
casa, no tempo em que não havia luz elétrica, era um luxo movido a querosene.
Só ela e os pais – fora as visitas de prestígio – tomavam água geladinha. Até
mesmo o velho guarda-comida, peça mobiliária presente na casa de quase todos,
na dela era coisa morta e enterrada de alguns verões.
Contudo Gracinha não fazia
conta de nada disso, para que se considerasse o melhor partido dentre todas as
moças do lugar, por causa da filha do padeiro, Margarida, e sua, dela, cor de
jambo, seu cabelo negro e liso, a chegar até as duplas covinhas da anca, só
vislumbradas quando ela tomava banho no açude do valão Liberdade. Mais o jeito
brejeiro de andar, a cruzar as ruas e entortar as cabeças dos homens pelas
esquinas. Coisa de deixá-la com profunda e silenciosa inveja. Inveja ressentida
de moça de maiores posses materiais, porém menos riqueza física. Sabia que em
beleza não podia concorrer com a rival, apesar de ser ela a preferida dos
rapazes do lugar, os quais, no entanto, achava bobos e mocorongos.
Por essa época, a vila não
oferecia futuro promissor a nenhum dos rapazes que circulavam na pracinha nos
finais de semana à procura de uma namorada. Para isso, havia, então, um ritual
marcado, contra o qual não se lutava: as moças passeavam no sentido horário; os
rapazes, no sentido anti-horário, de modo que era possível, a cada volta
completa pela praça, flertar – verbo da época – a pretendida duas vezes, em
trezentos e sessenta graus.
Até que, num sábado à
tardinha, surgiu moço de blusão de couro, capacete de couro, óculos protetores,
botas compridas até quase o joelho, roncando o motor poderoso de uma brilhante
motocicleta preta, guidão alto, assento baixo com o banco do carona em couro
acolchoado, terminando em franjas.
O estranho chegou à vila com
a missão de conquistar a futura herança de Gracinha, não importassem os
sacrifícios que teria de fazer. Soubera, por fonte amiga, que a moça, embora
não fosse feia, também bonita não era, mas que o futuro estaria garantido sobre
os alqueires, as vacas e a produção leiteira. E ele sempre fora um aproveitador
de ocasiões.
Mesmo a motocicleta
reluzente havia sido o último presente que recebera de viúva rica, a quem
cortejava, antes que os filhos dela interferissem no caso e dessem uma carreira
nele, a poder de um parente de maus bofes lotado na Invernada de Olaria, dos
velhos tempos da Invernada de Olaria de tão sombrias lembranças.
Quando a moto soltou o
último suspiro carbônico na pracinha da vila, o coração da menina parece ter
sido abduzido, e seus olhos se fixaram naquela figura desconhecida. Pode-se
dizer que foi amor à primeira vista, bem de acordo com o espírito romântico
dela.
O estranho recém-chegado
atendia pelo nome de Gumerval dos Prazeres, um criado ao dispor da moça, com
rapapés e tudo mais que pudesse impressionar.
Do assalto ao coração de
Gracinha até o primeiro cafezinho na sala da casa vasta de eira, beira e outras
besteiras, não decorreram vinte e quatro horas, prazo mais do que suficiente
para o espertalhão se promover, dilatar falsamente suas posses e pretensões e
afirmar sua admiração antiga por Gracinha, apenas pelas informações que recebia
de conhecidos que moravam na cidade grande.
Ocorrera que, numa noite de
lua cheia, meses atrás, com a moto estacionada no Joá, teve a certeza de que
aquela moça, lá naquela vilazinha perdida no interior do estado, era a sua alma
gêmea. Ele também um romântico incorrigível, como confessou, aproveitando para
declamar alguns versos de ocasião, que tinha memorizado desde os bancos
escolares.
Foi por isso que Gracinha
não resistiu.
Quem resistiu, no entanto,
foi o pai da moça e futuro e pretendido sogro de Gumerval. Tendo ele relações
fortes com o delegado de polícia de Bom Jesus do Itabapoana, solicitou que se
levantasse a ficha pregressa do pretendente, a fim de que não fosse assaltado via
coração da filha.
Passados cerca de trinta
dias, durante os quais Gumerval passeou de motocicleta para todos os lados,
inclusive adentrando ainda mais na intimidade da casa, chegou a informação de
que o tipo era um mandrião conhecido nas imediações da 28 de Setembro, em Vila
Isabel, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, useiro e vezeiro em
expedientes condenáveis, através dos quais mantinha uma vida mansa de folgados
colarinhos.
O pretenso futuro sogro,
certa noite, no entanto, convidou Gumerval a tomar uma cerveja no bar do
Chambão, a fim de que se entendessem melhor acerca das pretensões do
forasteiro. Armou-se da garrucha cano duplo, cabo de madeira maciça, cuspideira
de fogo em molde de canhão dos tempos de Dom João VI, levou dois homens de sua
propriedade para ficarem sentados a uma mesa ao lado, de sobreaviso, pediu uma
cerveja e foi direto ao assunto, respaldado pela arma, que colocou ao lado do
copo.
- Levantei sua ficha
completa na praça de Vila Isabel, com a auxílio de meu amigo delegado, e vim
propor um negócio bom pra você: pegue sua moto e escafeda-se daqui, na santa
paz do Senhor. Nem vai falar com Gracinha. Isso depois eu resolvo com ela. Está
vendo aqueles dois armários dobrados ali na mesa ao lado tomando cerveja? Podem
melhorar meus argumentos, no caso de você não ter entendido bem.
Gumerval, lívido como uma
folha de papel, levantou-se sem uma palavra, fez pequena reverência com a
cabeça, saiu de passo hesitante pela porta do meio do bar do Chambão, ligou sua
potente moto preta e sumiu no oco do mundo.
Segundo o sogro, que passou
a contar a história para seus amigos mais chegados, Gumerval tinha ido para o
caixa-prego, para onde o Judas perdeu as botas, para o cu do conde.
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