Não sou
dado a saudades de coisas, lugares e épocas. Sou mais chegado a saudade de
pessoas, de gente. Mas hoje amanheci com saudades de mim, em minha terrinha
natal, nos meus verdes anos, como diria o poeta romântico. É que vi um programa
de viagem gastronômica na tevê, e a linda apresentadora estava tomando leite
queimado, num restaurante em Belo Horizonte.
A cena
me deixou bem balançado. Só não chorei, porque ainda há um resquício de
espírito machão lá no fundo dessa carcaça septuagenária a me mandar segurar
certas emoções baratas. Mas que deu vontade verter umas lágrimas, isso deu! Tenho
de ser sincero com vocês, pelo menos agora, em que resolvi abordar o assunto.
É que
leite queimado, que os mineiros chamam de leite queimadinho, era uma das
delícias da minha infância, sobretudo nos dias frios do inverno de Carabuçu. Era
só a temperatura cair, para que pedíssemos à nossa mãe que nos fizesse aquela
delícia, elaborada com açúcar, que se queimava na panela; o leite, que se
lançava sobre o açúcar derretido; e a canela em pau, lançada em seguida. Então,
eu e meus irmãos tomávamos com cuidado aquele líquido doce e quente, encorpado
e cheio de sabor, para espantar um pouco o frio que entrava pelas gretas de
portas e janelas e acabava por penetrar nos ossos e na pouca carne de nossos
corpos miúdos.
Por essa
época, o inverno em nossa vila costumava ser rigoroso. Já disse alhures que,
certa vez, ouvi meu pai responder a uma pergunta sobre a temperatura e dizer
que estava em oito graus. Lá fora, pela janela, era possível ver a cerração
baixa sobre as casas e os paralelepípedos das ruas.
Hoje
já não faz tanto frio. Os especialistas estão cansados de nos alertar sobre o aumento gradual da temperatura do planeta.
Hoje
também, já perdida a infância descompromissada do interior e as boas taxas da
saúde geral, o leite queimado que me fazia tão bom gosto na vida é iguaria de que já
não posso mais usufruir.
Por isso
é que, ao ver a cena em que Mel Fronckowiak, a bela apresentadora do programa,
provava maravilhada aquele gosto de infância, inverno e saudades provocou em
mim um marejamento incômodo nos olhos. Bem que eu não queria, mas foi meio incontrolável,
confesso.
Fui
levado de supetão a uma infância que ficou perdida num tempo e num lugar
mágico, que a memória, teimosa que só ela, ainda preserva. Para que a vida não
pareça de todo sem sentido. E eu possa ter histórias a contar a meus netinhos.
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Na casa da mãe (foto do autor). |